Uma Crônica sobre mulheres - por Rejane Souza


MULHER LENDO de Aaron Shikler (1922)

LIVRO E EMPODERAMENTO FEMININO
por Rejane Souza

Em pleno período de Carnaval, fui desafiada a escrever uma crônica que tivesse conexão entre o livro e a mulher. Não é uma tarefa fácil, pois o ambiente externo chega através das batidas do pedreiro exercendo seu ofício. De outra banda, os sons das conversas dos vizinhos misturados a músicas, e a inspiração vem e some... Mas pegando o fio da História, sabe-se que o livro, por muito tempo, foi considerado um bem cultural de pouca circulação na sociedade. E o acesso, na Idade Média, era restrito a uma casta privilegiada nos lugares secretos dos Mosteiros. Nesse tempo, o livro, além de ser matéria perigosa, somente ao gênero masculino de notório saber e nobreza, cabia o direito de desfrutá-lo.
Todavia, no curso do percurso, as vozes femininas, em épocas diversas, desafiaram o silêncio e ousaram, através dos escritos, soltar ao vento as suas ideias, denúncias e pensamentos. Nesse roteiro, uma síntese de autoras que atuaram nesse movimento:
Santa Teresa Ávila – freira carmelita, mística e santa católica do século XVI - escreveu obras de densidade barroca - contemplativa e espiritual – com marcante importante atuação durante a Contra Reforma.
Nísia Floresta - natural do Rio Grande do Norte – 1810. A história da escritora se verte de pioneirismo: -- primeira educadora feminista do Brasil - primeira mulher a publicar textos em jornais. Escreveu livros em defesa dos direitos das mulheres, dos índios e dos escravos. Faz parte da Primeira Onda feminista.
Pagu - nascida em 1910, em São Paulo, foi escritora, poeta, tradutora, jornalista e musa do movimento modernista. A sua obra versa sobre a defesa da mulher pobre e criticava o papel conservador feminino na sociedade.
Virginia Woolf – escritora inglesa – não representa somente um dos ícones da literatura modernista. Virginia revolucionou o mundo literário do século XX ao escrever sobre a mulher na sociedade e abordou a questão homoafetiva em seus livros.
Simone de Beauvoir. "papisa do feminismo" - autora do livro: "O Segundo Sexo", obra referenciada em qualquer debate sobre gênero. O livro criou as bases do feminismo. Além disso, ela mapeou as formas de opressão masculina, falou sobre patriarcado e inferiorização da mulher e questionou a sociedade casamento.
Hoje, deve-se a tais guerreiras esse grande legado. O tempo passou... os séculos, e a realidade foi sendo um pouco transformada. O livro passou a ter natureza democrática e o seu acesso ampliado a todos os gêneros e classes sociais. Notadamente no Século XX, a literatura apontava a escrita de mulheres, que mesmo em projeção menor que os homens, já conseguiam romper barreiras e até ganhar prêmios literários. Todavia, essa ponte de acesso ao livro e à produção escrita feminina é cheio de pedras no caminho...
A cultura machista entranhada na alma brasileira lança à mulher, que aprecia os livros, um incômodo estranhamento. E gera-se, assim, a simbologia que confere ao livro a figura de um amante que não pode derrubar. Essa concepção tem certo valor de verdade, pois não há empoderamento mais definitivo do que a aquisição de conhecimento que a leitura de um bom livro produz na vida da mulher.
E essa ideia de amante é a grande inspiração, pois confere ao feminino a liberdade desejada. Uma liberdade que supera a ideia de separação física do parceiro, posto que somente através da leitura, ela consegue sair da escravidão mental, viajar sem sair do lugar e fugir da opressão masculina, basta se recolher com seu livro em um recanto do seu lar.
No entanto, não são apenas esses os benefícios, a mulher empoderada não fica sossegada, e para vencer o desassossego, ela, como o girassol, vai plantando saber na trilha de mulheres que aguardam essa luz que o amante livro conduz.

Rejane Souza é natural de Nísia Floresta/RN
Graduada em Letras/UFRN- Mestra em Literatura Comparada/UFRN
Ex-professora substituta de Literatura Portuguesa pelo Departamento de Letras/UFRN
Coordenadora geral do Projeto de Formação de leitor em literatura infanto-juvenil – Projeto selecionado pelo Edital do BNB Cultural – BNDES – Governo Federal. Edição 2012.
Membro da Comissão Organizadora do Seminário de Arte e Literatura Barroca do CCHLA/UFRN, em 2010.
Membro da Comissão Organizadora do VII Congresso Internacional de estudos da Imaginária Brasileira – no Museu do Homem Missioneiro Potiguar – Vila Feliz – Pium – Parnamirim/RN, 2013.
Produtora Cultural da I Feira Literária de Nísia Floresta – I FLÍNISIA – em parceria com a Paróquia Nossa Senhora do Ó – Sebrae – FJA – SEEC/RN - MINC e outros – 2015.
Membro da equipe avaliadora do Concurso Moacir Cyrne da Funcarte – na categoria Ensaio Literário – 2016.
Membro da ALAMP – Associação Literária e Artística das Mulheres Potiguares



Comentários

  1. Maravilhosa! Sua escrita prende qualquer leitor. A forma de escrever, as palavras... Seus textos desperta em mim, uma sensação de leveza, simplicidade e ao mesmo tempo forte. Emocionante! Mulher magnífica.

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  2. Crônica publicada nas coletânea "A mulher e o livro: uma relação em prosa e verso" , publicada pela Carpe Librum Editora em 2019. 💗

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  3. Amei sua crônica, Rejane. Consistente nas referências
    e leve na linguagem como devem ser as crônicas.Inspiradora. Parabéns . Sua escrita flui.

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