Minha Lavra do Teu Livro 22 | "MEUS DESACONTECIMENTOS - A HISTÓRIA DA MINHA VIDA COM AS PALAVRAS ", de ELIANE BRUM, por Nic Cardeal


Minha Lavra do teu Livro 22
- resenhas afetivas -


"MEUS DESACONTECIMENTOS",

UM "CORPO DE PALAVRAS" 

QUE SUSTENTA A VIDA!


"Lembranças não são fatos, mas as verdades que constituem aquele que lembra. Recordações são fragmentos de tempo. Com elas costuramos um corpo de palavras que nos permite sustentar uma vida"

(Eliane Brum)


EM CARNE VIVA

"Sempre vou temer o retorno da escuridão, 
que para mim é o mundo sem palavras"
(Eliane Brum)

Não te assustes
se 'pronunciar-te' em sons audíveis
não te pertence!
Tu não te fazes apenas na garganta,
antes dela, foste um sopro,
um precioso (e único) sopro!

Não te enganes
com pronúncias dissonantes,
todo caos precede uma estrela,
todo corpo antecede uma palavra!

Não te importes
se não te dizes pela voz,
não te sentes pelo som,
se só te sabes pela escuta,
ou só te reconheces pela escrita!

O destino do mundo (das palavras)
é o Verbo!
– Em todas as possibilidades do imperfeito,
do improvável,
ou do inconsútil! –

O destino do homem é
encarnar-se em letras,
decifrar-se [por fora]
para apreender-se [por dentro]!

O destino da palavra é 
corporificar-se e,
 feito carne viva, 
criar sentidos plenos
na melhor linguagem do coração!

(Nic Cardeal, inspirada na leitura do livro "Meus desacontecimentos – a história da minha vida com as palavras", de Eliane Brum)


MEUS DESACONTECIMENTOS – A HISTÓRIA DA MINHA VIDA COM AS PALAVRAS, da escritora, repórter e documentarista gaúcha, Eliane Brum (2ª edição, Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2017) é um livro que, desde a primeira página, sacudiu minhas entranhas! Há muito tempo vinha sentindo necessidade de ler livros de Eliane, movida pelo desejo de tomar conhecimento sobre seu fantástico trabalho relacionado à cobertura e defesa da Amazônia e de seus povos, bem como para conhecer melhor acerca da plataforma de jornalismo dedicada a pautas socioambientais da floresta, da qual é cofundadora, a Sumaúma. Esse é o primeiro livro dela que leio e, desde já, redimo-me por tamanha demora! Posso afirmar categoricamente: sinto-me tocada, revirada, sacudida, impactada com seu "corpo de palavras"!

De maneira muito peculiar, Eliane utiliza-se da linguagem literária em sua narrativa biográfica. Logo de início, ela anota: "Lembranças não são fatos, mas as verdades que constituem aquele que lembra" (p. 7). E eu, de pleno acordo, acrescento a indagação da amada escritora Maria Valéria Rezende, extraída de seu fantástico livro "O voo da guará vermelha": "O que há de verdadeiro nas coisas que a gente lembra?" Talvez, quase nada! Porém,  continuam sendo nossas verdades e, como tais, fazem-nos humanos, genuinamente subjetivos!

Sim, essa é uma obra carregada de lembranças – a matéria-prima do humano, afeito à ilusão do tempo! É quase impossível a qualquer leitor passar incólume às dores e angústias descritas pela autora, diante de temas existenciais tão conflitantes quanto a morte, a timidez, as dificuldades do gênero feminino, desde [quase] sempre, perante todos os tipos de violências (explícitas ou veladas, expressas ou não-verbais), da maioria das sociedades, historicamente patriarcais e machistas.

Eliane escreve muito além de signos, significantes ou significados! Sua linguagem é muito mais corpo do que palavra dita, silêncio do que um grito passível de escuta! Muito mais poesia do que mera descrição de eventos! E muito, muito mais coração que sangra, do que razão que apenas caminha pela superfície sem se dar conta da importância de cada passo sobre o chão onde pisa! É um livro que nos mostra a criança e a adulta, duas em uma, sempre juntas no tempo não linear da memória! Um livro que revela a mulher que se descobre enquanto palavra, justamente porque (d)escreve o mundo de fora com a mesma 'caneta/veia' que pôde desvendar o mundo de dentro! A mulher que, desde menina, percebeu-se dotada de profunda sensibilidade perante todas as vidas, humanas ou não humanas! E precisa contá-las!

