DOIS POEMAS DE MARIA EMANUELLE OSÓRIO PRATES

 

fotografia do arquivo pessoal da autora 


NA PLEURA FOI FERTILIZADA A VÁRZEA

o bicho humano é filhote de gravuras
nasce ternura de pés de ouro
saltitando serra acima

deglutindo bananeiras
e estrelas

esperando nas vazantes
um barco
que nunca chegará

é preciso ensiná-lo
a plantar um barco

dizer que também
o bicho humano
é a transumância
farejando as sempre-vivas
navegando rumo às brânquias das colinas

dizer que a essa forma
em nossa língua
chamamos barco
(cada palavra mil e uma flores)

espera a canoa, filhote humano
o barco que sai
de dentro
da nossa caixa torácica

(* poema do livro Flor na mulera)

imagem do Pinterest 
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PALCO BANGUELA 

quando estiveres no ringue
que viu teu fêmur
tornar-te menino

lembra-te da ingremidade
das ribanceiras
belorizontinas

com o ritmo
de um mindinho
esquerdo nocauteado

lembra-te do primeiro beijo
do primeiro soco moldado
pela saliva

todos os dentes
na plateia
têm o sotaque híbrido
de tua bisavó
que nunca conheceste

mas foi ela quem te deu
um nariz mitocôndria
para fraturar

dou-te um round
para que ele tenha
teu nome:
basta ficar na beira,

como um pássaro
esticando as asas
brincando de ser grande
em pose de deimatismo

como uma criança
sentada no quarto
para as paredes rosnando
esperando o escuro passar

para entrar no ringue
é preciso subir
no palco banguela
sabendo que
para o ataque
para a defesa
para o afago

os pugilistas usam
apenas os punhos
o único ticket de entrada
é a poeira acumulada
em tuas rachaduras

para chegar a este ringue
é preciso ser
o teu próprio cutman

remendar tuas feridas
com massinha de modelar
e a luva de espuma-espera

em ringues oficiais
um corner é azul
o outro, vermelho
os outros dois restantes
– brancos
a observar

os dentes
de quem sangra
de quem espera
de quem nunca saiu
deste ringue.

quando dois boxeadores 
se seguram
sem trocar socos
chamamos de clinch
e não draw

porque draw usamos no amor –
quando uma luta empata
ou se anula

no amor
ninguém nunca vence

se não vences a partida
constrói teu próprio golpe
como fuselo
com ânsia de migrações

sabendo que as mãos
são tua única ferramenta
para fundar um bico específico
adequado à dureza
e ao tamanho das tuas sementes

e, ao saber onde estão
as cordas do tablado
poderás ser um gato
a ignorá-las
derrubando todo soco
com a pata

quando te chamarem
sequer balança as orelhas
diz que não sabes
qual é o ringue
em questão

apenas sabes
que nasceste para derrubá-lo
e depois lamber-te as mãos
sabendo que acabaste de fundar
a vitória dos estilhaços

imagem do Pinterest 
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fotografia do arquivo pessoal da autora 


MARIA EMANUELLE OSÓRIO PRATES nasceu em Montes Claros, MG, em 15 de novembro de 2000. 
Integra a equipe de poetas da "Fazia Poesia" e é membro do "Coletivo Escreviventes" e do "Neomarginais". Possui textos publicados em mais de 60 revistas em português, inglês e espanhol. É etnoecóloga e doutoranda em "Biodiversidade e Uso dos Recursos Naturais" (PPGBURN), na Universidade Estadual de Montes Claros (UNIMONTES). Atua como educadora popular e ativista socioambiental. Desenvolve pesquisas em territórios tradicionais e investiga o papel das redes
de troca na adaptação, diante da incerteza socioambiental.

Livros publicados: Amarelo mostarda (Editora Nauta, 2024, semifinalista Prêmio Loba 2025); Pugilismo, segundo Lauren L. (Selo Capitolinas, 2026); Flor na Mulera (Sertão Pasárgada, 2026, no prelo); e Foram os peixes a inaugurar a linguagem (Macabéa Edições, 2026, no prelo). 








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