Minha Lavra do teu Livro 08 | "A BRANCA DE LEITE", de CHRISTIANE NÓBREGA, por Nic Cardeal

 

Minha Lavra do teu Livro 08
- resenhas afetivas -


A BRANCA  

QUE NÃO ERA DE NEVE 

NEM DE LEITE


A BRANCA DE LEITE (Brasília/DF: C de Coisas, 2017) é um livro infantojuvenil escrito por CHRISTIANE NÓBREGA e lindamente ilustrado por Juliana Verlangieri, que conta a história de uma menina chamada Branca.

Conta Christiane que Branca nasceu com cabelinhos muito, muito pretos e lisos, tão lisos que até espetavam. Era uma menina tão branca, tão branca, que "(...) dava para ver suas veias. Era quase transparente (...)" (p. 7). Branca também tinha um pequeno (ou grande?) probleminha: tinha alergia a alguns alimentos! Por isso, precisava de muitos cuidados. Sua mãe era seu melhor anjo da guarda, e de tudo fazia pra proteger a menina! O pai? Ah... o pai nem ligava, "(...) era daqueles que achava que era obrigação da mãe criar e cuidar dos filhos (...)" (p. 11). Sim, isso infelizmente era verdade...

Aos cinco anos de Branca, para tristeza daquela criança,  sua mãe ficou muito doente e morreu... O pai, sem querer se envolver com 'essas coisas de menina pequena', foi logo, logo, outra vez se casando, e a mulher,  que não gostava nem um pouco de crianças, rapidinho tratou de apelidar a pobre menina de 'Branca de Leite', só porque ela tinha alergia àquela bebida branca...

Algum tempo depois, o pai de Branca também morreu, "(...) restando somente a menina, a madrasta e uma fortuna de herança (...)" (p. 12). Nessas alturas Branca já era grandinha, quase adolescente, e sua madrasta, que não queria saber de cuidar da menina, tratou de arrumar uma saída bem drástica: contratou um elemento pra 'dar fim' naquela criança...

Acontece que até dentro do peito daquele estranho sujeito havia um pingo de humanidade e, quando viu a menina, lembrou muito de sua irmãzinha... Foi a sorte da criança! Ficou o homem diante de um angustiante impasse: já tinha gastado todo o dinheiro do trabalho a ser feito, mas não conseguia dar cabo da menina... Pensou muito, pensou num jeito de resolver a questão, que parecia sem outra solução, a não ser completar a encomenda de uma vez por todas... Até que resolveu levá-la para um lugar muito, muito distante, numa cidade enorme de grande, onde nunca mais a madrasta pudesse encontrá-la. Então, o homem a levou pra longe, e quando a menina se distraiu, ele a deixou, indo embora sem dizer adeus. A menina se desesperou, e pelo homem procurou, até cair em si e descobrir que estava realmente muito só, totalmente sozinha numa cidade estranha...

Branca caminhou muito por aquela enorme cidade, até que algo inusitado aconteceu: deu de cara com sete mulheres anãs sujas e cansadas. Estas estranharam a menina, nunca tinham visto alguém tão branca em todas as suas vidas! 

De passo em passo, de papo em papo, por fim resolveram as sete que era melhor a menina ficar por perto, e Branca começou a lhes contar sua triste sina: "(...) Meu nome é Branca e me chamam de Branca de Leite, isso porque tenho alergia a leite de vaca e sou órfã e tenho 16 anos e o homem desistiu de me matar e me deixou aqui e... (...)" (p. 20).

As pequenas mulheres, penalizadas, decidiram cuidar de Branca, agora ela era a nova integrante daquela linda família! Arrumaram a casa, substituíram todos os alimentos perigosos à dieta da menina, estavam felizes porque a partir de agora seriam as verdadeiras mães de Branca!

Na fazenda, a madrasta má só queria saber de comemorar sua fortuna, acreditando que morrera aquela tão 'branquicela' e chata menina... Só que não! Quando o advogado lhe pediu o atestado de morte da criança, para poder lhe transferir toda a herança, a mulher ficou aflita, precisava falar com o tal homem contratado de dar cabo da menina. Ao encontrá-lo e descobrir a verdade, ficou furiosa, esbravejou, gritou, exigiu que a levasse até onde havia largado a menina muito viva. Decidira que ela própria mataria Branca, já que era fácil, muito fácil dar cabo da última esperança - era só fazer com que comesse algo com leite, muito leite! Preparou deliciosos bolinhos de maçã com canela... e leite, muito, muito leite de vaca na massa!