No início, para Eliane, não era o verbo – a vida. No início, para Eliane, era a morte – o túmulo. As reflexões sobre a infância são lembranças do 'fantasma da morte' a rondar-lhe a existência – pois nascera cinco anos após a morte súbita da irmã de apenas cinco meses. Essa morte parece se multiplicar em sua memória e, por causa disso, escreve: "(...) Nasci não de um, mas de vários túmulos. O primeiro deles foi o corpo da minha mãe, assassinado pela morte da criança que veio antes. Uma menina, a primeira menina. Hoje compreendo tanto essa dor, jamais por inteiro, espero que jamais por inteiro (...)" (p. 12). Passaram a infância – ela e seus dois irmãos mais velhos – sendo levados constantemente ao túmulo da irmã, como se a mãe necessitasse dessa prolongada repetição, ano após ano e ano após ano, para acreditar, para ter certeza, para se conformar. A dolorida sina da menina que pôde viver: "(...) E a cada repetição, eu, a filha viva, sentia que a viva era a outra. E, mais morte do que viva, eu falhava em fazer renascer as partes ausentes da minha mãe. Só muito mais tarde eu descobriria que esta é a sina dos filhos que sobrevivem, chapinhando no lado escuro e sem fundo que é a dor sem consolo de pais órfãos. (...)" (p. 12). Da menina e de seu medo de dormir, de seu pânico de ser trocada pela irmã sepultada enquanto dormisse, de seu pavor do escuro, da menina sempre "desesperada por luz" (p. 13).

"A casa escura" (p. 15) de Eliane era um apartamento velho onde nasceu, em Ijuí/RS, para onde se mudaram os pais e os irmãos, após a morte da irmã. Ela detestava o lugar por causa da escuridão, sonhava com a desconhecida casa de jardim com roseiras de várias cores, onde sua família vivera e onde a irmã fora velada. Para a menina, a irmã morta lhe havia roubado a casa, o jardim, as rosas, o sol, a luz. Talvez, por isso mesmo, por essa teimosia insistente de a morte rondar todos os seus lugares, até mesmo marcando-lhe a alma como uma tatuagem ardente, deixando-a tão frágil e sensível às doenças, que Eliane tenha percebido, desde cedo e tão crucial à própria existência, a palavra escrita (a ‘palavra-corpo’) como salvação! Porque vivia "tudo no corpo" (p. 16): as doenças físicas, os dramas existenciais, as dores da alma – tudo reverberava na ‘carne viva da palavra’. Desde cedo. Sempre desde muito cedo: "(...) Às vezes me perguntam o que aconteceria comigo se não existisse a palavra escrita. Eu respondo: teria me assassinado, consciente ou não de que estava me matando. É uma resposta dramática, e eu sou dramática. O que tento dizer é que, se não pudesse rasgar o papel com a, ainda que numa tela digital, eu possivelmente rasgaria o meu corpo. E, em algum momento, o rasgaria demais (...)" (p. 16). Sim, através da palavra, Eliane descobriu-se quebrada, tornou possível acreditar-se inteira e, perante sua própria (e única) identidade, salvou-se! Eis aqui um verdadeiro 'roteiro de caminhos de dentro' para o resgate individual daqueles e daquelas que, como ela, como eu, percorreram toda a infância e juventude mergulhados(as) em buscas intensas para o entendimento de si mesmos(as), onde a própria voz era quase sempre silenciada, muda, sem eco!

