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Mostrando postagens de 2020

Nada mais vai ao caixão | Marilia Kubota

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  MOSAICO Coluna 27    –   Crônica Nada mais vai ao caixão por Marília Kubota Começa o ano novo, ou não começa nada. É um ciclo contínuo, em que o sol dá mais uma volta sobre a Terra. O que significa o Ano Novo ? Abertura, renovar de esperanças. Renovar significa tornar novo de novo. Como renovar o que continua ? Continuo a viver com os hábitos que se tornaram rituais ou tradição. É tradição pular sete ondas quando se escolhe fechar e abrir o ano diante do mar. Tradição cultural vinda de cultos africanos. Como seguir a tradição e perseguir homens negros nos supermercados considerados suspeitos ? Como seguir a tradição e considerar que Shakespeare faz parte do cânone literário universal não Murasaki Shikibu, a primeira romancista do mundo ? O ano só será novo quando tivermos coragem de enfrentar desconfortos mentais. Não só as barbaridades naturalizadas nos jornais todos os dias. Também as micro-agressões cotidianas. Como o fato de achar lindo um homem branco de olhos azuis, mesmo

De Prosa & Arte | Guinevere, Guynyver, Guiniver... é nome?

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Coluna 12 Guinevère,Guynyver,Guiniver é nome? Quem no início dos anos 80 seria capaz de compreender o significado de um nome tão incomum? Muitas vezes as pessoas me perguntam qual a origem do meu nome? Qual a motivação para escolha da minha família (mãe)?  Hoje é muito tranquilo dizer e ser reconhecida por ele, porém nem sempre foi tão legal, fácil e prazeroso falar sobre isso. Agora mesmo precisei “ corrigir o corretor” que só me chama de Jeniffer cada vez que uso a digitação por áudio. Algumas pessoas me perguntam também porque eu assino apenas o prenome em muitos lugares? Inclusive na minha primeira publicação literária. A história de aceitação do meu nome remonta a toda minha infância, onde cada erro de pronúncia escrita ou pedido de soletração produziam um incômodo revirar de olhos da minha parte. Logo que acessei a escola e comecei a constituir minha figura social, o meu nome virou um problema linguístico. Fui chamada de Gulliver, Guiner, Jennifer, Guiviner, Guilniver entre outro

UniVerso de Mulheres 11 - A Poesia intrínseca e cativante de Rosi Waikhon , por Valeska Brinkmann

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UniVerso de Mulheres 11 A poesia intrínseca e cativante de Rosi Waikhon Foto  ©  Rosi Waikhon     Arapaço S eguindo conhecimentos milenares do meu povo, meu pertencimento étnico é pratrilinear Pirá-tapuia /Waikhana. Portanto, assim me apresento indiscutivelmente.   Ao longo da vida obtive conhecimentos de avôs e avós,   de partri e matri. Conhecimentos que me fizeram ser poeta e artista, apresentando versos e poesia. Conhecimentos que me fizeram ser cientista e pesquisadora, frequentando universidades  almejadas por todos que queiram trilhar o ramo científico. Responsabilidade a qual prezo muito.   Mas, quando sobrevoo a literatura e escuto a fala de meu finado avô José, Arapaço, Sinto-me como esse pássaro pica-pau (referência do povo de meu avô) Incrivelmente pousada no poste em meio aos fios de tensão, tentando alçar voo   Há tanta dor por tantas perdas nessa dura realidade de covid 19. Horas escrevo, choro, escrevo, choro… e assim vou seguindo Aprendi

