Preta em Traje Branco | Dualidades | Dois textos de Joyce Dias


Coluna 3

Dualidades - Dois textos de Joyce Dias 


Texto 1


A vida possui reveses que, muitas vezes, não entendemos. Quantas vezes, temos a impressão de que chegamos no fundo do poço, que estamos sendo engolidos por areia movediça. Não há mais solução, até que encontramos novas possibilidades. O ar volta aos pulmões e conseguimos identificar possibilidades, as quais eram impensadas.

A vida sempre se refaz, no seu curso sinuoso, começamos novamente. E o que pensávamos ser o contrário, torna - se o certo. Viver é um desafio diário, todos os dias ganhamos a possibilidade de fazer diferente, todos os dias estamos mais próximos do fim.

A nós cabe interpretar essa dádiva. 

Como escolho olhar para o Tempo? 

Estou me aproximando da morte, ou ganhando mais um dia?

Prefiro pensar que há uma nova jornada a se iniciar, Machado de Assis diria: "o tempo é um rato roedor das coisas, que as diminui ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto", prefiro pensar que o Tempo é um grande arquiteto/artesão e ao girar nossa ampulheta, molda novas possibilidades, compete a nós o auxiliarmos nas obras a serem construídas. 




Texto 2


Tem nem o que falar, gente. Mais duas crianças pretas, Emily e Rebeca, mortas, por um sistema que aplica o projeto de genocídio dos nossos corpos desde sempre, independente do lugar social, a raça te marca. 

"Ser livre é não ter medo" , disse nossa ancestral Nina Simone, concluo que não sou livre, pois o que mais tenho é medo pelos meus. 

Quando falo da dificuldade em ter filhos, as pessoas me dizem que estou me entregando ao projeto, que não posso me render ao Racismo, que vou atender a agenda... Mas, meu povo, não tô pronta pra isso. E, entendi, que como preta, não foi uma decisão livre - tipo meu corpo minhas regras - não parir, foi construindo em mim por proteção. 

Sobonfú Somé afirma: "sabemos que não podemos ter comunidade sem filhos, não podemos ter filhos sem comunidade, e não existiria sem espírito. É um círculo completo, cada elemento de completar o conjunto. Congratulamo-nos com os nossos filhos e assim damos as boas vindas ao espírito." 

E eu concordo, o que seríamos sem as crianças e os mais velhos? 

Contudo, como lidar com toda esse extermínio e querer parir?  

Egoísmo? Covardia? Chamem do que quiser. 

Eu não tenho nome pra dar, só sei sentir. 

Talvez, eu mude de opinião. Não hoje. 

Toda minha solidariedade à família das pequenas, tão lindas e cheias de vida. Que o Orun as receba em festa e que o Sagrado conforte a família em sua dor, que também é nossa. Quando uma criança morre, morremos um pouco com ela, pois "uma criança é valiosa e insubstituível, alguém que não podemos nos dar ao luxo de perder". Sobonfú Somé.





Joyce Suellen Dias, mulher preta, de Axé, Diretora escolar, Especialista em Educação para a diversidade, Mestre em linguística Aplicada, Palestrante em estudos étnico raciais e educação antirracista.

Instagram @escrevivenciasofjoy 

Textos e frase:  @joycesuell

Arte: @lelegomes.sp




 

Comentários

PUBLICAÇÕES MAIS VISITADAS DA SEMANA

Um conto de Maria Amélia Elói | "Fécula"

Cinco poemas de Claudia Miranda Franco | "Moenda"

Sete poemas de Rozana Gastaldi Cominal | "Aos protagonistas da cultura viva"

Coluna 01 - In-Confidências - Apresentação, por Adriana Mayrinck

PONTE-AR: literatura preta em dia(logo) | Na moda - Catita

Preta em Traje Branco | Reminiscências - uma resenha poética de Mada Scavassa

A poesia tocante de Wanda Monteiro

Preta em Traje Branco | Ana Paula de Oya em Tríade de Versos

Divina Leitura | Retrospectiva de 2020

Para colocar poesia no seu fim de ano | Crônica de Adriana Aneli