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Mostrando postagens de junho, 2020

Uma colher de chá pra ele - Weslley Almeida

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| uma colher de chá pra ele - 05 | Poesia para um tempo que dói Gustave Caillebotte A PERMEABILIDADE DAS HORAS A castidade dos dias a permeabilidade das horas meus olhos sangrando de horizonte o arrebol a máscara o álcool o desapego das coisas fúteis carros cheios de formol e valas com mais de sete palmos feitas a braços de escavadeiras arrancando terra corpos ao chão sem velas, velórios só valetas e uma dor que tem comunhão com o sopro de nossa finitude da magnitude dos nossos corpos vãos. ARQUITETURA DAS SOMBRAS Ficar em casa acostumar-se com a arquitetura das sombras as paredes brancas sofá, cama geladeira e fogão com o hábito da mão a preguiça dos olhos toda mecânica e automação dos nossos corpos biônicos com hastes de óculos lentes de contato pontes de safena e celular controle remoto como epiderme músculo ossos links lives de extensão. Lida Matviyenko FAINA Cunhar moedas fazer barganha comprar o pão de todo dia Dar du

Abre o olho – Marília Kubota

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MOSAICO Coluna 14    –  Conto Abre o olho  por Marília Kubota Sonhei que eu caminhava por uma trilha, quando encontrei uma placa em que estava escrito: Abre o olho. Meus olhos estavam bem abertos, mas logo que vi a placa, pisquei. Saiu um bocado de pus. Eu não sabia de onde vinha o pus. Talvez fosse conjuntivite ? Tinha ouvido falar que havia uma epidemia. Fui caminhando pela trilha e encontrei outra placa: Abre o olho. Pisquei e mais uma camada de pus aflorou. Conforme seguia a trilha, fui encontrando placas com os mesmos dizeres. Eu piscava e saía pus. Não percebi imediatamente, o pus saía e a remela se depositava em meus olhos. Na quinta ou sexta placa é que percebi o desconforto de ter um grude . Comecei a esfregar, o grude não saía. Eu não conseguia parar de seguir as placas. Meus pés se moviam sozinhos, e embora eu sentisse grande desconforto, as perseguia. Assim, depois da décima, meus olhos estavam tomados pelo pus. Fecharam-se. Não conseguia abrir. Esfreguei co

Gelo e fogo se abraçam na instigante Poesia de Michelle Ferret, em seis Poemas

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Wendell Well FRIO O dia escureceu os meus olhos Não tinha mais fogo para acendê-los Todos os fósforos foram usados Não sobrou nada Procurei pelos isqueiros Mas eles não tinham gás                        Nenhum incêndio foi possível hoje Verônica Trigo Arte DEPOIS Abro demoradamente porta por porta de todas as gaiolas e desafio a gravidade atravessada de silêncio avisto outro país, outro planeta este, agora em esperas mesmo depois de tantas (v)idas Todo parto tem seu peso e todo tempo sua vertigem imersos na coragem da criança que pula o abismo de todas as manhãs seguimos Todos os versos são planos de fuga despedida do corpo em riste alucinando as vias públicas, ora vazias asfaltadas no peito O inferno de Dante é pouco para tanta chama acesa e inaugura nossa febre em continuar, apesar de tu

PodPapo 01 | Entrevista com a escritora Rosângela Vieira Rocha

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|  PodPapo 01 | PodPapo - Entrevista com a escritora Rosângela Vieira Rocha por Chris Herrmann Estreamos o primeiro número da nossa coluna de entrevista em formato de áudio com a escritora mineira, residente em Brasília, Rosângela Vieira Rocha . Foram 19 minutos de uma conversa bastante agradável sobre literatura, com pitadas de política e o momento atual delicado  de pandemia.  A entrevista foi realizada na data de hoje, via WhatsApp. Para ouvir clique na seta abaixo do nosso Podcast: Foto | acervo pessoal Rosângela Vieira Rocha nasceu em Inhapim, MG, e mudou-se para Brasília em 1968. Jornalista, escritora e professora aposentada do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da UnB, é advogada e Mestre em Comunicação Social pela ECA/USP. Tem treze livros publicados, para adultos e crianças. Véspera de Lua , Editora da UFMG, (romance), 1990, ganhador do Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG – 1988; Rio das Pedras , Secretaria de Estado de

A poesia terna e lúdica de Alessandra Sanches

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Gabriel Moreno Condição Se você flor eu voo na vertigem do encontro *** Re(construção) Descalço meu chão costuro asas é preciso voar para sonhar ainda que a vida peça ajustes Gabriel Moreno Mosaico Não me procures por aí não me encontrarás assim mesmo que me vejas não me encontrarás sou constituída de cada pedacinho de dor de mim gosto de estar do lado de dentro Gabriel Moreno Manhã Numa manhã de Manoel de Barros um pio de pássaro eterniza o amanhecer toca a alma e ilustra a vida Sou além do que sou cheia de céu por cima e à flor da pele *** Amaino pedras solitárias ouço barulho das águas líricas sinto vento próspero quando me encontro em estado de poesia Gabriel Moreno Entre mim e você Há céu com presságio de aves há vento que sacode o abrigo da minha timidez há aurora com olhar de primeira vez há po

Uma crônica em tempos de quarentena - Por Marta Godoi

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Imagem Pinterest   Portugal/Margem Sul do Tejo/Setúbal  Na casa de casais 23 por Marta Godoi As flores coloridas na Praça do Bocage dão o tom primaveril aos dias. No Montalvão, agapantos altivos, brancos e lilases imperam. Só perdem para as escandalosas bougainvilles boninas. O barulho contínuo no prédio vizinho, as obras no entorno do Convento de Jesus dão o recado de retomada mas os números de infecção pelo coronavírus também dão: estamos aí. No casarão rosa em frente, dois homens refazem o reboco do muro. O ajudante é tão franzino que quando  enche a pá com os entulhos pra jogar no caminhão tenho a sensação que ele vai junto. Um fiapo. Que muro! Contornos e mais contornos. De um tempo em que se tinha mais tempo. O tempo está tão bom que lavamos as mantas usadas no finalzinho do inverno e no abril de chuvas mil. Terminei de ler o segundo romance aqui. Li o A noite passada, como uma lesma. Processar os acontecimentos sobre a Revolução dos Cravos que foi sonegada nas au