Seis poemas de Laila Zanov | "Sonhos loucos de uma mulher sã"

 

Imagem de Sarah Richter por Pixabay.

Seis poemas de Laila Zanov


Estup*ada
 
Em seu saco azul, antes de dormir, ela recordou sua infância: a ausência necessária da mãe,
Agora, mais uma vez, uma mão adulta entre suas pernas, um pênis duro cheirando a mijo em sua boca,
Movimentos curtos, para trás e para frente, mais e mais rápido.
"Toma, sua p*tinha! Toma o leitinho do Titio!".
Nunca fora um pesadelo, nunca fora um alento.
Ela treme compulsivamente.
"isso! Treme, sua cad*la miserável!".
Ajoelhado diante de si, o desconhecido geme enquanto se masturba em seus lábios e massageia sua vagina ferida.
Ela cerra os olhos imediatamente.
Dói, dói muito. Sangue e pus escorrem em sua virilha.
São os vestígios de suas mortes:
- Toma, sua put*na! Mata tua fome, vagabunda! Tá gozando é, vadia desgraçada?
Mais uma vez: dor, desespero, lágrima, saliva e  po**a.

*
 
E-mail
 
Se você me odeia, faço-o aos berros.
Nada de silêncios!
Enfrente-me!
Não se esconda!
Perturbe a natureza,
Perturbe a mim!
Não poupe excessos!
Sim! É isso... Tem de ser num rompante...
Pois a morte é voraz,
E seu ódio há de ser injusto e pleno.
Inspirado em Bilhete de Mário Quintana

*
 
Nem Deus Nem Diabo: Nada
 
Como definir a mentira com a verdade,
Quando seu reflexo no espelho se tornou um vulto sinistro?
Meu corpo está cheio de feridas, meus ossos estão quebrados, moídos pela covardia de seus vendilhões, facínoras e aduladores.
Perdi a conta de quantas vezes me enterraram viva
em covas profundas;
Das inúmeras vezes quando fui supliciada e renegada em florestas distantes.
Num passado fóssil frequentei templos, orei com meu rosto rente ao chão em sinal de respeito e humildade;
Elevei meus pensamentos o mais próximo possível do céu com a pretensão de beijar seus pés.
Mas não tardei a perceber suas fraudes: Não! suas promessas não seriam cumpridas!
Quando seus demônios apontaram suas armas para minha testa,
Não havia neles nenhum fragmento de amor e humanidade.
Vieram para celebrar meu autossacrifício e se depararam com um suicídio autoerótico permanente.
Por que dar tudo e não receber nada em troca, além do privilégio de servir o Senhor das exclusões?
Você não passa de um impostor: ora Deus, ora Diabo.
Indiferente a dor, às lágrimas, aos clamores dos desgraçados.
Dois em um.
Malditos sejam os exploradores dos que sangram seus joelhos em oração!
Não! Eu não preciso ser um arco-íris projetado numa noite de trovões.
Basta-me a neve preta, para que eu possa congelar na obscuridade, definitivamente.
Adeus mentirosos! Suas vidas cruéis não me atraem, não me comovem.
Vocês são estrelas extintas, projetadas pela luz solar.
Seus brilhos são estilhaços funestos de suas existências.
Como posso confiar em meus olhos?
Nesta noite, sublime em sua escuridão, deixarei as janelas abertas e farei minha conexão com a morte, a melhor dentre todas as soluções.


Imagem de Sarah Richter por Pixabay.


A morte do sol  
 
A terra se eleva em trevas.
O universo conspira e assassina o sol.
Bravo, idiotas humanos!
Claro que não foram os jumentos, nem as antas, nem as patas tontas, nem as vacas, nem as peruas, nem as cadelas.

*
 
Nós menstruamos
 
Estrelas sangram no céu de minha vagina,
O sangue líquido e em assustadores coágulos.
Estou febril, meu corpo dói.
Estou doente?
Deus nunca menstruou.
HOMENS?!
[...]
HOMENS?!
[...]
HOMENS?!
[...]
Cobras violentas me atacam, me ferem, cospem dentro de mim, quando não estou menstruada.
Veja, Senhor Ferreira Gullar um "poema sujo"
Veja, Senhor Graciliano Ramos, um poema-bijuteria.
São as memórias recentes de meu cárcere: elas exigem essas interrogações, essas exclamações, essas reticências.
Sinhá Vitória sangrou por muitos anos.
Ou não teria parido apenas o Menino Mais Velho e o Menino Mais Novo.
[...]
Ou teria brochado o vaqueiro Fabiano?

*
 
Sonhos loucos de uma mulher sã
 
Não tenho pesadelos, apenas reflito enquanto durmo.
Há dias sonhei com um psicopata que fingia ser anjo e estuprava uma virgem;
Um deus patriota e terrorista promovia o ódio e provocava o surgimento de doenças mentais graves em toda a população.
Éramos todos perseguidos por sermos pobres, doentes, velhos, deficientes, viciados em drogas lícitas, e ilícitas, mães solo, prostitutas, homossexuais, bissexuais, assexuais... ou, apenas pela cor de nossas peles.
Um palhaço dançava e vendia balas ungidas, comprei algumas, e, em suas embalagens coloridas estava escrito: Rest In Peace;
Um senhor de terno alinhado e sapatos lustrados abordava os passantes e ofertava poções do sêmen de Davi, ou do sêmen da perseverança e da sabedoria. O aplicador, um vibrador avantajado de borracha, a réplica do pênis do profeta-rei, era vendido por uma exorbitância. "Dinheiro vivo ou débito!".
Um padre fora interditado e seguia sereno numa camisa de força condenado a cumprir sua pena no manicômio judicial numa instituição situada muito distante, porém não revelada.
O motivo? Amava o seu próximo mais do que a si mesmo.
Era ele um sacerdote estranho aos costumes clericais: nunca sequer tentou molestar um de seus coroinhas. "Queria ser canonizado o traidor?".
Uma idosa se apaixonou por um jovem e seus filhos a abandonaram num depósito de velhos.
Paralelo a isso, um pastor idoso celebrava seu casamento com a filha de uma de suas ovelhas: méééé... méééé...
Essas reflexões noturnas sequer me causam insônia.
Quando o dia amanhece a minha noite se perpetua.


Imagem de Engin Akyurt por Pixabay.


Laila Zanov: natural de Penha, SC, é poeta, cronista, contista, roteirista; senhora de muitas fobias e de algumas ousadias. A loucura, o preconceito, a solidão, a morte, a noite são temas recorrentes em sua arte poética. Zanov escreve desde a adolescência, mas suas primeiras publicações datam de julho deste ano.


Comentários

  1. Poética voraz, versos que são sangram!

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    Respostas
    1. Poemas reais, riem, doem, choram, sangram., transcendem a loucura de uma mulher sã.

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  2. Obrigada á equipe. Está linda a publicação. Abraço.

    ResponderExcluir

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