Um ensaio de Juliane Matarelli | Entre raízes e convenções: um coração

 

Mabel Amber. Fonte: pixabay.com

Um ensaio de Juliane Matarelli

Entre raízes e convenções: um coração



Fui convidada, há já alguns anos, por não me lembro quem, a integrar um coletivo feminino virtual de nome Mulherio das Letras. A plataforma escolhida foi uma das muitas redes sociais disponíveis. O nome me pareceu interessante e logo entendi que se tratava de um grupo de mulheres que escreviam. Pareceu-me um grupo bem diversificado e as integrantes apresentavam diferentes experiências relativas ao mundo da palavra escrita: algumas com experiências com o universo editorial brasileiro, às vezes também com o internacional; outras, sem nenhuma experiência com publicações. Contudo, todas pareciam ter alguma prática de escrita – muitas com vasta experiência em interações por redes sociais. 

Acompanhei de longe (ainda que com vivo interesse) alguns problemas do grupo, excelentes inciativas, importantes dicas e ótimas divulgações. Me ofereci para revisar a primeira publicação Mulherio das Letras

Faz tempo que tento me desvincular de redes sociais. Como não consegui (muitos procedimentos para desfazer minha conta; acabo desistindo de passar por eles), optei por interagir só quando me parecesse absolutamente necessário. 

Eis que hoje, domingo, 06 de dezembro de 2020, uma escritora que não conheço pessoalmente, mas por quem nutro certa simpatia virtual, publicou, na página Mulherio das Letras, uma matéria comemorativa dos 100 anos de Clarice Lispector, escrita por uma jornalista, com o seguinte título: “Clarice Lispector, autora radical, mãe e esposa convencional”. A intenção da colega do Mulherio era convidar as, segundo ela, ‘feministas plantonistas domingueiras’ a problematizar o título, principalmente, da matéria jornalística. De fato, eu me encaixava perfeitamente nesse grupo: após meses de casa cheia de familiares, em plena pandemia, eu aproveitava sozinha um domingo em feliz distanciamento social e com algum tempo para uma viagem panorâmica sobre a página em questão. Ao ler a chamada da colega, pedindo opiniões sobre o título da matéria, senti uma espécie de obrigação de me posicionar. 



Nasci em 1968, em Minas Gerais, onde era muito comum, na minha infância, mulheres serem chamadas por nomes compostos com os dos maridos. Assim, minha mãe era amiga de “Maria de Paulo”, “Lourdes de Agenor”, “Clara de Afrânio”, “Cleuza de Alísio” e outros tantos nomes femininos pertencentes a diferentes nomes masculinos. Eu achava mesmo estranha a maneira preposicionada de se referir àquelas mulheres. Como era comum, à época, as pessoas se referirem a crianças como sendo da mãe ou do pai – “Márcia de Elisabete” ou “Carolina de Vanires” – aquelas mulheres carregarem aqueles complementos nominais me parecia aviltante, já que isso as colocava num lugar de submissão aos homens; invariavelmente, elas me pareciam muito mais fortes do que os homens a quem, onomasticamente, pertenciam. Eu devia ter uns 10, 11 anos e essas questões já me incomodavam, assim como outras similares incomodam minha neta de 10 anos que gosta de escrever “es menines gostam de escrever”. 

Fui criada por minha mãe e minha avó: duas mulheres fortíssimas. Meu pai faleceu quando eu tinha 8 anos e nunca foi, para mim, modelo de força, vigor e coragem: esse lugar sempre foi o de minha mãe. Eu estudei em escolas só de meninas. Tive um único professor – o de ciências – durante todo o meu ensino fundamental – todas as demais disciplinas eram ministradas por professoras. De modo que, para mim, o mundo era regido por mulheres. E tudo ia muito bem daquela maneira. Até que aos 14 anos tive meu primeiro namorado e comecei a conhecer comportamentos antiéticos que não existiam, até então, no meu mundo feminino. Mas este é assunto para outro texto. Neste, meu objetivo é me lembrar de como a mãe de Macabéa foi a mim apresentada e porque me incomoda ler “Clarice Lispector, autora radical, mãe e esposa convencional”, título de matéria jornalística publicada em comemoração ao centenário de nascimento da escritora. * 

Era muito comum durante minha infância e adolescência (décadas de 1970 e 1980) mulheres receberem algum reconhecimento por seu trabalho e, ao serem biografadas, eram, quase sempre, as esposas de um fulano. Como a enorme maioria de textos jornalísticos, de livros, de enciclopédias, de revistas era escrita por homens (e quando os textos eram escritos por mulheres precisavam passar pelo ‘crivo’ de um editor, quase sempre, homem), eu vi, entre tantas outras situações similares, Clarice Lispector ser apresentada como uma escritora casada com um diplomata. A impressão que nos passavam era a de uma moça bem comportada, mãe de família que escrevia nas horas vagas, com o consentimento e admiração de seu esposo. Assim era. [Até Ângela Diniz tinha se transformado em “a Ângela do Doca Street”. Realmente, era algo assustador]. 



Muitas mulheres estamos nos organizando na tentativa de reescrevermos nossa própria história. Em 2020, não me parece aceitável que uma matéria que pretenda comemorar os 100 anos de nascimento de Clarice Lispector seja intitulada dessa maneira. E por quê? Vejamos alguns pontos (há, seguramente, outros tantos, e espero que outras mulheres se sintam motivadas a contribuir para a reflexão): 


a) Que mensagem a frase pretende transmitir ao contrapor a chamada ‘radicalidade’ da escrita da autora com o ‘convencionalismo’ de sua vida privada? 

b) O que seria, para a pessoa que criou o título da matéria (sabemos que nem sempre o título de uma matéria é escolhido pela pessoa que a redigiu), uma “mãe e esposa convencional”? 

c) O que é ser uma “autora radical”? 

d) Ainda que ousemos inferir a intenção da jornalista (ou do editor) ao definir Clarice como uma “autora radical”, por que ela foi retratada na matéria (e quiçá em tantos outros espaços) como tal? 

e) No título da matéria, Clarice é uma autora – atuação que pressupõe reconhecimento público, embora me pareça palavra menos expressiva do que escritora – versus ‘mãe e esposa’. Uma função pública versus duas privadas. Eu nunca vi um autor/escritor ser apresentado como ‘pai e marido’ – ainda mais, convencional. O que essa diferença de abordagem de gêneros nos sugere? 

f) A matéria em questão foi redigida por uma mulher. Porque até hoje, em 2020, mulheres adotam comportamentos machistas em diversos âmbitos de atuação social e raramente se dão conta disso? 



Enfim, levantei algumas poucas questões apenas sobre a chamada, a manchete, o título da matéria. Nesse momento em que se comemora o centenário da escritora, em meio a uma crise mundial, me parece bom e salutar, nessa e em outras questões similares, que procuremos nos situar, ao analisar as diferentes maneiras de se retratar uma mulher, bem perto de um certo coração selvagem. 



*a matéria em questão, intitulada Clarice Lispector, autora radical, mãe e esposa convencional, pode ser lida aqui: https://brasil.elpais.com/cultura/2020-12-05/clarice-lispector-autora-radical-mae-e-esposa-convencional.html. Acesso em: 06 dez. 2020. 


Si von Sasson. Fonte: pixabay.com




Juliane Matarelli trabalha com muitas das etapas relativas a publicações, principalmente, de livros: preparação de originais, coordenação editorial, revisão de texto, tradução. Atualmente dedica-se, prioritariamente, a viabilizar autopublicações femininas.



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