Araceli Otamendi: História de Retratos (Conto)
![]() |
| Araceli Otamendi - Fotogradia de Oskar Molek |
História de Retratos (Conto de Araceli Otamendi)
Traduzido ao português pela professora e poeta Carmem Andrea Soek Pliessnig
Possui uma moldura oval de madeira escura, com dois anjinhos negros e gordinhos tocando harpa na parte superior. Pintado a óleo, apresenta tênues vestígios das pinceladas do pintor. O fundo é verde-escuro. No retrato, o tio Domingo está de pé com uma das mãos dentro do casaco, com uma expressão de "Vou quebrar, mas não vou dobrar". O cabelo escuro tem ondas sobre a testa. Sobrancelhas grossas, olhos redondos, olhar severo. Nariz reto, com narinas arrebitadas, atitude de sentir mal cheiro. Encontrei-o encostado no batente da janela da sala de leitura da biblioteca. Ao levantá-lo, notei que seu olhar agora era suplicante. Os olhos cravados em mim, tentando expressar-se.
— O que foi? Por que está me olhando assim?
Perguntei ao retrato do tio Domingo.
— Por que você me colocou ao lado dela?
Eu não soube de quem me falava. Todos os retratos pendurados na casa haviam estado comigo desde sempre. A Sociedade Científica Basilio não me ofereceu nenhuma explicação, saí mais confusa que antes de entrar. Uma piscadela cúmplice do tio Domingo me convenceu. Sem tirar o retrato que estava pendurado no lugar, apoiei o pé direito na parte inferior da moldura e espiei como se fosse uma janela. A ambiente era de museu. Tentei voltar para trás, algo me impediu, eu não sabia lhe explicar. Uma longa mesa com pontas redondas ocupava o centro do salão. Acima dela, pendia um lustre de bronze de doze braços com cúpulas opalescentes, o mesmo que eu guardava em um armário. De cada lado, havia dois aparadores com prateleiras elevadas repletas de porcelana e, acima de tudo, um cheiro onipresente de umidade. Uma longa toalha de mesa bordada com flores brancas cobria a mesa posta para uma refeição. O vapor de uma terrina rompia o ar úmido. Tio Domingo sentou-se na cabeceira da mesa. A outra foi ocupada pela tia Clara. Tia Dolly e Joaquín estavam de mãos dadas sob a longa toalha de mesa, enquanto eu ainda não conseguia entender a conversa. O rosto do tio Domingo não era o mesmo do retrato. Depois do almoço, Joaquín e tia Dolly se levantaram da mesa e, de mãos dadas, sentaram-se na sala de estar.
O tio Domingo murmurou algo entre inaudível.
— Se eu o vir por aqui de novo, eu o mato - disse Domingo.
— Prefiro correr o risco do que parar de ver a Dolly - disse Joaquín.
— Você é um bastardo, um mal nascido - continuou o tio Domingo.
— Cuidado com suas palavras. Eu amo a Dolly. Não vou parar de vê-la, disse Joaquín exaltado enquanto Dolly chorava.
— Você é um canalha. Você está arruinando a vida dela. Eu sei de tudo. Se meu pai descobrir, ele vai te expulsar desta casa, ameaçou-o com uma pistola entre as mãos em forma de corneta.
— Não a deixarei, concluiu Joaquín.
A verdade é que o tiro do tio Domingo atingiu Joaquín no coração, enquanto a tia Dolly chorava, aprisionada para sempre pela histeria, pelo amor e pelo ódio.
© Araceli Otamendi
Buenos Aires -Argentina


Comentários
Postar um comentário