De Prosa & Arte | Corpo Universo - Une Versos!

 

Coluna 9


Corpo Universo - Une Versos!


É chegado o tempo em que descubro a grandeza dormente no íntimo, no corpo que o espelho reflete. Então, constato e somo o que vivi.

Já tive um corpo jovem, magro, firme e desejado que não me deu metade do prazer que reside em meu corpo maduro, de seios um tanto flácidos, nas gordurinhas localizadas – agora localizadas por toda parte – nas olheiras insones, nas marcas de expressão.

Meu corpo abriga minhas vivências, meus amores, os dissabores. Meu Habitat.
É o invólucro da minha alma, é minha matéria de passagem, gosto dele assim, mesmo que outros desgostem, queiram opinar sobre ele, corrigi-lo ou colocá-lo num padrão que não é o que almejo.

Meu corpo gerador não pode gerar porque mais que a agregação biológica dos “gametas” é necessária compatibilidade áurica, sabe aquele afeto pós coito, que desprende energia e ondas elétricas de satisfação. Gerar exige também essa satisfação para além da eletricidade que percorre a pele. Gerar exige pulso, vibração.

Mas meu corpo foi capaz de acolher quem foi gerado num corpo-empréstimo também excluído do circuito de amor ágape, do amor Eros e do momento de satisfação cósmica. Sou grata a essa força geradora que se perdeu no desconhecido medo de não dar conta e que me entregou com pesar essa responsabilidade de dar caminhos aos seus rebentos sem nem mesmo saber quem eu sou e se era digna desse merecimento.

Meu corpo é um corpo “Mulher-mãe”. Visto na maioria das vezes só como “corpo-mãe”. Às vezes penso que gostaria de tê-lo outra vez mais jovem, mais firme, e desejado. Mas como apagar nele todo meu pranto, meus sorrisos, as gargalhadas largadas, os gritos de dor, os meus pesares por quem já foi, por quem está se indo ou a acolhida de quem chegou há pouco?

Meu corpo é uma corredeira de rio revolto.
Ora ye ye ô, Minha Mãe Oxum.

É correria lá e cá. É Insônia. É sono demais!
Meu corpo é música, é poesia, é vento.
É dia de tempestade. Eparrey Oyá, Sra. Iansã.

É dança. Como apagar a dança? Ela está impressa em tudo: nos calcanhares inflamados, nos calos das solas dos pés, nas unhas encravadas dos dedões, tá impresso no meu sorriso ao bailar!

Meu corpo é movimento, hoje bloqueado pelas amarras de um abusivo amor egóico. Que agora se desfaz. A dança há de retornar ao meu corpo fluido de água salgada, de pranto e de maresia sob as bênçãos de Yemanjá. Odoyá!

Meu corpo é esse. É isso que se vê ou muito do que escondo e aperto no meu jeans surrado! Meu recôndito. Meu veículo de unção para o trabalho do Astral.

Eu sempre olho no espelho e o que vejo nem sempre me agrada à primeira vista. Estico as rugas com os dedos, penso num sutiã com bojo, numa cinta abdominal dois números menores que uso (quanta opressão / quanto padrão). Na faca não entro mesmo, não quero performar um corpo molde para deleite de olhar macho. Não quero paralisar minha  expressão. Ser um rosto sem história, engessado, engomado em químicas invasivas e venenosas.

Daí aquela imagem que o espelho reflete lembra tudo o que vivi.

E o que ainda desejo experimentar.

É tempo de refazimento. É ciclo de morte e renascimento.
Meu corpo é o rejeito de quem não soube manejá-lo em sua intensidade e é o afeto de quem o toca com a delicadeza de tratar rosas rubras, de besuntar segredos líquidos entre minhas pétalas.

Meu corpo é oásis dos meus devaneios, é ponto de parada pra viajantes sem destino. É semeadura e colheita. Amo minha matéria bruta, minha casca grossa e os deságues das minhas folhagens suculentas.

Então, me aceito, me faço um elogio, me dou o lugar que mereço na minha própria construção de beleza singular.
Ademais, um corpo pequeno, esguio e esbelto, não abrigaria toda a boniteza de reflorescer!






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