Senti "Meus desacontecimentos" como uma espécie de avesso, de desconstrução dos sentidos e das sofrências humanas, uma travessia ainda mais funda do que possa ser a mais profunda possibilidade de dizer sobre as dores da vida! Se "escrever significa mexer com funduras", como disse outrora o poeta Caio Fernando Abreu, creio que Eliane foi além, muito além de simplesmente tocar nas funduras, movendo-as de lugar. Ela mexeu, remexeu no quieto abismo do vulcão, fazendo com que ele voltasse ao 'status quo ante' – em 'estado de erupção' – na possibilidade do berro da palavra em fogo e chama, em lavas e urgentes incandescências!

Eliane tem muita fome de palavras, e sede de dizê-las por escrito. Então, em "Meus desacontecimentos" ela diz! Diz sobre o que é ser menina, ser mulher em uma época em que ser do gênero feminino era carregar o peso de ter de "suportar a vida" (p. 27): "Eu era rodeada por mulheres bondosas demais, e tristes, muito tristes. No mundo onde eu nasci ser mulher era suportar a vida. O fardo, a cruz, dia após dia.  Essas eram as santas, as putas não me eram apresentadas. (...)". (Bem sei o que isso significou, também vivi nesse tempo, nasci um ano antes do golpe civil-militar de 1964).

Em vários momentos dessa leitura tive necessidade de parar, retornar, anotar. E chorar. Reconheci partes de mim – muitas partes de mim – nas palavras de Eliane, como se, por osmose, lesse minhas próprias memórias (encarnadas em poemas) e as registrasse junto às suas. Por exemplo, como aqui: "(...) Desde pequena, sou capaz de permanecer horas só escutando, sem a necessidade de falar de mim mesma. (...)" (p. 32). Aqui: "(...) Sempre me senti assim, vazando no lado de dentro. Úmida e salgada. (...)" (p. 34). Ou, aqui: "(....) Até bem poucos anos atrás, dizer de mim para mais de meia dúzia de pessoas me fazia suar frio, tremer e gaguejar, até a paralisia. Sentia que catástrofes poderiam acontecer se eu dissesse de mim. Estancava a minha fala, em um segundo deixava de ser uma mulher adulta para virar uma menina balbuciante. Aos poucos percebi que só poderia me colocar diante do outro, de todos os outros, como eu era. Quebrada. Com toda a integridade das minhas fraturas, das quais finalmente fiz um vitral. Uma quebrada diante de quebrados, esse é o pacto em meus encontros públicos. (...). "Eu quase me desmancho". Quase. Minha força é, agora eu sei, saber-me quebrada. (...)" (pp. 124-125). Ao ler as palavras de Eliane sobre a infância, minhas lembranças também acordaram: "(...) (As meninas tinham de carpir por fora,/ as meninas tinham de suportar por dentro)/. Sem voz,/ as meninas mais novas cresceram/ (quase mudas/ e miúdas por dentro)/ nada sabendo de palavras maiores, mais audazes,/ audíveis ou refrescantes ao coração,/ suas melhores palavras eram tão poucas, pequenas, invisíveis:/ (medo)/ (silêncio)/ (solidão)/(...)" (*). 

Nessa obra carregada de chegadas e partidas, Eliane resgata do tempo inúmeros antepassados. Assim, vai costurando suas memórias em poética colcha de retalhos, em um resgate minucioso dos que a sucederam, que ficarão registrados para além do espaço e do próprio tempo – em 'palavras-corpos'.  Por exemplo:

1) Os pais, os irmãos Mano Pequeno e Mano Grande, a irmã que conheceu apenas de ouvir contar – e pelo recorte de jornal guardado por seu pai: "(...) A dor do meu pai era calada e só há pouco, ao abrir uma pequena caixa de madeira onde ele guarda suas medalhas de colégio e outros dos pequenos grandes detalhes de sua trajetória, descobri um pedaço de jornal cuidadosamente recortado. Era o anúncio da morte da minha irmã. Da filha deles. Meu pai tinha dado um lugar para aquela morte, um lugar de vida, naquela caixinha em que vitórias e derrotas se misturavam. (...)" (p. 19).

2) A avó materna, descendente de uma família de Veneza, que "(...) andava pelo mundo em passinhos de feltro, pedindo desculpas por existir. (...)" (p. 31); que "(...) era cheia de contos, e eu tinha ouvidos gulosos. (...)" (p. 32); e que "(...) morreu sem conseguir tornar-se o lado B de si mesma. (...)" (p. 31). 

