Cinco poemas de Renata Dalmora | Do livro "O Canto Sedutor dos Mortos e Outras Ressurreições"

  

Ilustração de i.pinimg.com por Pinterest 

Cinco poemas de Renata Dalmora 

Do livro O Canto Sedutor dos Mortos e Outras Ressurreições 


SER MULHER E SEGUIR ADIANTE

Te trarei o que te falta
E depois,
Criará suas ilusões,
Fundadas na imagem de mulher
Que o mundo te incutiu desde sempre.
Verá poesia e confundirá com mistério
O mistério que te alimenta os enganos.
E depois de se confrontar
Com você mesmo,
(Inconscientemente, como fazem os homens)
Me achará inadequada e louca
E eu darei graças aos Deuses e Deusas
Por ser mulher e seguir adiante.

*


Imagem de fennaelena.tumblr.com por Pinterest 


CONSTRUO UMA CASA COM FRAGMENTOS DE MIM 

Uma janela
e um cão
Que me conhecem,
Parece,
Mesmo antes
que eu me conheça.
Têm, agora,
As luzes e o calor voltados para mim
Antes mesmo que eu conheça a
a luz e o calor.
Alguma coisa
Muito frágil
e muito bonita
Envolve essa janela e esse cão
Algo, que só se pode tocar
Estando também vulnerável.
Quase sinto outra vez
O que é simplesmente estar
Para o que quer que deseje
me atingir
Quase posso querer,
e é o desejo que move as coisas.
Estou me perguntando o motivo dessa sorte
Em meio a tanto ruína.
A ruína de antes e depois
Das ruínas dessa mesma casa.
A casa que me abre as janelas
E me recebe com carinho.
Essa casa que construo
Com os fragmentos
De mim.

*


Ilustração de kelogsloops.tumblr.com por Pinterest 


Se você não estiver conseguindo dormir,
Imagine que você está no fundo de uma piscina, nadando sem precisar tomar ar.
Está bem, vou tentar. Acho que está funcionando, estou ficando com sono. Vejo peixinhos, você está
comigo e agora o aconchego é o seu abraço.
A gente está dormindo. Dentro d´agua. Sonhando. Sonhando.
Me ensine a respirar aqui?
Não se pode.
Então vamos ficar aqui, pra sempre.
Também não se pode.
Acordemos então,
Acordemos.

*


Imagem de patchworkdasideias.blogspot.com por Pinterest 


PARA SER ADULTA, VOLTO À INFÂNCIA MIL VEZES 

Para ser adulta volto à infância mil vezes.
Em ciclos infinitos.
Ao abrir os olhos e ver as sombras, posso, depois de séculos,
assustada e com medo, olhar fundo nos olhos da besta.
Porque é amor o que todos querem.
E para amar, primeiro acolher-se.
Abandonei a raiva, depois de encontrá-la mil vezes.
E mil vezes sucederá sempre que eu reconheça meus monstros órfãos,  por mim renegados.
A dor certa de trazer as coisas à consciência.
Para crescer, serei imatura mil vezes, e boba, para que eu chegue à calma e entenda  o fluxo inevitável da vida.
Vou sofrer todas as consequências de ter sido tola e ingênua, até que eu aprenda, de novo, sobre a
inocência (porque são coisas diferentes).
O caminho é o meu hoje, mas nunca nada me foi inútil e nem será. Porque, mesmo que eu caia mil vezes, eu terei chegado mais perto de mim quando venha a vez milésima primeira. Paradoxalmente
e ao mesmo tempo em que eu me dissolvo e me aproximo das estrelas.

*


Imagem de Ada Dalilah por Pinterest 


NÃO REMAR NUNCA MAIS CONTRA MARÉ NENHUMA

Onde estou
Que não me encontras?
Dissolvi-me no céu
E não me queres partículas.
Eu tampouco sei
Pra onde se move o vento
Ou as correntes marítimas,
Só espero que eu saiba
Voar com o vento
E não remar nunca mais
Contra maré alguma.
Porque entendi que a natureza é forte
E eu sou apenas poeira, sua súdita
Que quer aprender
A ouvir sua voz e a segui-la.

*


capa do livro O Canto Sedutor dos Mortos e Outras Ressurreições

Apresentação do livro O CANTO SEDUTOR DOS  MORTOS E OUTRAS RESSURREIÇÕES, por Paula Harumi Honda: "Renata consegue construir uma linguagem própria. E através da sutura de fragmentos oníricos e situações cotidianas, povoa nosso imaginário de representações simbólicas sinestésicas. Sua poesia invoca uma espiritualidade que contamina nosso corpo de substâncias etéreas e sensações de intemporalidade. Para além de misticismo, o desnudamento das máscaras sociais e o refúgio nas belezas que a perseguem, configuram brechas e respiro na constante reinvenção de si, de nossos papéis de gênero e das relações opressoras no mundo material. É um convite para elaborar e deixar morrer tudo aquilo que não nos serve mais."


fotografia do arquivo pessoal da autora


RENATA DALMORA é natural de Jundiaí/SP e reside em São Paulo, capital. Graduada em Biologia e em Artes Cênicas. Atualmente divide suas atividades entre a escrita, composição e atuação. Trabalha também, entre outras coisas, com publicidade, fato que a faz refletir sobre a ironia e os ensinamentos da vida. Se interessa pelo estudo da psique humana e do feminino, sob uma perspectiva Junguiana, o que se reflete em sua poesia. Lançou seu primeiro livro de poesias e prosa poética, O Canto Sedutor dos Mortos e Outras Ressurreições, lançado pela editora Patuá em 2021, que traz temas sobre o feminino, numa perspectiva simbólica. 





Comentários

PUBLICAÇÕES MAIS VISITADAS DA SEMANA

Mulher Feminista - 16 Poemas Improvisados - Autoras Diversas

200 palavras/2 minicontos - por Lota Moncada

A POESIA FANTÁSTICA DE ROSEANA MURRAY | PROJETO 8M

Nordeste Maravilhoso - Viva as Mulheres Rendeiras!

De vez em quando um conto - Os Casais - por Lia Sena

Cinco poemas de Eva Potiguar | Uma poética de raízes imersas

Preta em Traje Branco | Cordel reconta: Antonieta de Barros de Joyce Dias

UM TRECHO DO LIVRO "NEM TÃO SOZINHOS ASSIM...", DE ANGELA CARNEIRO | Projeto 8M

Uma resenha de Vanessa Ratton | "Caminho para ver estrelas": leitura necessária para a juventude

Resenha 'afetiva' do livro O VOO DA GUARÁ VERMELHA, de Maria Valéria Rezende