A PALAVRA SURPREENDENTE DE SOLANGE CIANNI | Projeto 8M

fotografia do arquivo pessoal da autora 


8M (*)

Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
Dias mulheres virão, 
mulheres verão,
pra crer, pra valer!
(Nic Cardeal)


Navegue na palavra surpreendente - em verso ou em prosa - de SOLANGE CIANNI:


LAGARTA

Está Lagarta, totalmente Lagarta...

Comendo sem parar, como se todo o sentido da vida

Fosse armazenar alimento para o tempo de hibernar.

Tudo culpa do outono!

Em breve estará casulo,

Ruminando saliva e solitude na escuridão.

Mergulho inadiável nas próprias entranhas,

Para ver se um dia,

(Quem sabe na próxima primavera?)

Esteja borboleta.

(* poema publicado na Antologia de Poesias Mulherio das Letras)


imagem do Pinterest 
-*-


TPM

Ela é que não conseguia compreender os homens, por mais que se esforçasse. E ficava brava com a má fama de complicadas que as mulheres, injustamente, ganharam. Foi então que se lembrou de um álibi poderoso que os homens só conhecem de nome: a TPM - só quem tem sabe do que se trata.

O seu ovário direito, por exemplo, é completamente revoltado com a vida. Quando é ele que ovula, portanto, promove um mau humor interno, que incomoda até a ela própria. Isso sem falar da enxaqueca, que avisa que está chegando, muito sutilmente, com um incômodo na cervical e, logo a seguir, com as náuseas. Não pode comer, sentir cheiros fortes, nenhum ruído, risadas, conversas, nada! Tudo é motivo para tirá-la do sério. Ah, esse ovário revoltado dá um trabalho! Por causa dele, de dois em dois meses, briga com o ex-marido, discute com o seu chefe, implica com a empregada, não cumprimenta o porteiro, finge que não vê a vizinha, bota os filhos de castigo. E grita, grita o tempo todo! Irada! Quatro dias irada!

Já o seu ovário esquerdo é deprimido, coitado... Quando é a vez dele, ela chora... por tudo... Olheiras fundas, corpo inchado, principalmente a barriga e os seios, as celulites duplicam. É triste, triste... carrega todas as tristezas do mundo para a cama com ela, nunca trabalha neste dia, sem condição! Não pode ouvir música de amor, assistir dramas na tevê e muito menos ler notícias trágicas nos jornais. Sair de casa, nem pensar! O jeito é ficar de molho na sua banheira cor-de-rosa, com água morna, erva cidreira e sais. Relaxar... E antes de cair na cama para finalmente tentar dormir, render-se ao milagroso comprimido para enxaquecas, de efeito imediato. Apagar as luzes, dar o último grito de "silêncio" com os filhos e meter a cabeça embaixo do travesseiro.

É... Só quem tem TPM sabe...

(* conto publicado na antologia Mulherio das Letras Contos e Crônicas - Volume 4)

imagem do Pinterest 
-*-


SAPATEADO

É com os olhos que grito o que me falta,

como um canto antigo de índia sábia 

em pleno ofício da pajelança. 

E como não é visível a qualquer olhar,       
  
confundo os desatentos:

ora sou velha e vulgar, 

quem sabe sou moça casamenteira?

Canto, encanto, acendo a fogueira

E assim nessa brincadeira,

Teço a trança, rodo a saia 

e inicio a minha dança.

Olééééééé!!

(* poema publicado na 2a. Coletânea Poética Mulherio das Letras)

imagem do Pinterest 
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DIFERENTES MARIAS

Nem que se treine anos a fio, uma cigarra jamais será formiga...

É pura perda de tempo!

Sugiro, pois, que se inicie de imediato um novo pacto: na primavera a cigarra cantará, sem culpa, alegrando o formigueiro. No outono, as formigas retribuirão a gentileza ingênua da cigarra e a hospedarão, livrando-a de morrer abandonada com frio e fome.

Afinal, formigas não sabem cantar e não há treinamento que faça uma cigarra interromper seu canto apaixonado para carregar folhas e gravetos. Bem mais fácil arrebentar o peito apaixonado, entoando seu mais agudo “si” de soprano.