3) A tia e seu jardim maravilhoso, onde Eliane se sentia "(...) mais viva do que em qualquer outro lugar da infância. (...)" (p. 43).

4)  A professora, filha do amor entre uma negra escrava e o sobrinho-neto do Barão do Triunfo que lutou na Guerra do Paraguai, mulher "(...) que era um contrário na brutalidade do mundo, fez do nome um destino. E com ele iluminou o nosso, o meu. (...)" (p. 63); e que ensinou o pai de Eliane a ler e escrever. Sobre isso, Eliane registrou: "(...) A cada Dia dos Mortos, eu acompanhava meu pai levando flores para Luzia. (...) Luzia, com esse nome tão profético, arrancou meu pai da cegueira das letras. E, com ele, todas as gerações que vieram depois. E as que ainda virão. (...) Sobre a lápide da mulher que nos deu a luz, com e sem crase, produzi meu segundo nascimento. Escolhi minha linhagem, meu lugar simbólico de pertencimento. Com a memória de Luzia, fiz meu parto para a vida – e a vida era a palavra escrita" (pp. 67-68). 

5) A outra tia e suas festas maravilhosas, no dia de Finados, e que ensinou Eliane "(...) que a melhor maneira de homenagear os que partiram era viver. (...)" (p. 66). 

6) O trisavô paterno italiano de sobrenome Brun, o bisavô e sua irmã, que vieram para o sul do Brasil em 1883, deixando seus mortos – a trisavó e seus filhos mais velhos – na região italiana de Udine e, chegando aqui, foram registrados Brum (pp. 71-72). O 'n' que virou 'm', para Eliane, "(...) assinala tanto uma presença quanto uma ausência. (...)" (p. 74): "(...) A ausência de tudo o que ficou para trás, a presença de tudo o que aconteceu depois. Presença e ausência são, afinal, a essência de todos os nomes. Não posso corrigi-lo porque para mim não é erro – e sim marca. Uma marca que diz mais de mim do que as letras que sobreviveram incólumes à mudança de mundo. Uma marca que, ao ser apagada, se converterá em falta. (...) Agora sei que não tenho um nome errado, mas um nome assinalado pelo que viveu. Dei a essa perna não mais o lugar de membro fantasma, mas de travessia. (...)" (pp. 74-75).

7) A chefe da seção de livros da Cultural (a livraria da cidade natal da autora), que percebeu seu amor pelos livros desde a primeira vez que lá entrou com sua mãe, e que deixava Eliane ler todos os que quisesse: "(...) Enrolada em mim mesma entre prateleiras habitadas, eu tinha descoberto meu lugar no mundo. (...)" (p. 89-90). Quando anunciou que deixaria a livraria, Eliane se sentiu "(...) abandonada. Quase traída. As moças que a sucederam não perceberam a importância do seu trabalho, preferiam ser funcionárias. Só Lili sabia que os livros não eram objetos, mas portais. Quando ela se foi, os livros fecharam-se. Viraram mercadorias. (...) Sou uma repórter de desacontecimentos desde que Lili desaconteceu na minha vida. (...)" (pp. 91-92). Décadas depois, as duas se reencontraram: "(...) Pude contar a Lili o que ela também fez de mim. Era eu que agora escrevia livros que passeavam por estantes, descansavam em mesas de cabeceira, ofereciam-se em bibliotecas e aqueciam colos de gente no metrô ou no ônibus. Ela podia me ler porque um dia permitiu que eu lesse numa esquina das prateleiras de uma livraria de cidade pequena. Eu podia escrever porque antes ela havia me lido. Lili tinha asas na alma. (...)" (pp. 92-93).

