Quatro poemas da "Feiticeira das Palavras"- Anna Apolinário

Dennise Luengo

Dédalo
Absinto agridoce promíscuo,
Veneno derramado no coração da Noite
Teu amor é uma rosa partida
Pétala desfalecida do meu verso mais solferino.
Os meus olhos estão cheios de gana
por ti, meu desejo embevecido,
a doçura bruta da lascívia,
rompendo silêncios de sinfonia do universo
caleidoscópio lírico, circo metafísico.
Que toda embriaguez seja enaltecida
condecorada no deleite da poesia
Faz-te meu amante, poeta, louco, libertino
Enquanto eu desfaço sonhos,
como quem fabrica estrelas
na vertigem da boemia.
Bendita serpente do Éden esquecido
solfejou um ardente soneto
Espalhando a semente
no outono da tua noite entediada
Lisergia de versos paixões & enigmas.
Deixa-me suspirar um gozo, entorpecida
como uma flor de cor escarlate perdida
No jardim da tua carne perfumada
orvalhada pelo meu feitiço
pervertido & pagão.
Permita que minha língua
confabule em teus pulmões frívolos,
Põe-te a gosto,
degusta,
dos delírios dodecassílabos escondidos
nas voltas do meu vestido.


Luciane Valença (Afrodite)

Salmo
teu sexo escreve o evangelho de Sade
“Mea vulva, mea vulva, mea maxima vulva”
sou uma oração suja
roçando tua nuca
rosário rebentado de volúpia
sou uma hóstia
em tua língua
ardo


"Céu" Luciane Valença
Ascensão

A Noite encheu todo meu cálice
Com o bálsamo escuro das papoulas
Uma fragrância intoxicante
Passeia pelos jardins da luxúria
A Lua perfura meus olhos com nove espinhos
E veste-se com as anáguas da Aurora
Pequena gota de orvalho escarlate
Flor que se despedaça em verso
No instante efêmero
Entre a madrugada e o alvorecer
Fagulha que ferve o maior dos lagos.

Luciane Valença

Transe
Moiras e alquimistas,
em lenta carícia,
elas surgem
com seus mágicos ungüentos.
Lágrimas de mandrágoras,
enigmas de artemísias.
Em negras, brilhantes bagas:
o beijo da Belladonna.
Entre labaredas levitam,
endiabradas bailarinas.



Anna Apolinário nasceu em 28 de julho de 1986, sob o signo de Leão. Feiticeira da palavra, escreveu os grimórios poéticos Solfejo de Eros (CBJE, 2010), Mistrais (Prêmio Literário Augusto dos Anjos, Edições Funesc, 2014), Zarabatana (Patuá, 2016), Magmáticas Medusas (Cintra/ARC Edições, 2018) e  A chave selvagem do sonho (Triluna, 2020). Celebra a poesia feita por mulheres e incendeia o patriarcado com o Sarau Selváticas, sussurra alucinações no elenco das Senhoras Obscenas. Reside em João Pessoa, Paraíba
Contato: anna_apolinario@hotmail.com









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