A mulher má vestiu-se de hippie, e saiu pela cidade a gritar: "(...) Bolinho de maçã! Vendo bolinho de maçã, vegano, sem leite e sem ovo! (...)" (p. 29). Branca logo ouviu a propaganda e ficou muito animada, saiu correndo pra comprar bolinhos veganos de verdade! A menina nem desconfiou que a mulher à sua frente era a madrasta, quando esta lhe ofereceu ficar com todos os bolinhos da cesta! A menina saiu andando toda contente com um bolinho já na boca. No entanto, logo que chegou em casa tudo ficou diferente, sentiu-se mal e sua boca e olhos logo incharam por causa da alergia ao leite! Mas a garota suspeitava que era alérgica a maçã, a sua fruta preferida, já que a 'bondosa' senhora lhe vendera bolinhos todos bem veganos... Para a sorte de Branca, as anãs chegaram em casa mais cedo do trabalho, e logo a socorreram, levando-a ligeiro para o hospital mais próximo! 

O que terá acontecido à pobre menina tão alva como leite? Para você saber tim-tim por tim-tim dessa aventura tão intensa, corra ligeiro e vá pedir à Christiane esse livro todo lindo! Pode ser que ela te conte o que aconteceu com a menina e as sete anãs, bem assim o que foi feito da madrasta tão nefasta! Uma coisa é muito certa - eu não posso te contar agora o fim dessa história, porque essa resenha iria perder toda a sua graça, já que hoje a surpresa é destinada à autora - meu presente de aniversário e de dia das crianças, para a querida autora Christiane Nóbrega! Parabéns, seja feliz, muito feliz, como a felicidade de uma criança!

(Nic Cardeal) 

capa do livro A branca de leite

Dois trechos do livro A branca de leite:

"Nasceu. Ela era uma fofura, como todos os bebês.  Não, não era fofa. Ninguém tem coragem de dizer, mas bebês nascem bem esquisitos. Ela tinha um cabelo preto demais, liso demais que chegava a ser espetado. De tão branca, dava para ver suas veias. Era quase transparente. Sua família a recebeu com muito amor. Chamaram-na de Branca. 

Nem tudo era fácil. Bebês não sabem falar e, por isso, choram muito. Ora troca fralda, ora dá peito, ora põe para dormir. A mãe passou dias, meses, anos só cuidando de Branca. Tudo com muito amor e esforço.Algumas vezes muito cansada, outras com bastante disposição. E, para completar, Branca tinha alergia a alguns alimentos, o que exigia muito cuidado. É que quando se tem alergias alimentares não se pode ter contato com o alimento que causa alergia, o alergênico. Nem um pouquinho que seja.

(...)

Desesperada, a menina procurou o homem e não o encontrou. Viu-se numa cidade enorme, sem ter a quem recorrer. Sozinha, chorou. Quando já estava soluçando de tanto choro, lembrou falando alto:

- Ah! Desde que mamãe morreu, estou só! - enxugou as lágrimas, ajeitou o vestido e seguiu pela cidade cinzenta, dizendo a si mesma - Coragem, Branca! Coragem!

(...)"

fotografia do arquivo pessoal da autora 

CHRISTIANE NÓBREGA é natural de Brasília/DF, onde reside. É advogada e escritora. Integrante do 'Coletivo Editorial Maria Cobogó' (www.mariacobogo.com.br) e do movimento 'Mulherio das Letras'. 

Livros publicados: Júlio, um dinossauro muito especial (infantojuvenil, Franco Editora, 2016); A branca de leite (infantojuvenil, C de Coisas, 2017); Fios (infantojuvenil, Coletivo Editorial Maria Cobogó, 2019 - finalista do Prêmio Jabuti 2020); Hiato (romance, Coletivo Editorial Maria Cobogó, 2022).




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