A POESIA FASCINANTE DE ANA MARIA LOPES | PROJETO 8M

fotografia do arquivo pessoal da autora 


8M (*)

Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
"Dias mulheres virão", 
mulheres verão,
pra crer, pra valer!
(Nic Cardeal)


Mergulhe na poesia fascinante de ANA MARIA LOPES:


A DEUSA

Quando deus adormeceu
ela tomou conta de tudo
Deusa para todo serviço 
lava, passa, cozinha,
dá referência

Enquanto ela ordena o mundo
cuida do código camponês 
e traduz o chão,
o mar começa a ser mar
dentro dela

Úmida para servir, ela fala com peixes
brotam-lhe escamas
Na cama vê o dia aparecer 
sem projeto ou esboço 

Para ela a vida se desenha
naquilo que se chama
fundo do poço

(* poema publicado na Antologia de Poesias Mulherio das Letras e Conexões Atlânticas Antologia)

imagem do Pinterest 
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SAÍDA

Quis sair mas
não consegui penetrar o mundo
e descobrir o nome do impossível 

torturei maçanetas
e um pensamento úmido
esgarçou os dias

estico os músculos
e espreguiço na tentativa
de alcançar os oceanos

bebo a cãibra
e me desembaraço do abraço 

sumir carece de pouca coisa:
que o carnê acabe
que o filho cresça
que o botox devolva o sorriso
e a grama brote

aí sim, poderei cuidar do paraíso.

(* poema publicado na 2a. Coletânea Poética Mulherio das Letras e Conexões Atlânticas Antologia)

imagem do Pinterest: Carol Cramer Design
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TANTO FAZ

Preparei você em mim
há muitos anos 
num tempo em que não mais se conta

Guardei seus olhos para quando você me esperar na porta
e não importa se minha mão não existir mais

ou se essas palavras não existirem
como a seita de Ho No Hana Sanpogye

Seu corpo no meu pode ser miragem
talvez viagem das ervas que se encenam o ser

Você em mim lê as linhas do rosto
e o gosto de sal denuncia minhas pegadas no mar

Mas saio pela tarde que arde a 38 graus
sem saber que a vida pode ser uma degola
ou o afogamento num copo de coca-cola.

(* poema publicado na 2a. Coletânea Poética Mulherio das Letras)

imagem do Pinterest 
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VIGIA

Ando pelas ruas
emprestando minha sombra
aos muros
Entro em lojas
comprando esquecimentos

Enlameio as sandálias na chuva
e um vazio agudo
misturado a restos de vozes
me fazem ver
que perdi deuses no caminho 

Recuso a solidão
e a multidão me acende
o desejo de ser nuvem
para no próximo instante 
deixar de sê-la

E a sombra se retorce
a cada passo
Faço reverências individuais 
como se convidasse o mundo
a dançar e a tirar a corda
do meu pescoço

De nada mais sou capaz
além de vigiar minha paz.

(* poema publicado no livro Conexões Atlânticas Antologia)

imagem do Pinterest 
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LACUNA

O tempo se esgota e há tanto a fazer

Preciso descobrir qual o gosto da guerra 
e saber quantas luas são necessárias 
para fechar as feridas do amor
e quantos passos em direção ao mar
preciso dar
para saber que o mar é útero

Ou quantos séculos preciso
para dobrar a esquina e deparar comigo

Quantas cânulas penetrarão minha pele
para cicatrizar feridas subterrâneas 

Enquanto isso, no pranto,
meu corpo bóia
Sob o chuveiro me sinto lama
Sob o travesseiro me sinto drama
Sob a cama meu corpo engancha
nos lençóis 
onde o sol e as manchas
desenham a lacuna dos dias.

(* poema publicado na antologia Mulherio das Letras Portugal Poesia)

imagem do Pinterest 
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SEM BISTURI

Abri o corpo
a pássaros sem freios
Ciscaram migalhas
de meu fígado 
como se de outra era fosse
como se doce sabia

O corpo não sangrava
nem reclamava a dor
Apenas
jazia
aguardando ordens
das andorinhas
e dos abutres

E vento era tudo o que faltava
Não importavam as asas
o bater frenético dos membros 

O corpo (se bem me lembro)
lamentava a falta de ar,
o sopro das divindades
e a vontade de voar.

(* poema publicado na antologia Mulherio das Letras Portugal Poesia)


imagem do Pinterest: Elena Ray

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(*) 8M: 8 de Março = Dia Internacional da Mulher: Projeto 'Homenagem a mulheres escritoras/artistas', iniciado em março/2021, por Nic Cardeal.


fotografia do arquivo pessoal da autora 


ANA MARIA LOPES é natural do Rio de Janeiro/RJ e reside em Brasília/DF. É graduada em Jornalismo pela Universidade de Brasília. Como jornalista, trabalhou na TV Nacional de Brasília, na TV Alvorada e no jornal O Globo. Também trabalhou no Jornal da Câmara, foi chefe de reportagem da TV Câmara e dirigiu o Núcleo de Vídeos Especiais da TV.  Venceu em 1° lugar o Concurso Literário da Embaixada de Portugal, Jornal O Globo e Livraria El Ateneo, em 1967. Também  conquistou o 1° lugar no concurso promovido pela Editora Abril, em 1981; e a 1° colocação, como contista, no concurso realizado pela Bloch Editores e Baume & Mercier, em 1995. Escreve para jornais, blogs e revistas. Faz parte do Coletivo Editorial Maria Cobogó, um projeto que dá visibilidade à literatura de mulheres do DF (www.mariacobogo.com.br). É integrante do movimento Mulherio das Letras. 

Livros publicados: Conversa com verso (poesia, LGE Editora, 2006); Risco (Brasília/DF: Verbis Editora, 2012); Mar remoto (Brasília/DF: Maria Cobogó, 2018); A guerra invisível: um romance histórico (Brasília/DF: Maria Cobogó, 2022).

Participação em antologias e coletâneas: Mulherio das Letras - Contos e Crônicas (volume 1, org. Henriette Effenberger, Recife/PE: 2017); Antologia de Poesias Mulherio das Letras (org. Vanessa Ratton, São Paulo/SP: Costelas Felinas, 2017); 2a. Coletânea Poética Mulherio das Letras (org. Vanessa Ratton, São Paulo/SP: ABR, 2018); Conexões Atlânticas - Antologia (org. Adriana Mayrinck, Lisboa-PT: In-finita, 2018); Mulherio das Letras Portugal - Poesia (org. Adriana Mayrinck, Lisboa-PT: In-finita, 2020); As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira (org. Rubens Jardim, Cajazeiras/PB: Arribaçã, 2021); entre outras.




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