Gisela Maria Bester: Receita para puxar o Ano Novo

Arte digital de Isabel Furini

RECEITA PARA PUXAR O ANO NOVO

Gisela Maria Bester


Busca um ano,

um ano redondo,

sem a automontagem

da matéria humana

e os estrondos nos sonhos.


Deixa para trás

substâncias antipáticas

que te enferrujaram 

as mãos da alma e o olhar.


Não desejes nele,

no ano novo,

mais da violenta calma

do silêncio de milhares

toneladas de escombros.


Aspire a que a reduzida calda

do caleidoscópico novo ano

oriente olhares para frente,

não passos de Curupira.


A esquelética fome

a ignorância crônica

a indigência cultural

o ódio visceral,

não queiras mais

antes, durante ou após os teus tantos anos.


Cutuca sempre um céu

para ver se dele caem

espadas de São Jorge

e bastões do Imperador

botões

das flores, das roupas

de um jardim 

já não mais plúmbeo,

ígneo ou iníquo. 


Um ísqueo, um úmero

a levarem-te,

e a inocência animal

a te salvar,

busca!


Involuntários

cabelos

e pelos

pelos trombos 

dos sonhos

já não mais cancelados


como


fios de ovos

pendentes

dos ninhos

invadidos

pelas serpentes

de ontem.


Então, agora,

puxa o fio

do coração

da pandorga

da pobre corda

da memória

da dança

da meada

e da esperança

para nele encontrar

o teu ano novo.


E nas borbulhas,

bem sabes que nele já vives.

Contigo mesma!




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