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Mostrando postagens de 2020

Pôr do Sol | um conto de Vera Ione Molina

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Pôr do sol [por Vera Ione Molina]

Na noite anterior fomos a uma festa. Bebi muito e, como sempre, tivemos de voltar para casa antes dos amigos. Vicente me dissera muitas vezes que não suportava mais minhas bebedeiras. Eu prometia que não beberia mais, mas odiava o jeito que aquelas alunas do meu marido o tratavam. Discutimos muito, tenho a impressão que horas a fio, mas não lembro de quase nada do que eu disse. Ele devia ter me dito algo terrível porque eu joguei na cara dele que ele era o homem mais feio que tinha passado pela minha cama. E, como bêbado não mede as consequências, dormi. Acordei cedo, tinha de entregar um bolo decorado para um aniversário de uma menina criada pela avó que pediu uma cobertura de chocolate e, no alto, o príncipe calçando um sapatinho na Cinderela. Vicente tinha acordado e me chamou para tomar café com ele. Falou do enorme ninho de caturritas no pátio que parecia dar movimento à casa, como se estivéssemos no campo. Fiquei aliviada porque tudo…

A poesia magistral&impecável de Águeda Magalhães

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Luz a meio-toma Cecília Meireles
Impossível
Ver o vinho evaporando
na fina taça
e não sentir a saudade latente
de todos os goles que deixei escapar
acreditando que o manancial era eterno.
engano pueril
o líquido escoa...
a marca
teimosamente
vai declinando.
mais da metade
já se foi.À semelhança dos poentes,
sou luz a meio-tom.
recolho-me
como o sol
que se entrega
exaurido
à noite irremissívelFica o gosto amargo das renúncias...
A nostalgia das estrelas
que entoam despedidas.
Impossível retomar
o ontem que não vicejou
e hoje habita o abismo intransponível
do “ tarde demais.”
Choro pelo que deixei escorrer a céu aberto.
pela manhã
que deixei escapar
sem sorver a beleza de seus cânticos molhados de sol.Hoje
tardia
quero beber,
lentamente,
cada fio ralo que escorre pelas bordas do cálice.
são lágrimas esparsas
:choram pelos meus desencontros,
pelos meus desencantos.
no percurso do agora
escoltam-me lembranças gastas
pistas de saudades que ressoam
vozes e infinitude.frente à voracidade do tempo,
a Poesia
um dia se perguntou
: “ em …

Uma colher de chá pra ele - Wanderley Montanholi

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|Uma colher de chá pra ele 10|

Seis poemas do livro inédito - POEMAS PRA VOCÊ APRENDER A RESPIRAR

I. No Passado

Depois de toda a verdade que restava
De todos os enganos nas estradas sem retorno
De toda chuva que escorreu pelos vidros das janelas empoeiradas das tuas coxas
De todas as pontes elevadas
Impedindo a passagem
Depois de tudo
Depois do mundo
Depois do fundo
Depois do teu cheiro na varanda do meu peito
Do teu jeito na bola de cristal
Que brilha na mesa da sala
Das lições que ninguém ensinou
Depois de toda a música do piano
Que continuava a tocar
De todas as fotos queimadas no barro
Depois de tudo
Depois do mundo
Depois do fundo
Havia o ar
Armar
loganzillmer

Sonho sempre que meu corpo é como um lago
Profundo, escuro e com a claridade interna de um desespero em vaga-lumes
E mesmo que a lâmina afiada da morte
Tente apagar a luz dos olhos que outrora foram meus
E mesmo que tente apagar o amor, o tempo, as nuvens doces em algodão
A roda da vida gira em sorte e encanto
Trazendo a reza de encontrar todo dia
No che…

Coluna I Era uma vez 2 - A delicada literatura infantil de Palmira Heine

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Palavras trocadas
Um dia acendi os sapatosE calcei depressa a luzDevagar fui andando bem rápidoVi um gato de capuz
Vi um peixe de gravataUm passarinho a nadarUma zebrinha sem listraE um leão a miar
Vi um  sapinho de ternoUma girafa baixinhaUm morcego bem modernoE uma tartaruga rapidinha
Tomei um susto  medonhoSó então que percebiQue tudo o que eu via era sonhoEu acordei e sorri.

