UM EXCERTO DO POEMA "E SE A CIDADE FOSSE UMA MULHER?", DE SARAH OLIVEIRA CARNEIRO


fotografia do arquivo pessoal da autora 


"E SE A CIDADE 

FOSSE UMA MULHER?"


fotografia de Luciano Fogaça


"Os mares continuariam a ter maré
vazante, ela seria uma circunferência 
e já nasceria livre.

As praças teriam árvores com tranças 
de laço e as manifestações políticas 
percorreriam a Rua dos Cataventos
do poema de Mário Quintana.

Os prédios dariam mais chance às belas
paisagens, hoje ofuscadas atrás 
da imponência dos fálicos arranha-céus.

O rural não seria o oposto do urbano. 
Haveria mais correspondência, 
o que permitiria que as feiras populares 
do Sertão respirassem integralmente 
em meio à fisicalidade
destrambelhada da malha citadina.

Contradições e paradoxos?
Sim, teríamos. 
Porém, não fugiríamos das suas antíteses.

fotografia de Luciano Fogaça

Espalhados pelos bairros 
estariam os conselhos matriarcais
comandados pelas agricultoras,
mães, lavadeiras, mulheres negras,
brancas, mestiças, indígenas, 
lésbicas, prostitutas, médicas, professoras.

Os contornos das ruas
não teriam nada de retilíneo 
porque reinaria a silhueta arredondada.

Sendo a cidade uma mulher, 
não haveria catadores nos lixões,
pois não haveria lixão.

Os aromas não seriam nada repetitivos, 
pois em cada estação do ano
uma fragrância específica 
sobreporia o tecido social,
domando a mesmice.

E teria a cidade nomes incandescentes:
Rosa, Maria, Milena.
Carla, Débora, Claudia.
Juliana, Lara, Sarah, Madalena.
Roberta, Soraya, Sheila.
Maria, Lourdinha, Leni.
Fernanda, Ludmila, Edite.
Nelly, Linézia, Ana.
Aline, Betânia. 
Beatriz, Luíza, Carolina. 

Muitas Carolinas.
Por quê?
Para lá fora, do outro lado, 
em pleno carnaval,
na avenida,
após a passagem da banda,
"os olhos guardarem a dor,
o pranto nada ajudar,
surgir convite para dançar,
uma rosa nascer,
todo mundo sambar,
a estrela cair,
a festa acabar,
o barco partir
e o tempo passar na janela".
(...)"

fotografia de Luciano Fogaça 


(excerto do poema E se a cidade fosse uma mulher?, Cruz das Almas/BA, edição da autora, 2023)

capa do livro E se a cidade fosse uma mulher?

O poema E se a cidade fosse uma mulher? surgiu em março de 2023, quando Sarah Oliveira Carneiro foi convidada a fazer uma intervenção para o Dia Internacional da Mulher, na Câmara Municipal de Cruz das Almas, BA, cidade onde reside. Na quarta capa do livro, Sarah registrou que a leitura do poema "ecoou no salão nobre e, diante da acolhida calorosa e dos pedidos de diferentes pessoas para que "meu discurso" lhes fosse enviado, resolvi publicá-lo para que pudesse ser lido por quem desejasse. Assim, nasceu este livreto, com fotos de Luciano Fogaça e o trabalho visual da artista Vânia Medeiros".
Recomendo muitíssimo a leitura completa desse precioso poema, pois, através de uma surpreendente analogia, a autora nos convida a uma profunda reflexão sobre como as perspectivas femininas na condução de uma sociedade trariam maior inclusão, amor, verdade, ética, justiça, solidariedade e, principalmente, compreensão e reparação das desigualdades sociais. Afinal, como já disse Bell Hooks, "para sermos amorosos, precisamos estar dispostos a ouvir as verdades uns dos outros, reafirmar o valor da verdade" e, através dela, reformular a nossa própria 'comunidade humana'!

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fotografia do arquivo pessoal da autora 

SARAH OLIVEIRA CARNEIRO é natural de Feira de Santana, BA. Andou, viajou, circulou, viveu na França e, hoje, reside na cidade de Cruz das Almas, BA, embora temporariamente esteja de passagem por Curitiba, PR, onde realiza suas pesquisas de pós-doutoramento.

Professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - UFRB, produz ensaios, artigos, conversas, poesia e prosa. Ocupa a cadeira número 8 da Academia Cruzalmense de Letras - ACL. É uma das autoras do podcast Garrafas Almar. Faz parte do Coletivo Marianas, um grupo feminista de escritoras e artistas fundado em 2014, em Curitiba, PR. 

Livros publicados: Miudezas de uma cidade do interior; escritos sobre Cruz das Almas (Conspire Edições,  2017/2018);  E se a cidade fosse uma mulher? (edição da autora, 2023).

Participação em coletâneas: Voos essenciais; palavras arregrais (Luminosa Livros, 2021);  Águas de muitas fontes (Conspire Edições, 2021); Ir e ficar... Ir e voltar; mulheres brasileiras em movimento (Triom Editora, 2022).









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