Para não dizer que não falei dos cravos | Três poemas de Matheus Guménin Barreto

 

Coluna 10


Três poemas de Matheus Guménin Barreto


toda linguagem é crime

maior ou menor

 

***

  

arder a vida em palavras

 

medidas sombra por

sombra

duma mão noutra arder a vida

na geografia incerta da boca

 

que arde um instante e desce à terra.

 

arder a vida nos ecos

 

e nos corpos ora nacarados ora suados do

discurso que o lábio promete

nem sempre cumpre

e quando cumpre é sempre quase.

 

equidistante do fim e do início arder a vida

 

enquanto o corpo se desfaz devagar

com carinho quase

mas resoluto.

 

arder do verbo absoluto à procura

 

o verbo na sarça que se queima magnífico

e não existe.

 

arder a vida pruma bosta qualquer

 

que mal nasce já não existe ::

 

– arder a vida à procura dum sol pousado na mesa

dum dia de justiça entre irmãos

e descer à terra ciente – mas contente, resoluto –

de nada ter nas mãos

 

***


alge-

nade-

tud

o

sopros da manhã

ã

o que fica se fica e quando e como se

nada

n

ada

nada

algo e

nada

o que fica fica

?


Matt Trostle. Fonte: pixabay.com



Matheus Guménin Barreto (1992) é poeta e tradutor mato-grossense, um dos editores da revista Ruído Manifesto. É autor dos livros A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017), Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018) e Mesmo que seja noite (Corsário-Satã, 2020). Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Leipzig na área de Língua e Literatura Alemãs - subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg. Teve poemas seus traduzidos para o inglês, o espanhol e o catalão; publicados em revistas no Brasil, na Espanha e em Portugal; e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.
Os 3 poemas acima integram o livro Mesmo que seja noite, que pode ser adquirido no site da editora Corsário-Satã.



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