8) A menina de rua que, junto com dois meninos, levou 7 cruzeiros da menina Eliane, em um domingo de sol de 1975 (pp. 99-101) e que, muitos anos depois, de tanto tê-la marcado, foi também responsável por Eliane ter decidido escrever: "(...) Escrevo também para mantê-la viva. Ela me ensinou que os dentes do mundo estão sobre nossos corpos. Muito mais no corpo dela do que no meu. Não há nada pior – nada – do que ser criança, menina, e viver (e morrer) no desamparo. Em algum momento no qual nossos olhos se encontraram, eu compreendi que a guerra não era entre nós. Nunca havia sido entre nós. Em algum momento, fiz minha escolha. Por ela, por mim. Essa escolha definiu o que sou. (...)" (p. 103). 

9) O indígena que escrevia ave-marias e que se hospedou em sua casa, quando Eliane tinha dez anos, e que era aceito pela cidade só porque escrevia desenhando a Ave-Maria na "língua de índio" (p. 108); que "(...) não tinha mais terra nem aldeia, seus pais estavam mortos. (...) tinha a língua, o primeiro território de cada um. (...)" (p. 108); e que ensinou a Eliane a Ave-Maria na sua língua: "(...) Não sei dizer a oração em português, só a sei na língua dele. No legado de Pedemar Maraguara Poram, a impossibilidade me habita como palavra. Enquanto eu respirar, a Ave-Maria estará lá, se cantando em mim. (...)" (p. 111).

10) O professor do curso de Jornalismo que 'salvou' Eliane: "(...) A forma como a palavra era um corpo no qual cabia a coisa e o efeito da coisa, o significante e o significado. (...) Comecei a reconstituir meu corpo pelo som – estrondo – da palavra que simbolizava uma arma de destruição. E por um professor chamado Marques Leonam (...) a bomba do Leonam (...). A bomba – o signo da coisa e não a coisa – resgatou em mim a possibilidade de que o horror pudesse ser pronunciado sem que eu morresse – ou matasse. Quando dita, a bomba poderia salvar. Como aconteceu. Me salvou porque podia ser dita. E era dita por um homem cujo olhar amoroso me devolvia uma chance de existir no corpo, mas também para além do corpo" (pp. 121-123).

Finalizo esta [propositalmente] demorada resenha, muito esperançosa. Uma esperança recuperada das palavras de Eliane. De seu "corpo de palavras"! Esperançosa quanto às possibilidades de resgate da minha fala – quase absurdamente muda – que segue tendo a palavra escrita como melhor chance de ser ouvida. É certo que os meus "desacontecimentos" foram (e são) completamente diversos. Não somos todos iguais – nunca – (nem eu, que sou gêmea univitelina)! Muito bem dito por Eliane: "(...) Somos igualmente diferentes, a única desigualdade que nos iguala. A singularidade do que sou, só eu sou. A singularidade do que é você, só você é. O que deixarmos de criar será uma ausência no mundo. Uma existência perdida – ou desperdiçada – faz um rasgo no tecido invisível da história. (...)" (p. 91). E eu, arrisco dizer, Eliane, que também sou aquela que não quer seguir a cometer mais rasgos "no tecido invisível" da minha história, já tão puída e desgastada de ausências! (Comecei também a escrever muito cedo. Aprendi a escrever mesmo antes de pronunciar meu primeiro som compreensível em palavras. Nada acontecia (em ainda quase não acontece) em relação à garganta: "A voz se cala/ diante do muro/ : intransponíveis palavras/ rastejando inutilmente/ na garganta gasta./ [não há linguagem que supere/ o esplendor daquela que canta/ ao abrir e fechar de algumas asas]." (**) E minha alma retrocedia, toda construída de palavras arquivadas, ao lugar seguro do coração. Minha 'voz' de sobrevivência seguiu atalhos pelas mãos – com papel e caneta fiz-me dita: "Tenho silêncios/ incrustados na garganta:/ eu grito/ por escrito." (***). Anotei meus primeiros versos também criança, aos onze anos. Guardo muitos deles, manuscritos e datados – o tempo sempre foi matéria preciosa de minha existência – como uma bússola a indicar por onde, ou quando, eu me atreveria à palavra). 

