A POESIA FASCINANTE DE ALICE RUIZ | PROJETO 8M



fotografia do arquivo pessoal da autora 

8M (*)

Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
"Dias mulheres virão", 
mulheres verão,
pra crer, pra valer!
(Nic Cardeal)

Saboreie a poesia sempre surpreendente da Mestra da Palavra ALICE RUIZ:


SE

se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra

eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto

ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio

daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse…

(* poema do livro Navalhanaliga)

imagem do Pinterest 

-*-

sem saudade de você 
sem saudade de mim
o passado passou enfim

(* haikai do livro Navalhanaliga)

-*-

Tem os que passam
e tudo se passa
com passos já passados

tem os que partem
da pedra ao vidro
deixam tudo partido

e tem, ainda bem,
os que deixam
a vaga impressão
de ter ficado

(* poema do livro Dois em um)


imagem do Pinterest 

-*-

que viagem
ficar aqui
parada

(* haikai do livro Dois em um)

-*-

A magia da folha em branco consiste em deixá-la aberta, à espreita,
sempre ao alcance dos olhos. Ela nos olha e chama.
Inflexível em seu chamado e maleável aos nossos achados.
Qualquer que seja. Uma ideia, um verso. Um sonho.
Tudo cabe nela. Nenhum limite nos coloca a não ser o seu branco imaculado.
Sem palavras esse branco nos seduz a preenchê-lo.

Falta que se desfaz em apelo. E, ainda, em silêncio, esse mesmo
branco, (vazio que se faz da soma de todas as cores/coisas)
nos desafia com sua beleza, sua plenitude indefesa,
sua incomensurável certeza, a encontrar uma palavra que seja igual ou,
ao menos, próxima da grandeza desse branco, abismo visto do
lado do avesso.
Técnica significado. Assim na arte, como na vida.
A forma exterior o interior, o invisível através do visível.
Poesia como um sorriso. Universal.
Palavra, ideia, pensamento, sonho.
Qualquer coisa capaz de sua luz.

(* poema do livro Proesias)


imagem do Pinterest 

-*-

DRUMUNDIANA

e agora maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria

(* paródia do poema 'José', de Carlos Drummond de Andrade, poema extraído do site antoniomiranda.com.br)

imagem do Pinterest 

-*-

NA ESQUINA DA CONSOLAÇÃO 

na esquina da consolação 
com a paulista
me perdi de vista
virei artista
equilibrista
meio mãe 
meio menina
meio meia-noite
meio inteira
inteiramente alheia
toda lua cheia

(* poema do livro Vice-versos)

fotografia: nic cardeal 

-*-

1)

árvore da felicidade
folha a mais folha a menos
vai vivendo

2)

jardim sem flor
entre as páginas do livro
a rosa e sua cor

3)

folha seca 
sobre o travesseiro
acorda borboleta 

4)

pensar letras
sentir palavras
a alma cheia de dedos

                              (para Itamar Assumpção)

5)

disse até a vista 
mas estava escrito
a longo prazo

6)

teu sol
me dis-sol-vendo
até minha raiz

7)

sêde a sede do meu ser
cesse a minha sede
de ceder

8)

dançamos em pensamento 
a dança dos anos
que nos devemos

( * 8 haikais do livro Desorientais)

-*-

fotografia do arquivo pessoal da autora


ALICE RUIZ é natural de Curitiba/PR, atualmente vive em São Paulo/SP. É poeta, haicaista, letrista e tradutora. Escreve desde muito jovem e, no início dos anos 70 começou também a escrever letras de música. Seu primeiro livro foi publicado em 1980 ('Navalhanaliga'). 

Participou do projeto Arte Postal, pela Arte Pau Brasil; da Poesia em Out-Door, Arte na Rua II, em São Paulo; da Exposição Transcriar – Poemas em Vídeo Texto, no III Encontro de Semiótoca; da Poesia em Out-Door, 100 anos da Av. Paulista; da XVII Bienal, Arte em Vídeo Texto; e integrou o júri de oito Encontros Nacionais de Haikai, em São Paulo.

Tem poemas traduzidos e publicados em antologias nos Estados Unidos, México, Argentina, Bélgica, Espanha e Irlanda. Ministra palestras e oficinas de haikai no Brasil desde 1990. A editora da UFPR publicou, na Série Paranaense, Alice Ruiz, biografia crítica que trata de sua obra.

Em 2005 lançou seu primeiro CD, Paralelas, em parceria com Alzira Espíndola, com participação especial dos cantores Zélia Duncan e Arnaldo Antunes. Tem mais de 50 músicas gravadas por diversos intérpretes, como Adriana Calcanhoto, Cássia Eller, Gal Costa e Ney Matogrosso.

Da TL do 'Instituto Memória Musical Brasileira - IMMuB': "Alice Ruiz S é uma das poetisas mais emblemáticas do século XX e teve diversos poemas transformados em música. Eles ganharam interpretações de grandes artistas da MPB, que tornaram suas letras ainda mais especiais! O poema "Quase nada" foi um sucesso na voz de Zeca Baleiro, e "Milágrimas" foi musicado por Itamar Assumpção. Sua carreira também é marcada por parcerias com Luiz Tatit, Alzira Espíndola e Arnaldo Antunes, com quem escreveu a canção "Socorro"."

Livros publicados, entre muitos outros: Navalhanaliga (Zap/1980 - Prêmio Melhor Obra Publicada no Paraná 1980); Paixão Xama Paixão (ed. da autora/1983); Pelos Pelos (Brasiliense/1984); Hai-Tropikai (com Paulo Leminski, Tipografia do Fundo de Ouro Preto/1985); Rimagens (P.A. Publicidade/1985); Nuvem Feliz (Criar/1986); Vice- versos (Brasiliense/1988 - 1° Lugar Categoria Poesia Prêmio Jabuti 1989); Desorientais (Iluminuras/1996); Hai-Kais (com Guilherme Mansur, Tipografia do Fundo de Ouro Preto/1998); Poesia pra tocar no rádio (Blocos/1999 - 1° lugar no Concurso Nacional Blocos 1999); Yuuka (AMEOPoema/2004); Salada de Frutas (Dulcinéia Catadora/2008); Conversa de Passarinho (com Maria Valéria Rezende, Iluminuras/2008); Dois em um (Iluminuras/2008 - vencedor do Prêmio Jabuti de Poesia 2009); Três Linhas (com Ná Ozzetti e Neco Prates, Dulcinéia Catadora/2009); Jardim de Haijin (Iluminuras/2010); Proesias (Tipografia Acaia/2010); Dois Haikais (Jujuba/2011); Estação dos Bichos (com Camila Jabur, Iluminuras/2011); Luminares (coleção Instante Estante, Castelinho Edições/2012); Jeito de bicho (Iluminuras/2014); Outro silêncio (Boa Companhia/2015); AmorHumorRumor (com Rodolfo Witzig Guttilla, Cia. das Letras/2020); Milágrimas (Caixote/2020).




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