Para colocar poesia no seu fim de ano | Crônica de Adriana Aneli

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  Terminamos. Passamos pelas dores e pelos estímulos, doses da mesmíssima frequência e proporção. 2020 se vai ao longe. Prolongamos nossa ansiedade por dias e dias, à sombra dos que tombaram. Seguimos em frente, nos despojando aos poucos  de sonhos descômodos nesta caminhada. Entre o trabalho incessante e a pouca poesia da vida encarcerada, assistimos da janela aos que passam como se nada fosse – seus risos desafiadores da vida urgente, sobre nossos atônitos cuidados. À distância,  tudo empalidece; perde-se a memória dos deslocamentos. O som de coisas reais se transmuta em notícia de rádio, documentário sobre placebos, as mutações, as vacinas. Chegamos ao final, comemorando conquistas alheias. Ano de desapego e impaciência. Ano de calar e esperar; reorganizar, reaproveitar, enxergar na repetição o movimento sutil da natureza: meus cabelos brancos, os brotos nas plantas, as flores renovadas. 2020 não foi ano perdido: revelou-se, em memes exaustivos, nossa pequenez diante de

Preta em Traje Branco | Ana Paula de Oya em Tríade de Versos

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  Coluna 5 Ana Paula de Oya em Tríade de Versos Xirê Motumba a todos os Orisás! Esu , que me dá caminhos, Ogum , que me mantém na trilha aberta e certa. Osóssi , que não me deixa perecer na falta da fartura. Omolu , que não me deixar faltar a saúde e energia. Ossain , que não me deixa esquecer da minha raiz. Osumare , que me abençoa com arco-íris e chuvas de transformações. Iroko , que me faz firme. Logun , que me deixa contemplar as belezas. Osum , que me enche de riquezas, também as de sentimento. Iemanjá , mãe que me acolhe. OYA , o vento que me aponta o certo e o errado, força que move, mãe que me ensina. Oba , que não me deixa desanimar nas lutas. Ewa , que não me permite deixar de sonhar e concretizar os sonhos. Nanã , que me abençoa com mais um ano de vida. Sangô , que me mostra a justiça certa de Orisá. Osalá , que molda a cada dia minha Ori. Ibejis presentes na alegria inocente de cada momento de felicidade. Que no Sirê da vida esses sempre venham ser meus alicerces, minhas

Divina Leitura | Retrospectiva de 2020

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  Coluna 13 Retrospectiva de 2020 Desde agosto de 2020, publiquei 12 resenhas nesta coluna. Novembro e dezembro foram meses meio parados em virtude da intensificação das minhas atividades na universidade. Mas agora faço uma retrospectiva, indicando mais uma vez os links para as leituras e entrevistas no @sermulherartelive (quando as houve). Nunca é demais recomendar as obras de boas autoras. Apoie a literatura escrita por mulheres, compre e leia seus livros. Em 2021, teremos mais resenhas e entrevistas em "Divina Leitura". Uma leitura de "Ebulição Interna" de Márcia Machado Os cinquenta e um poemas que compõem  Ebulição interna , livro de estreia de Márcia Machado, assumem a forma de verdadeiros monólogos interiores escritos em versos. Uma voz poética extremamente reflexiva se debate com questões fundamentais da experiência humana e da contemporaneidade. Em sua maior parte, são composições relativamente longas de versos curtos em que se destacam os pontos de interro

De Prosa & Arte | Balde de Pipocas

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Coluna 11 Balde de Pipocas pixabay.com Queria ter alguém pra dividir comigo meu  balde de pipocas. Nas frias tardes de julho quando sozinha passava as férias. Sozinha?  Sim, porque manjo muito desses paranauês de viver solidão a dois. E agora vivo solidão pura mesmo, e às vezes com os dois filhos jovens cada um no seu quadrado. Queria mesmo ter alguém pra dividir o meu balde de pipocas! Queria mãozinhas diminutas procurando pelas minhas pra amparar seus passinhos cambaleantes. Pensei até  que teria que usar as duas mãos para agarrar outras quatro dessas pequeninas. Achei que levaria um no colo e outros dois em cada mão e aí talvez eu precisasse de mais um par de braços ou um sling.  Então, por anos comi muitos baldes de pipocas. Sozinha. Pra mim pipoca significa florir/curar. Então me enchi de flor, me curei enquanto estive só mesmo a dois. Ter alguém pra dividir meu balde de pipocas comigo? Nas tardes frias de julho ou nas quentes tarde do fim de Dezembro, quando sozinha passava as fé