Por isso, por tanto, agradeço-te profundamente, Eliane, por dizeres sobre tua infância mergulhada em leituras e escritas dos teus mundos – de fora e de dentro – e fazer-nos, crianças ou adultos, acreditar que é mesmo possível a luz pela palavra escrita: "(...) Pela primeira vez, eu, a menina esquisita dos cantos escuros, estava iluminada. Era a autora de "Gotas de infância". O título era do meu pai, o desenho pretensioso da capa era meu. (...) O livro respirava como um corpo, o meu corpo. Encarnar-me em letras para mim não era metáfora. (...)" (p. 114). Agradeço ao Universo por tua existência, por teres atravessado, de alguma forma, os diversos tempos e espaços que 'aparentemente' nos separam – e tua 'palavra-corpo' ter tocado, assim abissalmente, todas aquelas muitas de mim que, mesmo quebradas, seguem sobrevivendo pela palavra escrita. Hoje, finalizado esse mergulho nos preciosos escritos da "história da [tua] vida com as palavras", deixo de duvidar, e passo a ter absoluta certeza de que "o caminho mais curto/ entre as coisas da alma/ são as palavras (...)" (****) – sempre as palavras! Tu estavas certa: "(...) Quando se escrevem memórias de palavras, os tempos se misturam. O passado não existe, assim como o futuro. O que há é um eu inventando um passado e um futuro, no presente. Que em seguida escapa. O presente como um tempo que não existe, uma impossibilidade lógica. (...)" (p. 18). Não importa mais que o presente escape de nós, Eliane! Não faz mal, porque "(...) esse sentir as coisas, as gentes, os jeitos, as dimensões e os dissensos, as rasuras feitas por medos imensos, o viver dilacerante de sorver a ânsia por um olhar a atravessar o peito, é um sentir avesso, espesso, não muito afeito a traduzir-se em contextos [presente, passado ou futuro]. [É] Quase um delírio deliciado em instantes trôpegos. Únicos. Deliciosamente imperfeitos (...)" (*****)!!!

Muito obrigada por nos permitires mergulhar em teu "corpo de palavras", Eliane! Ave, palavra!!!!

Nic Cardeal, 05 de novembro de 2026.

Obs: citações entre duplas aspas e, ao final, sempre indicadas as páginas entre parênteses, transcritas da obra "Meus desacontecimentos" publicada em 2017, 5a. reimpressão, Arquipélago Editorial. 

(*) excerto do poema "As meninas mais novas", Nic Cardeal, 2024, inédito em livro;

(**) excerto do poema "Mudez", Nic Cardeal, 2024, inédito em livro;

(***) poema "O grito", in: "Sede de céu", Nic Cardeal, Penalux, 2019, p.  118;

(****) excerto do poema "Renascer", Nic Cardeal, 2018, inédito em livro;

(*****) excerto da crônica "Preces a ninguém", in: "Costurando ventanias", Nic Cardeal, Penalux, 2021, p. 26.

fotografia da autora Eliane Brum, do Google 

ELIANE BRUM, natural de Ijuí/RS, é escritora, jornalista, repórter e documentarista.  É diretora de redação e idealizadora, junto com seu companheiro, Jon Watts, de "Sumaúma - Jornalismo do Centro do Mundo", plataforma trilíngue baseada na Amazônia, onde vive e trabalha. É uma das jornalistas mais premiadas do Brasil, vencedora do prêmio , da Universidade de Columbia, pelo conjunto de sua carreira.

Livros publicados: Coluna Prestes - O avesso da lenda (reportagem, Artes & Ofícios, 1994); A vida que ninguém vê (reportagem, Arquipélago Editorial, 2006, vencedor do Prêmio Jabuti 2007 "Melhor Livro de Reportagem"); O olho da rua (reportagem, Globo, 2008); Uma duas (romance, Leya, 2011);  A menina quebrada (crônicas, Arquipélago Editorial, Prêmio Açorianos, 2013); Meus desacontecimentos - a história da minha vida com as palavras (Arquipélago Editorial, 2014); Brasil, construtor de ruínas (ensaio, Arquipélago Editorial, 2019); Banzeiro òkòtó: uma viagem à Amazônia Centro do Mundo (Companhia das Letras, 2021).




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