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Mostrando postagens de Outubro, 2021

Um conto de Cristiane Macedo | "Quando você volta?"

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  Imagem de Steward Masweneng por Pixabay. Um conto de Cristiane Macedo Quando você volta? Dos vinte e dois filhos nascidos de dona Maria Diolinda, quatorze vingaram. O mais novo era o Doca. Não sei dizer seu nome de batismo, cresceu e viveu Doca e aqui será. Doca era um rapaz lindo, mesmo já depois dos quarenta ainda era lindo, embora esse relato seja de um tempo bem antes. Para dona Maria Diolinda, Doca era o bebê, por toda sua vida foi assim. Tinha regalias que os outros não tinham. O preferido. De família abastada, Doca gostava dos luxos que podia ter e tinha. Em plenos anos 1950 vivia em ternos e chapéus muito bem alinhados. Difícil achar rapaz mais charmoso. O pai era dono de botica e foi assim que, desde bem jovem, começou a namorar Maria Quitéria. Sendo rapaz de beleza superlativa, não poderia ter decidido por melhor parceria. Pois que Maria Quitéria era a moça mais bonita daquela cidade do interior paulista. Namoraram muitos anos, até que o pai da moça exigiu um compromisso ma

A POESIA DE DALILA TELES VERAS - por Nic Cardeal

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(fotografia do arquivo pessoal da autora) 8M Mulheres não apenas em março.  Mulheres em janeiro, fevereiro, maio. Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios. Mulheres quem somos, quem queremos. Mulheres que adoramos. Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato. Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas. Mulheres de verdade, identidade, realidade. Dias mulheres virão,  mulheres verão, para crer, para valer! (Nic Cardeal) Hoje é dia de mergulhar na intensa POESIA de DALILA TELES VERAS : 1)  LIÇÕES DE TEMPO  Em tempos imateriais o tempo mistura os tempos  (real e virtualidade) tempos sem tempo : materialidade irreconhecível  Recolher do tempo o além tempo armazenar e seguir um tempo novo a germinar deste tempo : cumprir-se (* poema do livro 'À janela dos dias', p. 11) -*-*-*- 2)  FELICIDADE Valerá, ainda rasgar-se adiar-se à espera? (* poema do livro 'À janela dos dias', p. 19) -*-*-*- 3)  SINA   Escrever para não perder o mote Cantar para ter direito à vida Trabalhar p

Quatro poemas de Ana Dos Santos | "Retorno ao Atlântico Negro"

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  Imagem de Harubaba por Pixabay. Quatro poemas de Ana Dos Santos RETORNO AO ATLÂNTICO NEGRO   Quero escrever uma carta para colocar numa garrafa e lançar ao mar. O mar do Atlântico negro... o mar que na sua ressaca traz à beira da praia os corpos dos imigrantes, refugiados, expatriados, que junto de suas crianças correram em busca de uma vida melhor e encontraram a morte... Ah, esqueci! Esqueci que essa era uma carta de amor para a humanidade. Mas quem pode exigir amor, quando tem criança morrendo de fome, ou em meio a uma guerra? Como posso falar em amor, quando famílias inteiras morrem afogadas nesse mar de sangue, numa diáspora forçada, que refaz a rota do descobrimento numa rota de desespero e de cobrança de tudo que nos arrancaram, terra, língua, saberes, cultura, espiritualidade. Como é necessária a reeducação do homem branco! Esse homem que vive de privilégios, desde sempre, montado nas costas dos negros e brincando de cavalinho com as

MulherArte Resenhas 16 | "Chão Batido", de Juçara Naccioli: vozes monumentais de ontem e de hoje - Por Marli Walker

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  Chão Batido , de Juçara Naccioli: vozes monumentais de ontem e de hoje - Por Marli Walker Chão Batido , de Juçara Naccioli, chega pela editora Cálida - SP, neste 2021, trazendo a linguagem de uma voz lírica ancestral (seria a avó?), atualizada por outra voz (seria a neta?), conduzindo o leitor por entre cantigas, alecrins, lavandas, rosários, orvalhos, rezas e patuás. Ao leitor desavisado, o estranhamento poderá ocorrer logo ao iniciar a leitura dos poemas, que vêm revestidos de “pretuguês”, grafados em linguagem que revela a diversidade cultural desde o chão até o teto, passando pelo quintal onde se colhem as ervas para proceder às rezas e benzeções. A poeta advertiu-me, quando lançou o livro, para que lesse os poemas seguindo a sequência, caso quisesse vivenciar uma experiência de leitura mais intensa. Foi o que fiz, que não sou boba nem nada. Quero sempre a experiência o mais potente possível quando o assunto é poesia, linguagem, literatura. A atmosfera densa vai se tornando, ao

Poema | Nunca Mais, por Jeane Tertuliano

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|Coluna 10| Entre quatro paredes, a solidão perene ecoa e o vazio destoa a voz que, chorosa, sufoca l e n t a m e n t e. Toda a gente padece um pouco maia a cada manhã dorida de verdades fingidas. Nada mais tem valor no vão ostensivo que reluz incolor. Empatia é sonora nos lábios sem amor de homens e mulheres. Eu sempre me questiono: o que eles pretendem falando do que não sentem? Mentiras há muito contadas desfilam encorpadas nas ruas, nos lares e nos corações frios. Apenas eu divago adoidado sobre os nossos temidos vazios?! Ignorar a escuridão à janela não apagará as sequelas. Nada mais será como antes! Deitada em minha gélida cama escuto o crocitar da ave medonha que sobrevoa o alto do meu ser...  "nunca mais" — eu a ouço dizer.

Seis poemas de Laila Zanov | "Sonhos loucos de uma mulher sã"

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  Imagem de Sarah Richter por Pixabay. Seis poemas de Laila Zanov Estup*ada   Em seu saco azul, antes de dormir, ela recordou sua infância: a ausência necessária da mãe, Agora, mais uma vez, uma mão adulta entre suas pernas, um pênis duro cheirando a mijo em sua boca, Movimentos curtos, para trás e para frente, mais e mais rápido. "Toma, sua p*tinha! Toma o leitinho do Titio!". Nunca fora um pesadelo, nunca fora um alento. Ela treme compulsivamente. "isso! Treme, sua cad*la miserável!". Ajoelhado diante de si, o desconhecido geme enquanto se masturba em seus lábios e massageia sua vagina ferida. Ela cerra os olhos imediatamente. Dói, dói muito. Sangue e pus escorrem em sua virilha. São os vestígios de suas mortes: - Toma, sua put*na! Mata tua fome, vagabunda! Tá gozando é, vadia desgraçada? Mais uma vez: dor, desespero, lágrima, saliva e   po**a. *   E-mail   Se você me odeia, faço-o aos berros. Nada de silêncios! Enfrente-me! Não se esconda! Perturbe a natureza, Pe