De Prosa & Arte | Quando as máscaras caem

 



Coluna 36

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Quando as máscaras caem

É notório o acúmulo de sentimentos que disfarçávamos. Agora mascarados diariamente, horas a fio nestes dias densos de perdas e adoecimentos, olhos expostos são denúncia e premonição de fatalidades, são resenhas inteiras de insatisfação.

A parte quase boa de não mais mostrarmos os dentes em largos sorrisos, é que precisamos de um esforço colossal para que sejam expressos no olhar os afetos.

Sinto muito termos aprendido tardiamente a sorrir com os olhos, janelas da alma como diria um poeta, ultimamente esses labirintos de observação e lágrimas, são capazes de denunciar qualquer esboço de aflição e também a sutileza de nossos desejos.  Apartados de beijos e abraços, os olhos são capazes de nos esvaziar dos incômodos e das mazelas. Também podem nos impingir medo.

E agora mascarados é que mostramos nossa verdadeira face. Ansiamos reencontros, desvelamos as angústias, isolados do mundo nos vimos a sós conosco e as relações se densificaram. 

Milhares de mortes físicas. Centenas de mortes simbólicas. Renascimentos e descobertas. Caminhamos no mais obscuro das relações e por isso, muitas se desfizeram, porque já estavam rotas e desbotadas, atrás das máscaras invisíveis das instituições.

Hoje, despida de minhas certezas vãs e calejadas, me arvoro a investir em desconstruir padrões relacionais engessados. Não caminho mais na insistência, nem na padronagem imposta por um mundo de invisibilidade feminina.

Tendo a acreditar que somos mais que o proposto pelo cunho falocêntrico, misógino e sexista, de onde se forjou o mundo em que habitamos. Vou criando tensão e abrindo espaço de existir para além do que me foi atribuído enquanto mulher preta.

Sem intenção de desenrolar um discurso coitadista, simplesmente reitero a estrutura social que já me impediu de pleitear lideranças, lugares de prestígio e agência feminina. 

Agradeço por ver máscaras se quedarem diante dos meus olhos, estes turvos pela maquiagem do amor incondicional, maternidade romântica, do viver sob a alcunha de cuidadora masoquista, traços sempre impingidos as fêmeas da minha geração.

Crescemos... e do mais profundo de nossos desesperos emergimos mais racionais, conscientes de nossos lugares e críticas em nossas ações.

Queremos mais, porque somos mais. Travamos uma dura batalha pela equidade de direitos, pelo poder sobre nossos próprios corpos, pelo direito de dizer não, de fechar as portas à insanidade masculina de nos impor culpas, de fugir aos modismos estéticos, e toda a parafernália crítica que nos adoece e prostra diante das conquistas que ansiamos ter. E ainda caminhamos um passo a frente e a sociedade nos puxa dois atrás.

Todos os dias, vejo máscaras caírem diante de mim. Me desencanto com as expectativas que criei sobre pessoas de convívio, e me perdoo por tê-las acessado com meus olhos de amar e esperançar.

Entendo agora, que toda forma de amar carece análise, compreensão dos limites, diálogo franco e clarividência sobre quem somos, para não nos entendermos como extensão do outro, para não desfiarmos um rosário de lágrimas, quando este nos falta. 

É muito melhor andar em companhia de quem se ama, melhor ainda é andar acompanhado de autoamor/ amor próprio, autocuidado, autoestima, reconhecimento de nossas dissonâncias e mazelas, valorizando nossos silêncios e ruídos, estes são companheiros célebres e merecem atenção.

Máscaras reais caem, são abandonadas e preteridas. Mas aquelas que tecemos por toda uma vida falseando as relações, estas, serão permanentes. Portanto, a nós que aprendemos a ver por detrás delas, nas janelas brilhantes dos nossos rostos, estejamos atentas, para que jamais sejamos silenciadas física ou simbolicamente, por quem mal conhece nossas dores e ainda assim exercem domínio sobre nossas maneiras de (re) existir e resistir.

Nada, absolutamente nada, aprendemos como humanos nos últimos anos de doença e reclusão. Estão aí o genocídio negro e indígena, totalmente operantes, uma economia que assola a população pobre, homens brancos empoados em seus ternos, desenvolvendo a guerra pelo poder, a natureza esfacelada por nossa humanidade egóica.

Talvez seja Utopia, mas se o mundo estivesse desde sempre na mão de nossas matriarcas ancestrais e descendentes, o Mundo seria gerenciado com mais humanidade e categoria. Já é hora de assumirmos o manche. É hora de alternância de poder. Avante!




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