SANDRA PINTO EM DEZ POEMAS | DO LIVRO "SEMEADURA: POEMAS E OUTROS ESCRITOS"


fotografia do arquivo pessoal da autora 

Dez poemas de 

SANDRA PINTO

do livro

"Semeadura: 

poemas e outros escritos"


capa do livro Semeadura: poemas e outros escritos 


ERA DO GELO

ao olhar no espelho
vejo minha imagem deformada
como Dora Maar de Picasso

o que se despedaçou?

cato os estilhaços 
olho com lupa
tento entender

o que houve?
como e quando aconteceu?

vivi as quatro estações 
petrifiquei na Era do Gelo
quando um  corpo congelou

às margens do Estige
acompanhei a chegada de Caronte
levando o corpo do morto

fiquei eu
com as memórias vivas 
o coração partido

não há nada a fazer senão arte

junto os fragmentos
crio um mosaico 
escrevo

(in: I. Manejo do solo - a morte fertilizadora, pp. 14-15)

-*-

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A ROSA

alcancei uma imagem
para além do que imaginava ver
olhei a morte
de pertinho
transubstanciação 
de mortes plásticas 
de mortes emocionais
morri
minha alma putrefata evaporou
adubou o que estava submerso
do fundo da minha terra
ao redor de fungos coloridos
emergiu uma rosa

(in: I. Manejo do solo - a morte fertilizadora, p. 19)

-*-

INTERVALO

estou num intervalo da experiência 
ponto e vírgula da minha história 

é tempo de espera
vivo no espasmo das contrações 
entre a dor do parto e a alegria do nascimento
um vácuo na linha do tempo

como um jardineiro experiente
exercito a pausa da rega
testo meus contornos

liberto-me
de convenções 

entrego-me 
a mim

converto-me 
em borboleta

(in: II. Profundidade na semeadura - a fina sintonia entre luz e sombra, p. 33)

-*-

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PELO AVESSO

no breu da noite sonhadora 
escorreguei por um túnel 
vi meu avesso
iridescente
único
permeável 
somente a mim
sem mácula 
a cintilar
na fundura do que sou

se todos vissem meu avesso
transformaria meu direito?
há tesouros que devem permanecer
subterrâneos
guardados
a luzir despacio

(in: II. Profundidade na semeadura - a fina sintonia entre luz e sombra, p. 40)

-*-

ALMA LAVADA

lavei a alma
encardida
acastanhada
mordaçada em tanino de carvalho

esfreguei os quatro cantos 
desencardi da imundície 
asseei os pensamentos 

ah, como é difícil 
ser na verdade de Ser

na madrugada fria
onde o despertar é mais lúcido 
lavei a alma
e a pus a quarar

(in: III. Rega - a dose adequada de água, p. 44)

-*-

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IEMANJÁ

Afrodite africana
mãe de todas as mães 
deusa na Bahia de todos os santos, santas e 
pecadores 

nado em tuas águas salgadas 
envolve-me no teu abraço 
ergue-me das águas barrentas

tu que és a guardiã  das guardiãs
ensina-me a viver
mostra-me as faces do morrer
para que eu nade tranquila
encorajada na tua fé 
e na certeza do porvir

até lá, ó mãe, peço-te permissão 
pra te cantar
pra ninar nos teus braços 
pra ser tua filha amada
pra me fingir de tua mãe 

brincar de ser quem não sou
para ser quem nasci pra ser

(in: III. Rega - a dose adequada de água, p. 50)

-*-

BORDADO

entrei no avesso das coisas
para ver o que não está à mostra
pendurada de cabeça pra baixo
olhei o mundo real

entre um devaneio e outro
o bordado sashiko me hipnotizou
apertei as meninas dos olhos
e adentrei nas fibras

nos pequenos filamentos das linhas
capturei um ínfimo fio de algodão 
branco no azul royal do pano

geometrizei

viajei até uma plantação de algodão 
branquinha brilhando à luz do sol
onde antes pessoas debulhavam
agora são máquinas 

entrei no avesso outra vez
vi moléculas se juntando 
faíscas de coisas que não sei
a criar mais máquinas 
novas inteligências
arrumando e desarrumando o mundo

pensei nas mulheres indianas
debulhando algodão com as mãos 
até quando?

(in: IV. Abaixo a monocultura - diversidade de sementes, pp. 58-59)

-*-

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LIMITES

onde está o limite?
o contorno das coisas
das pessoas
dos gestos

minha pele se esgarça
e se funde no outro
onde está meu contorno?

devo conter ou expandir
pensamento expandido
movimento contido 

onde está meu valor?
o limite ilimitado
que me faz ser quem sou

todos dizem dê contorno
a quem
aos outros
a mim mesma

onde está o limite?

(in: IV. Abaixo a monocultura - diversidade de sementes, p. 64)

-*-

ORIGAMI

desdobre seu origami
você vai se surpreender 
com o que se esconde nas dobras
há um universo a investigar 
espaço nos vãos do espaço 
onde sopram os quatro ventos

deslize nesse frescor

você conhece o caminho
em transe já esteve nesse lugar
no centro onde mora o Eu
terra fértil onde as sementes germinam
e a vida se expande de dentro pra fora 
das bordas para a gema sagrada

(in: V. Germinação - cuidado com os brotos e eliminação das ervas daninhas, p. 73)

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imagem do Pinterest 
EMERGÊNCIA 

um caldeirão de notícias 
incoerente 
invade nossas casas
diuturnamente
filmes distópicos

choramos

no país da flâmula verde e amarela
a busca pelo amarelo
está a destruir o verde
o pantanal queima
a onça grita

choramos

do outro lado do planeta
o Círculo Polar Ártico derrete
quebra nosso escudo protetor
o sol da vida
vira sol da morte

choramos

dinossauros à direita do espectro
os fósseis do futuro

derreterão no crisol
junto com o ouro roubado
triste alquimia

choramos

replicantes apáticos 
uni-vos
em caso de emergência climática 
quebrem os vidros da ignorância 
a hora é essa

lutemos

(in: V. Germinação - cuidado com os brotos e eliminação das ervas daninhas, pp. 74-75)

-*-

fotografia do arquivo pessoal da autora 


SANDRA PINTO é natural do Rio de Janeiro-RJ, e reside em Curitiba-PR desde 2019. Graduada em História, trabalhou no Arquivo Nacional, onde se aposentou em 2014. Após a aposentadoria, fez especialização em Psicologia Analítica e em Arteterapia.

As fontes poéticas e criativas que ressoam em sua alma e, de certa forma, em sua escrita, vem de Khalil Gibran, Herman Hesse, Carlos Castañeda, Alejandro Jodorowsky, Marie Corelli, Fernando Pessoa e Walt Whitman.

Participação em antologias e/ou coletâneas: Palavráguas (org. Yara Fers, Arpillera Editora); 100 Poetas vivos (TAUP); Livres como versos (TAUP).

Livros publicados: Linha, agulha e resistência (conto, e-book Kindle, Amazon, 2015); Funeral (conto, e-book Kindle, Amazon, 2024); Semeadura: poemas e outros escritos (Editora TAUP, 2024); Poiesis na caixa de costura (Editora TAUP, 2025).


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