A POESIA DE DALILA TELES VERAS - por Nic Cardeal


(fotografia do arquivo pessoal da autora)

8M
Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
Dias mulheres virão, 
mulheres verão,
para crer, para valer!

Hoje é dia de mergulhar na intensa POESIA de DALILA TELES VERAS:

1) 

LIÇÕES DE TEMPO 

Em tempos imateriais
o tempo mistura os tempos 
(real e virtualidade)
tempos sem tempo
: materialidade irreconhecível 

Recolher do tempo o além tempo
armazenar e seguir
um tempo novo
a germinar deste tempo
: cumprir-se

(* poema do livro 'À janela dos dias', p. 11)

-*-*-*-

2) 

FELICIDADE

Valerá, ainda
rasgar-se
adiar-se
à espera?

(* poema do livro 'À janela dos dias', p. 19)

-*-*-*-

3) 

SINA 

Escrever
para não perder o mote
Cantar
para ter direito à vida
Trabalhar
para não perder o dote
Chorar
se, por fim, a utopia
vier a faltar

(* poema do livro 'À janela dos dias', p. 34)

-*-*-*-

(capa do livro 'À janela dos dias')

4) 

INQUIETUDE

Não fosse esta ânsia 
e eu diria que me basta
esta janela aberta sobre a vida
cercada de cor e água 

Não fosse o logro da sonhada travessia
e a ilusão da grandeza americana
agravada pelo vírus da ambição 
eu ainda acreditaria
nesta clara luz da manhã 
e neste azul atlântico"

(* poema do livro 'À janela dos dias', p. 83)

-*-*-*

5) 

Livros, livros
quem os lerá?
Quem os guardará?
Afago-os - última amante?
A paixão dá-me a certeza
Farenheit 451 só na tela
apenas sinistro aviso
sem o risco da fogueira

(* poema do livro 'À janela dos dias', p. 144)

-*-*-*-

6) 

POEMA PARA MARIELLE FRANCO

(rascunhado na noite de sua brutal execução)

certeiros, os projéteis 
                  da janela
                  da mira
                  do gatilho
atingem o alvo

calculadas, as balas 
                     na cabeça marcada
                     na mente visada
                     na ação inadequada 
cumprem a função de calar

não foi apenas o sangue
jorrado na execução 
não foi apenas a carne
(negra, para não fugir das estatísticas)
caça abatida no voo, ração 
provimento dos sem razão 

ali, naquele automóvel 
ensanguentado
e
incômodo 
foi abatida a utopia
        calada uma voz que era de muitos
        derrubado o pilar da esperança 
        executada a possibilidade de redenção 

[14.03.2018]

(* poema do livro 'Tempo em fúria', p. 11)

-*-*-*-


(capa do livro 'Tempo em fúria')
                           
7) 

PÓETICA/POLÍTICA 

(lembrando bandeira)

estou farta
da política dos que se dizem apolíticos 
estou farta da política dos revoltados sem política 
dos que fazem quatro refeições por dia
sonegam impostos
e sofrem da síndrome de perda de regalias

estou farta
dos hipócritas que conjugam o verbo acusatório
sempre na terceira pessoa
estou farta do preconceito de classes disfarçado 
em ódio partidário

abaixo o puritanismo descabido e cínico 
abaixo os amorais autoproclamados paladinos da moralidade
(o corrupto é o outro e a própria contravenção não vem ao caso)
abaixo o ardor patriótico e a paixão por um brasil de militares
abaixo os moralistas sem moral
abaixo os bandidos preferidos e preteridos
abaixo a republiqueta paralela dos pequenos
veneno conspiratório nos poderes constituídos
xô... xô... xô...
não quero saber de debate que não seja libertação 

(* poema do livro 'Tempo em fúria', p. 23)

-*-*-*-


(fotografia do arquivo pessoal da autora)


DALILA ISABEL AGRELA TELES VERAS, é natural do Funchal, Ilha da Madeira, Portugal, e vive no Brasil desde a infância. Reside há 49 anos em Santo André/SP, onde atua como escritora - poeta, cronista -, ativista cultural, livreira e editora. É proprietária da Livraria e Editora 'Alpharrabio'. Fundou o 'Grupo Livrespaço de Poesia', com intensa atividade cultural, entre 1982 a 1993, publicando livros, promovendo oficinas, recitais e semanas culturais. Em junho/1991 participou em Paris do 'Colóquio Imprensa de Língua Portuguesa no Mundo', como convidada da UNESCO, com a comunicação 'A Imprensa Alternativa no Brasil como resistência cultural'. Participou do Projeto 'O Escritor nas Bibliotecas', da Secretaria municipal de Cultura de São Paulo, entre 1993 e 1994. Foi diretora e secretária geral da 'União Brasileira de Escritores', durante três gestões, em 1986/88 e em 1990/92. De 1994 a 1996 foi secretária do conselho daquela entidade. Integra o coletivo literário feminista 'Mulherio das Letras.

Livros publicados: 'Lições  de tempo' (poesia, SP: Pannartz/1982); 'Inventário precoce' (poesia, SP: Pannartz/1983); 'Madeira: do vinho à saudade' (poesia, Funchal, Ilha da Madeira/PT: José António Gonçalves editor/1989); 'Elemento em fúria' (poesia, Teresina, PI: Academia Piauiense de Letras/1989); 'Forasteiros registros nordestinos' (poesia, plaquete, SP: Livrespaço/1991); 'Poética das circunstâncias' (poesia, plaquete, 1996); 'A palavraparte' (poesia, SP: Alpharrabio Edições/1996); 'A vida crônica' (crônicas, SP: Alpharrabio Edições/1999); 'As artes do ofício - um olhar sobre o ABC' (crônicas, SP: Alpharrabio Edições/2000); 'Minudências' (diário, SP: Alpharrabio Edições/2000); 'Diuturnos' (diário literário do ano 2000, SP: Alpharrabio Edições); 'À janela dos dias - poesia quase toda' (poesia, SP: Alpharrabio Edições/2002); 'Vestígios' (poesia, SP: Alpharrabio Edições/2003); 'Alpharrabio 12 anos - uma história em curso' (com Luzia Maninha Teles Veras, SP: Alpharrabio Edições/2004); 'Solilóquios' (poesia, SP: Alpharrabio Edições/2005); 'Poesia do intervalo' (poesia, SP: Alpharrabio Edições/2005); 'Pecados' (poesia, SP: Alpharrabio Edições/2006); 'Retratos falhados' (poesia, SP: Alpharrabio Edições/2008); 'Seduzir para a poesia - trajetória do Grupo Livrespaço 1983-1994' (organização e textos, SP: Alpharrabio Edições/2008); 'Estranhas formas de vida' (poesia, SP: Alpharrabio Edições/2013); 'Solidões da memória' (poesia, SP: Alpharrabio Edições/2015); '70 anos poemas leitores' (poesia, SP: Alpharrabio Edições); 'A mulher antiga' (poesia, SP: Alpharrabio Edições/2017); 'Tempo em fúria' (poesia,  SP: Alpharrabio Edições/2019); entre outros.











Comentários

  1. Parabéns Dalila Teles Veras! Gostei - tudo de muito! - mas tocou-me, para minha surpresa, do poema "Poética/Política", que mostra as contradições de militantes que nos levam a impasses como esse que vivemos em nossos dias. Poemas críticos e belos.

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