Um conto de Cristiane Macedo | "Quando você volta?"

 

Imagem de Steward Masweneng por Pixabay.

Um conto de Cristiane Macedo

Quando você volta?


Dos vinte e dois filhos nascidos de dona Maria Diolinda, quatorze vingaram. O mais novo era o Doca.
Não sei dizer seu nome de batismo, cresceu e viveu Doca e aqui será.
Doca era um rapaz lindo, mesmo já depois dos quarenta ainda era lindo, embora esse relato seja de um tempo bem antes.
Para dona Maria Diolinda, Doca era o bebê, por toda sua vida foi assim. Tinha regalias que os outros não tinham. O preferido.
De família abastada, Doca gostava dos luxos que podia ter e tinha. Em plenos anos 1950 vivia em ternos e chapéus muito bem alinhados. Difícil achar rapaz mais charmoso.
O pai era dono de botica e foi assim que, desde bem jovem, começou a namorar Maria Quitéria.
Sendo rapaz de beleza superlativa, não poderia ter decidido por melhor parceria. Pois que Maria Quitéria era a moça mais bonita daquela cidade do interior paulista.
Namoraram muitos anos, até que o pai da moça exigiu um compromisso mais efetivo. E, diante de tal exigência, os pais de Doca se sentiram na obrigação de exigir também. Já bastava o tempo.

O sogro, também boticário, e fazendeiro, mandou trazer o enxoval de São Paulo. Tudo de muito bom gosto e de qualidade impecável. O casal ganhou casa e móveis.
A casa ficou pronta para as bodas. Lindamente decorada, afinal os pais de ambos podiam lhes dar o melhor.
O casamento foi lindo, porque o bebê da dona Maria Diolinda não teria pouca fama.
Casaram com as bençãos da santa igreja. Beijaram quando o padre mandou. E nunca mais.
Na noite de núpcias, Maria Quitéria apanhou. Provavelmente nem soube o motivo, e dali para frente apanhou todos os dias.
Para apanhar de Doca, Quitéria não precisava fazer algo. Tampouco precisava não fazer, refazer ou desfazer. Bastava ser Maria. Ou seja, viver.
Viveram assim. Maria Quitéria foi levando, alguns talvez digam: em banho Maria. Não reclamava porque, quando se casa, todo o restante é viver. Coisas da vida, como diziam as mulheres mais velhas.
Quitéria Viveu assim, Maria.
Um dia Doca resolveu sair. Isso era corriqueiro. Saía com amigos para os colóquios masculinos, cartas, bebidas e afins. Antes deixou instruções precisas. Queria um leitão assado, dentro dos parâmetros curriculares da culinária internacional. Toalha de mesa de linho branco bordado esse e louça aquela. Tudo nos detalhes mínimos.
E assim foi feito.
Sabe-se lá quanto tempo depois de tudo feito, Doca sentou-se à mesa para comer e ao cortar o leitão ele sangrou.
Essa surra foi a pior de todas, por horas. E depois disso Maria Quitéria pensou uma vingança.

Preparou outro banquete. Outro leitão perfeitamente assado, dessa vez com uma maçã na boca. Fez farofa, arroz, todo acompanhamento que se preze.
Colocou a mesa com esmero, da toalha aos talheres.
Tudo disposto lindamente, preparou um copo com a mais cáustica bebida. Sentou-se à cabeceira da mesa de madeira de lei de seis lugares.
Doca chegou e encontrou Quitéria, Maria, vestida em seu vestido de noiva, sentada à cabeceira da mesa posta com esmero.
Não havia mais Maria. Bebera a soda cáustica. E foi só coisa da vida.


Imagem de S. Hermann e F. Richter por Pixabay.




Cristiane Macedo é mulher preta, mãe, irmã, esposa e filha (necessariamente nessa ordem). Geógrafa, professora de Geografia e Gestora ambiental. Especialista em Educação Especial na área de Altas Habilidades/Superdotação. Feminista por convicção, resistência (sem que exista outra opção) e sobrevivente. Porque não há minoria que não lute muitas lutas infinitamente enquanto dure. Escreve como colunista no GGN desde 2018, algo pelo qual sente imenso orgulho. É autora do romance Nossas vidas pretas (2021).


Comentários

  1. Se a Literatura acordasse de fato a vida das mulheres como ela é, mostraria as mazelas, as injustiças e opressões de um patriarcado cruel para com as mulheres. Independente tempo e espaço, de classe social, nível educacional ou cultura, o gênero do poder se impõem e subjuga por força, a mulher. Recentemente, nos organizadoras Leacide Moura e Amanda Barreiros, mãe e filha, recebemos da editora o livro Mulheres Livres Senhoras de Si, obra que relata a história viva de resistência superação e sucesso de mulheres de várias regiões do Brasil, sejam histórias real ou fictícias baseadas na realidade.

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