O milagre se dará, então, na próxima primavera,

Com o florescer da certeza de que o mundo precisa igualmente de ambas.

(* poema publicado na Revista Caminhos)

imagem do Pinterest 
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BORBOLETA 

Quando eu morrer...

Não quero o meu caixão coberto de cravos. O cheiro não me agrada.

Lembra os enterros fúnebres, com choros e lamúrias.

Não quero nada disso, por favor!

Quero rosas... vermelhas, amarelas e brancas.

Vermelhas porque sempre vivi com o furor e a delicadeza de uma mulher apaixonada. 

Amarelas porque sou um anjo do sol e amante da luz. Finalmente brancas porque sempre persegui a paz e imagino que morrer é simplesmente repousar no colo dela.

Quero a presença das minhas amigas evolutivas, irmãs de alma, parentes e amigos queridos, celebrando, junto comigo, este momento sagrado, fazendo-me eterna na morada da memória de cada um que lá estiver.

Quero música! Violão, cantos e palmas, muitas palmas... E, se as cigarras dançarinas quiserem, podem dançar ao meu redor.

Eu vou adorar!

Nesse caso, que não falte o fogo, que tudo cura e transmuta.

É fundamental que haja incensos nesta hora, para atrair anjos e beija-flores.

Espirros de água-benta eu também faço questão, para que todos quando dali saírem, sintam-se abençoados e em comunhão com o mistério no qual estarei mergulhada.

E, quando, enfim, me deitarem na terra, peço silêncio.

Um respeitoso silêncio, condizente com o momento solene onde uma sacerdotisa retorna ao lar, após uma longa jornada. 

Que a terra me saboreie no tempo certo e o meu corpo se torne vitamina deste planeta professor que me acolheu neste percurso aprendiz.

Que as pessoas, então, me cubram de pétalas multicores,

Cantando, uníssonas, o mantra "OM"...

Depois de tudo consumado, retornem caminhando sem pressa, abraçadas, rumo aos seus afazeres cotidianos, levando consigo a reflexão do que é de fato essencial nessa fagulha de vida, frente a imensidão do Universo. 

Quero ainda que todos os presentes recebam margaridas brancas e amarelas na saída, para que possam voltar às suas atividades plenos de serenidade e saudade, sem pena ou culpa.

Nessa hora, com certeza, os bem-te-vis e joões-de-barro cantarão uma opereta de despedida composta especialmente para mim, em nome da nossa amizade e parceria.

Um sentimento de gratidão, então, tomará conta dos corações de todos que ali estiverem, pela oportunidade de cada um no tempo devido, poder cumprir a sua tarefa na vasta existência. 

Oferecerei, finalmente, um sopro de amor e um beijo estalado aos meus filhos e ao meu amado.

E então todos seguiremos em paz, celebrando o milagre que é estar vivo eternamente...

É assim que eu quero.

(* crônica publicada na antologia Mulherio das Letras Portugal - Prosa e Conto)

imagem do Pinterest 
-*-

BAILARINA DO MEU JARDIM 

Não encontrava jeito de ficar no chão. 
                                                  conseguia.
                                          não 
                                mas
               Queria,


cerrado seca queimadas
Tantas

mão pediu terra                Pé foi buscar

Andei
             tanto
                        que
      me perdi         De mim...

          
                                                           Até que...

ELA

gigante
contorcida queimada.

artrose deu nó nos ossos
não expressava dor
Estranhamente

A primeira era ventre
seco rocha

                                                        Memória 

A segunda era capa
carbonizada
         
                                                        Abraço 

A terceira era pele enrugada
despedaçada

                                                       Antiga

                         Quantas
                        camadas!

(...)

(* excerto do poema/livro Bailarina do meu jardim)

capa do livro Bailarina do meu jardim
-*- 

TRANSFUSÃO 

Foi sendo conduzida pelas águas mornas, sem esforço. Muito diferente de tudo que viveu. O que ela queria mesmo era ficar com o filho, mas sabia que as águas já haviam decidido. Confiou que ele estava cuidado e que a tarefa era seguir em frente. Agora suaves, as ondas dançavam e impulsionavam, dançavam e impulsionavam... Ela, espertamente, aproveitava o fluxo e pegava embalo para ir mais adiante. Era tudo mais fácil! Mais leve!

