Pés Descalços 07 | Achadas e Perdidas






Achadas e Perdidas


Certa vez ouvi uma pessoa dizendo que as mulheres que moram em uma comunidade, na zona rural, perto do sítio onde minha mãe cresceu eram conhecidas como “Mariadizéfa, Mariadipedro, Mariadijão, Mariaditonho...” Interrompi a conversa, perguntei por que tantas mulheres da redondeza tinham nome que começava com Maria e a pessoa respondeu: “Maria era o nome dado às mulheres daquele lugar, mas acrescentava-se os nomes dos maridos no final, para que todos soubessem de quem elas eram, ou de onde vinham.”

Lembro de um caso de uma vizinha, órfã de mãe, desde adolescente que cuidava da família. Limpava a casa, lavava, passava, cozinhava e cuidava dos irmãos mais novos, até do mais velho, além do pai, viúvo. Família que teve de lidar com os preconceitos que os seguiam desde quando a falecida contraiu tuberculose. A caçula era uns cinco anos mais nova que eu. Éramos aconselhadas a não beber água no mesmo copo, não ter contato físico, evitar que falassem perto de nós. Quando em casa deles, que não sentássemos, sequer aceitássemos algo para comer.

Mas, como crianças são teimosas, em um descuido lá estávamos fazendo tudo ao contrário dos conselhos. A caçula era muito pálida e raquítica. Talvez pela falta da mãe, ou pelos preconceitos sofridos. Uma criança sem mãe e o estigma da doença contagiosa. Os tempos passaram e cada vez mais podíamos brincar livremente com as crianças. A mais velha, a cada dia mais dedicada com os afazeres da casa, comprometida com eles. Tornou-se prendada, os vizinhos diziam. Beirava os vinte e quatro anos de idade e sofria os boatos de não ter aparecido ainda com um namorado.

A minha mãe não se importava de que eu e minha irmã mais velha saíssemos com a moça prendada, ficava despreocupada por ser boa companhia. Os vizinhos pensavam assim, também. Algum tempo depois, começou a circular um boato sobre um namorado. Por dias o assunto era ela, os cochichos circulavam no boca a boca quando nos aproximávamos. Um dia pedi para sair com ela e, certa de que me deixaria, fui surpreendida por um “NÃO”.

Mamãe disse que ela se perdeu com o namorado, que não a assumiu, o que as pessoas falariam dela, de mim? De moça prendada, tornou-se uma perdida, que não era de João nem de José. Depois disso ouvi tantos cochichos de mulheres perdidas e os elogios das que viravam Marias. Doença contagiosa!?...





Maria Onete, 2021. Neide Silva






 

Comentários

  1. 👏👏👏
    Contagiosa é essa repetição do que se ouve sem sequer usar o senso crítico.
    Adorei... a perspectiva do olhar infantil trazendo reflexão sobre temas tão desafiadores!
    Parabéns a todas as mulheres e em especial a autora que nos presenteia sempre com deliciosas crônicas.

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