TRÊS POEMAS DE MARIANA AGUIAR COUTO
A VÓ CEGA DA MENINA INOCÊNCIA
O poder está de sapatos lustrados sentado à mesa.
E rabisca ordens em papéis de timbre.
Escondida em forma de dom, encontra-se a persuasão.
De onde a ordem vem.
O que será feito é dito com doçura — imponência bruta.
Dinheiro, política, poder.
A sombra do mal é o espelho do medo.
A inocência pobre.
Magra,
Baixa,
De olhos grandes.
Atenta.
Nos seus pés o primeiro tênis.
— Felicidade. Pagamento.
Olhos que brilham.
Então parte, segue sua missão.
Obstinação precoce.
Forçada.
São pés pequenos que cruzam uma longa estrada.
Mãos pequenas que pulam a cerca.
O terço que se prende,
Por lá cai e fica.
A vó quem deu.
— Proteção.
Rasga os bichos,
Segue ordens.
Mas a surpresa é a visita do ódio…
Que chega sem avisar.
A inocência toma o lugar do bicho.
Morre sem ver.
Deixa a vó.
Que é cega,
Esperando uma volta.
O feijão pra esquentar.
Devolveram-lhe o terço.
Reza.
A uma força invisível…
— Justificativa hipotética.
De uma vida cruel.
— Há um paraíso posterior.
Conforto.
Esperança.
Além dos olhos agora a dor lhe cega a alma.
E o poder sob forma de comoção pública,
Dá-lhe uma feira,
Que é para não morrer de fome,
Agora que está só.
-*-
SEM ALMA
Num rompante o barulho seco do tiro urge.
Levando consigo o bem.
Impacto brutal do olho por olho.
— vingança do homem.
Maldade severa.
Vê o corpo cair em sua direção,
Com o peito aberto em sangue,
Que não é seu.
— Seus são todos os significados da palavra amor.
Sangue que voa.
Na sua boca o gosto de ferro.
Vista vermelha.
A aliança cai do dedo, se perde pelo chão,
Ela fica.
Ficam os ossos,
O sangue, a carne , tecidos, a pele, as veias.
E a alma…
Sugada como uma forrageira suga o capim.
— destroçada.
Em pedaços que, jogados ao chão,
Gritaram mas ninguém ouviu;
Implorando por ir também.
E não foi.
— Por mais de 80 anos ficou.
Não foi viúva.
Para isso, precisaria existir de fato,
Além da carne, que é o que lhe restou.
Carne Pesada. Velha. Fraca. Triste.
Carne Só.
-*-
DOMÉSTICA
Entre paredes do luxo, cresceu.
Lustrando móveis.
Viu três gerações.
Sabe o cheiro da riqueza,
Nunca provou seu gosto.
É de casa, quase da família.
A amiga das crianças que não brinca.
A segunda mãe que não vai a formaturas,
Passa a beca.
A quase avó que não vai ao batismo,
Serve os doces.
A integrante afetiva da família,
Que faz a ceia,
E dela não come,
Nem em casa vai, fazer a sua.
Que envelheceu longe dos próprios,
Para criar os seus.
Que não herda nada.
A boa cozinheira,
Que mastigou a crueza dura da vida,
Sem tempero algum.
A sucessão é a prerrogativa do egoísmo.
A consideração,
É Estima, estima está para estimação,
Neste ponto,
Enlaçada como siamesa.
-*-
fotografia do arquivo pessoal da autora
MARIANA AGUIAR COUTO (Mariana de Aguiar Couto Baia) reside em Belém do São Francisco, PE, é graduada em Serviço Social.
Sua produção literária é marcada pela diversidade de formatos: poesia, romances de construção (Bildungsroman) e contos. Escreve poemas de traço forte e em verso livre, explorando principalmente temáticas sociais e a complexidade das narrativas femininas.
Participação em antologias: Contos em miniatura (Editora Comala, 2025); Horrores do Brasil - Ditadura (Climax Editorial, 2025); Microcontos volume I (Editora Persona, 2025).
Sua produção literária é marcada pela diversidade de formatos: poesia, romances de construção (Bildungsroman) e contos. Escreve poemas de traço forte e em verso livre, explorando principalmente temáticas sociais e a complexidade das narrativas femininas.
Participação em antologias: Contos em miniatura (Editora Comala, 2025); Horrores do Brasil - Ditadura (Climax Editorial, 2025); Microcontos volume I (Editora Persona, 2025).






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