- Então era mesmo verdade?

Não tinha certeza ainda, mas acreditou no casamento de vento e água e se deixou levar. Flutuava olhando o céu, abria braços e pernas, exalava. Já não sentia medo. Acostumou com o frio e a escuridão. Girava o tronco e, com o rosto dentro d'água, arriscava braçadas e pernadas no movimento das ondas. Não sabe dizer de onde nem como, mas os batuques e as cantorias a acompanhavam, dando ritmo ao seu nado:

TUTUM, uma braçada, CHUÁ, uma pernada, LAVA cabeça n'água, LEVA cabeça prum lado, LIVRA esvaziava, TUTUM inspirava, CHUÁ recomeçava e assim, sem saber para onde nem por quanto tempo, seguiu em frente e não parou de nadar.

As águas se tocavam amorosamente.  As de dentro e as de fora. Seus poros, agora desimpedidos, iniciavam a transfusão.  Água entrava levando vida aos ossos, vísceras, ventre. Lavando e trocando água estagnada e doente de dentro, saía pelo mesmo caminho que entrava. Concatenadas. Harmonizadas. Ritmadas. Um verdadeiro balé aquático. E a cada braçada, água entrava curando; e a cada pernada, saía livrando.

(...)

(* excerto do livro O luto da baleia, pp. 74-75)

capa do livro O luto da baleia 
-*-

(*) 8M: 8 de Março = Dia Internacional da Mulher: Projeto 'Homenagem a mulheres escritoras/artistas', iniciado em março/2021, por Nic Cardeal.

fotografia do arquivo pessoal da autora 


SOLANGE CIANNI é natural do Rio de Janeiro/RJ, e reside em Brasília desde menina. É graduada em Pedagogia, pós-graduada em Psicopedagogia e Linguagem, Comunicação e Expressão, pela Universidade de Barcelona/ES. É terapeuta holística, membra do 'Colégio Internacional dos Terapeutas' da Unipaz/DF. Ainda criança começou a dançar e na adolescência passou a fazer teatro. Participou de vários espetáculos dirigidos por Hugo Rodas, Bibi Ferreira, Marcia Duarte (coreógrafa), Fernando Villar, Jonathan Andrade e Guilherme Reis, no Rio de Janeiro e em Brasília. Participou, como atriz, da peça “Gota D’Água”, ao lado de Bibi Ferreira, inaugurando o teatro Dulcina em Brasília, nos anos 80. Na dramaturgia infantil escreveu e produziu “Quem Tem Medo de Ter Medo” (direção de Fernando Villar, apresentada na Funarte, em 1995). É voluntária da Unipaz/DF e do Coletivo Editorial Maria Cobogó (www.mariacobogo.com.br). Escritora de livros infantojuvenis e para adultos - contos e poesia. É integrante do movimento 'Mulherio das Letras'.

Livros publicados: Clodoaldo Pé Descalço (infantil, LGE Editora); Doce Princesa Negra (infantil, LGE Editora/2006); O Presente do Pajé (infantil, Franco Editora/2007); Dentro da Flor de Pequi vive a Fadinha Vivi (infantil, LGE Editora/2009); Aída Colorida (infantil, Coletivo Editorial Maria Cobogó); Cigarras, Lagartas e Outras Marias (coletânea de contos eróticos e românticos, Coletivo Editorial Maria Cobogó/2019); Bailarina do meu Jardim (poesia, Coletivo Editorial Maria Cobogó, 2021); O luto da baleia (romance, Coletivo Editorial Maria Cobogó, 2022).

Participação em antologias e coletâneas: Antologia  de Poesias Mulherio das Letras (org. Vanessa Ratton, São Paulo/SP: Costelas Felinas/2017); Mulherio das Letras Contos e Crônicas - Volume 4 (org. Henriette Effenberger, Recife/PE: Mariposa Cartonera/2017); 2a. Coletânea Poética Mulherio das Letras (org. Vanessa Ratton, São Paulo/SP: ABR/2018); Mulherio das Letras Portugal - Prosa e Conto (Lisboa-PT, In-Finita/2020); entre outras.









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