*********


Palmira Heine é escritora, professora universitária, poetisa. Desde criança mostrou inclinação para a produção de poemas e pequenos contos e, aos dezoito anos publicou o primeiro livro com ilustrações em preto e branco numa época onde a publicação de livros era bastante inacessível em comparação aos dias atuai

Crônica | O ódio que não se aprende - Chris Herrmann

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Crônicas que as lembranças me embrulham de presente - 14
O ódio que não se aprende
Chris Herrmann


Minha filha, quando era bem pequena, viu pela primeira vez aqui na Alemanha uma criança negra. Estávamos no parquinho. Segue o diálogo que foi mais ou menos assim:
_ mãe, aquela menina tem uma cor diferente. 
_ filha, o mundo está cheio de pessoas diferentes, inclusive na cor da pele.
_ ela está olhando pra mim.
_ deve ser porque você olhou pra ela.
_ é mesmo. 
_ não quer ir lá brincar com ela?

Ela foi correndo e brincaram e ficaram amiguinhas. Ficamos amigos da família também. Nunca mais minha filha fez qualquer menção sobre alguém lhe parecer diferente. Ensinei-a desde cedo a não ter preconceitos e a respeitar as diferenças. Meu filho, idem. Quando ele era criança, inclusive, enfrentou problemas na escola por causa de uns meninos mal educados, por defender uma menina turca de religião muçulmana que estava sofrendo bullying. Ele não aceitou ser mais um da “boiada“ a humilhá-la. E sofreu bullying p…

Maria - um conto de Helena Arruda

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Monika Luniak


Maria [por Helena Arruda]As maritacas cantam nas mangueiras da janela. O som estridente vem carregado de cheiros de uma infância feliz. Pouco me recordo da minha infância. Mas me lembro do velho abacateiro nos fundos da casa da memória. Reminders, diria certo filósofo francês. A memória é casa habitada. Ouço o som das folhas da mangueira. Essa é a infância do meu filho. Sinto o cheiro da infância dele se reescrevendo sobre a minha, como num palimpsesto. Leio Elvira Vigna, uma mulher que soube assumir suas dores na solidão da escrita. Tenho medo de não poder escrever meus tantos livros que moram em mim.  Paro. O vento e as sombras entram pela minha janela. Meus pés e pernas florescem rendados pelas folhas e galhos das mangueiras que balançam ao sol da tarde através da cortina. O sol invade meus pensamentos e me aquece. Tenho medo de não poder sentir mais essa sensação. Penso que a sinto agora. Estou no tempo presente. Mas habito outros tempos e outros lugares quando olho p…

Isabel Furini & Luciane Valença | 5 poemas 5 telas

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Atitudes femininas
Desenterrar os álbuns de fotografias e triturar com os dentes as lembranças dolorosas mastigar os rancores com gestos de troglodita matar velhas ilusões como os santos e os eremitas
pendurar nas cortinas de crochê as sombras da eterna mágoa e dos antigos amores para que a luz do Sol elimine o mofo e as traças que se alimentam das lembranças e das emoções
renascer como a ave Fênix – livre, cofiante e decidida a iniciar uma nova fase da vida.
Luciane Valença
A voz do feminino
Nesta época de catástrofes a Lua é de renda  e o Sol é de veludo dourado e enceguece às mulheres enquanto a Lua resplandece e fala : é preciso que o eterno feminino seja transformado em um sino e que vibre nas gargantas
é hora de reunir forças uma nova Idade Média está batendo à porta
é preciso defender com força a premissa “nenhuma mulher deve ser submissa!”
Luciane Valença Frágil?
Os corvos do ocaso observam as gárgulas
os corvos decidem desafiá-las e fazem uma pergunta : como o amor  (um ser frágil – porém ágil) pode provoc…