Postagens

Mostrando postagens com o rótulo poesia

TRÊS POEMAS DE MARIANA AGUIAR COUTO

Imagem
fotografia do arquivo pessoal da autora  A VÓ CEGA DA MENINA INOCÊNCIA O poder está de sapatos lustrados sentado à mesa. E rabisca ordens em papéis de timbre.  Escondida em forma de dom, encontra-se a persuasão. De onde a ordem vem. O que será feito é dito com doçura — imponência bruta. Dinheiro, política, poder.  A sombra do mal é o espelho do medo. A inocência pobre. Magra,  Baixa,  De olhos grandes. Atenta. Nos seus pés o primeiro tênis. — Felicidade. Pagamento. Olhos que brilham. Então parte, segue sua missão. Obstinação precoce. Forçada.   São pés pequenos que cruzam uma longa estrada. Mãos pequenas que pulam a cerca. O terço que se prende,  Por lá cai e fica.  A vó quem deu. — Proteção.  Rasga os bichos,  Segue ordens.  Mas a surpresa é a visita do ódio… Que chega sem avisar.  A inocência toma o lugar do bicho. Morre sem ver.  Deixa a vó. Que é cega,  Esperando uma  volta.  O feijão pra esquentar....

DOIS POEMAS DE MARIA EMANUELLE OSÓRIO PRATES

Imagem
  fotografia do arquivo pessoal da autora   NA PLEURA FOI FERTILIZADA A VÁRZEA o bicho humano é filhote de gravuras nasce ternura de pés de ouro saltitando serra acima deglutindo bananeiras e estrelas esperando nas vazantes um barco que nunca chegará é preciso ensiná-lo a plantar um barco dizer que também o bicho humano é a transumância farejando as sempre-vivas navegando rumo às brânquias das colinas dizer que a essa forma em nossa língua chamamos barco (cada palavra mil e uma flores) espera a canoa, filhote humano o barco que sai de dentro da nossa caixa torácica (* poema do livro Flor na mulera ) imagem do Pinterest  -*- PALCO BANGUELA   quando estiveres no ringue que viu teu fêmur tornar-te menino lembra-te da ingremidade das ribanceiras belorizontinas com o ritmo de um mindinho esquerdo nocauteado lembra-te do primeiro beijo do primeiro soco moldado pela saliva todos os dentes na plateia têm o sotaque híbrido de tua bisavó que nunca conheceste mas foi ela quem t...

UM EXCERTO DO POEMA "E SE A CIDADE FOSSE UMA MULHER?", DE SARAH OLIVEIRA CARNEIRO

Imagem
fotografia do arquivo pessoal da autora  "E SE A CIDADE  FOSSE UMA MULHER ? " fotografia de Luciano Fogaça "Os mares continuariam a ter maré vazante, ela seria uma circunferência  e já nasceria livre. As praças teriam árvores com tranças  de laço e as manifestações políticas  percorreriam a Rua dos Cataventos do poema de Mário Quintana. Os prédios dariam mais chance às belas paisagens, hoje ofuscadas atrás  da imponência dos fálicos arranha-céus. O rural não seria o oposto do urbano.  Haveria mais correspondência,  o que permitiria que as feiras populares  do Sertão respirassem integralmente  em meio à fisicalidade destrambelhada da malha citadina. Contradições e paradoxos? Sim, teríamos.  Porém, não fugiríamos das suas antíteses. fotografia de Luciano Fogaça Espalhados pelos bairros  estariam os conselhos matriarcais comandados pelas agricultoras, mães, lavadeiras, mulheres negras, brancas, mestiças, indígenas,  lésbica...

TRÊS POEMAS DE MARTA FERREIRA

Imagem
fotografia do arquivo pessoal da autora  MATURIDADE Não abaixo a cabeça por não ser a excelência que  alguém quer nem me escravizo no senso  de inferioridade Sou a mulher que posso ser dentro de cada oportunidade aplaudo minha importância vivo na paz;  sou arte foco na prosperidade Descarto preconceito para curtir a beleza dos tempos somos todos comuns no amor, na alegria;  tenho valor  o diferente é só vaidade. imagem do Pinterest  -*- GRITO DO AGORA Neste dia, o “sim” é para mim regozijando minha beleza e salto nos braços da esperança para onde está o chão que me  acolhe sem medir Piso firme, sem pressa  seguro minhas mãos com ímpeto e recupero meus sonhos de criança abraço minha alma  remida na boa  lembrança E fecho os olhos, gritando alto: “daqui não mais saio”, enquanto vejo horizontes há tanto tempo perdidos abrindo portas para eu entrar. imagem do Pinterest   -*- É POSSÍVEL RENASCER Mergulho dentro de mim e encontro min...

CINCO POEMAS E UMA PROSA POÉTICA DE IVA FRANÇA

Imagem
fotografia do arquivo pessoal da autora   CRÍVEL Porque escrevo e sou capaz  De apontar o dedo  Para meus próprios anseios  Também tenho vontade  De negar sua veracidade e devaneios  Porque escrevo  Não quero que duvides  Nas histórias descabidas  Apontadas no fio das linhas.  Muitas vezes não são fingidas   Porque escrevo Me deixe no sossego adormecido  Sei que te parece inverossímil  Palavras tortas  Numa pele de pêssego   Mas, porque escrevo  E pareço um inventário dândi  Não significa que detenho toda a razão  É que deambulo vivência  Para dar vazão ao verbo  De um todo libertário. imagem do Pinterest  -*- CAROLINA, MARIA, JOANA   Carolina acorda às quatro horas da manhã Vê o amarelo-alaranjado do crepúsculo Por cima do zinco do barraco Não tem café para coar Maria toma o trem das cinco O estômago amarrotado pelo suco, O gástrico, da noite anterior Não teve café para coar Jo...

QUATRO POEMAS DE MARIA EMANUELLE CARDOSO

Imagem
fotografia do arquivo pessoal da autora  ALGAS VERMELHAS  na primeira vez que entrei no rio fechei os olhos e mergulhei profundamente fiquei com gosto de areia e sangue na pele passei então a mergulhar como quem para a noite se despe não completamente, apenas o suficiente sabendo que tanto na noite quanto no rio a Areia sempre vem imagem do Pinterest  -*- NAMAZU os peixes-remo medem aproximadamente seis metros.  quando aparecem, dizem aos japoneses que é tempo de terremotos.  a gramática diz:  sua saída causa terremoto.  o beiço diz: o terremoto  causa sua saída.  hoje, quando se vê um peixe-remo sabe-se que é tempo de terremotos e tsunamis. as relações da causa e consequência  do influxo  e efluxo de humanos,  por outro lado, ainda não  são totalmente conhecidas.  há quem diga  que todo humano  é prelúdio de incêndio. há quem acredite que toda carbonização é prelúdio de humano.  não se sabe se houve...