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Mostrando postagens com o rótulo Conto

UM CONTO DE NATHALIA BATISTA

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fotografia do arquivo pessoal da autora   FLORES SILVESTRES  CULTIVADAS EM VASOS 10 de novembro Minha querida irmã Margarida, Estou com muita saudade de você e de nossa família. Como está a nossa mãe? Já melhorou dos nervos? Ela estava tão feliz no meu casamento, que fiquei esperançosa de, enfim, melhorar das dores! Mas, preocupei-me com a sua última carta, quando você falou de sua piora repentina!  Eu estou muito bem e feliz na minha nova casa!  Meu marido é muito bom, como a nossa mãe disse que seria. Ele me deu alguns rendimentos para que eu pudesse ir à costureira encomendar vestidos novos. Para ele, é muito importante que eu esteja bem vestida, quando formos visitar sua família na capital.  Por favor, me escreva o quanto antes, sinto a sua falta! Com amor, Rosa. * 20 de novembro Minha querida irmã Rosa, Fico muito feliz em saber que você está bem! Sinto sua falta todos os dias, aqui tudo é mais cinzento sem você.  Ontem aconteceu uma coisa extraord...

UM CONTO DE DEBORAH R. CORDEIRO

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fotografia do arquivo pessoal da autora   INTIMIDADE  Já senti o ódio da quina inferior esquerda do aparador pelo meu dedo mindinho do pé. Como inimigo à espreita, todas as vezes que ela se sente minimamente ameaçada se atravessa voluptuosamente contra o menor de todos. Era de se esperar um contra-golpe do dedinho, mas ele alimenta o ciclo, mesmo levando a pior. Tive que mover o móvel de lugar, já que meu pé não conseguia mudar a rota de colisão. Me intriga. Os objetos precisam das minhas mãos para quase tudo, me sinto no dever de não deixar nenhum morrer por inanimação. Nos dias de chuva, as dores de família estalam nas minhas falanges. Eu mal conseguia colocar as duas mãos num vinil para fazê-lo tocar. Antes de cozinhar, eu geralmente coloco o B.B. King , ouço The thrill is gone com alguns engulhos deixados no ralo da minha garganta. Outro dia, cozinhando e cerrando meu cérebro com a voz rouca do King , minha Panela me provocou até o limite da sanidade, derrubando sucessiva...

Para não dizer que não falei dos cravos 14 | UM CONTO DE MIGUEL ARCANGELO PICOLI

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  Para não dizer que não falei dos cravos (14) Um conto de  Miguel  Arcangelo Picoli "KORÉ CAFÉ"  Tudo tão igual... pessoas, notícias, conversas... a cidade repleta de atrações, exposições, dança, teatro, cinema, mas nada me atraía. Olhei o que havia para o jantar... dezenas de diferentes potes que só precisaria aquecer, mas nenhum me apetecia. Pensei em ir ao parque. Meu irmão disse que deveria e eu precisava ver algo do local para lhe dizer que havia ido. Vesti uma roupa qualquer e saí com tempo fechado, escuro. Melhor seria se estivesse chovendo e não pudesse ir...  Lá chegando, após estacionar refugiei-me no primeiro banco que vi, o mais afastado da feira, vendedores e ruídos da avenida. Nem os pássaros nada diziam.  Era o que desejava ... nada. Sem pensar passei a observar abelhas numa flor, uma flor qualquer.  — Pensando no mito de Perséfone?  O comentário me fez ver que não estava só naquele banco, e não sabia por quanto tempo. De qualquer ...

Para não dizer que não falei dos cravos 12 | UM CONTO DE DIAS CAMPOS

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  Para não dizer que não falei dos cravos (12) Um conto de Dias Campos: "A PAIXÃO DE  LEONARDO"   Eu e Leonardo crescemos no mesmo bairro, na pacata Santa Clara do Cerro Azul, uma cidadezinha achada à lupa, no interior de Minas Gerais. Era uma época boa, em que as crianças brincavam despreocupadas na rua, empinavam pipa sem a maldade do cerol, e chupavam cana recém-descascada. E porque estudássemos na mesma (e única) escola, eu o esperava passar por minha casa para irmos juntos conversando sobre os assuntos mais importantes do dia anterior – geralmente, o estimulante comprimento da saia da nossa bela professorinha. Mas se éramos como irmãos, fosse na aparência, fosse nas estripulias, nossos gostos eram bem diferentes. Enquanto eu adorava uma boa moda de viola, Léo ficava deslumbrado quando, passando em frente à bodega do seu Carlos, conseguia ouvir um rouco solo de piano, que saía do seu rádio caixa de madeira. Eu não conseguia entender como alguém da nossa idad...

DOIS CONTOS DE ANA MARIA LEÔNIDAS MOURA

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  fotografia do arquivo pessoal da autora  Dois contos de  ANA MARIA LEÔNIDAS MOURA   IMPULSO  As mãos desgastadas de sabão e água cheia. Ela lembra que o cheiro de sabão é tão característico como Maria havia dito. Mas, diferente do líquido desejoso e límpido da pia, da qual os dedos se aterram. Que gelado! Há um frescor ao gesticular entre ele, a movimentação e o choque causado pela força das águas. Ela é filha do povo das águas, escuta seu clamor, vem de tambores e cantigas nunca ouvidas. Limite, há um limite, é pouco. É muito pouco... O corpo seco, agitado, clama pela corrente que abraçava as suas mãos. É possível essa sensação de nudez?  Os dedos esguios estão eriçados até o cotovelo, aguardando pelo beijo molhado. Não havia como ser devidamente beijada com essa profundidade, ela não a tem por inteiro... desdobra-se até endurecer à procura de algo... veja! Eternidade naquilo que é desconhecido e vantajoso pela natureza. No entanto, o buraco da pia apont...