Maria da Glória Colucci: O Tempo - Poema analisado por Vanice Zimerman

O TEMPO

Maria da Glória Colucci1


O Tempo é ente soberano.

Segundo a segundo, ano a ano,

Flui, escorre entre os dedos,

Sem atender ou respeitar apelos.

Invisível, desfaz pálidas esperanças.

Carrega consigo doces lembranças...

Infinito, segue firme seu percurso

Sem romper o implacável curso.


Análise do poema   

por Vanice Zimerman (professora, escritora e poeta)

O Poema “O Tempo”, de Maria da Glória Colucci, nos convida a sentir a presença intensa e inevitável da passagem do tempo, qual indecifrável Cronos que, com seu olhar certeiro e instigante, a tudo vê, a tudo envolve... Qual um etéreo redemoinho, fluindo a cada segundo; centelhas de lembranças, recorte de vidas que habitam, sussurram e evanescem entre o cintilar de um raro cristal de uma enigmática ampulheta. Percebe-se, na sintonia entre os versos, a linda cumplicidade poética, porém lúcida, da poetisa. Parabéns pela sensibilidade!

Ao ler o poema de Colucci, lembrei-me de algumas reflexivas linhas, do Padre Antônio Vieira:

 “O Amor e o Tempo”: “Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera!

São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge (...)” “Sermão do Mandato”.




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