A poética feminista e arrebatadora de Alice Ruiz

Imagem: pintura de Luciane Valença


Era uma vez
uma mulher que
via um futuro grandioso
para cada homem
que a tocava.
Um dia
ela se tocou.

..

Já estou daquele jeito
que não tem mais conserto
ou levo voce para cama
ou desperto.

..

Vê se me esquece
Já que você não aparece,
venho por meio desta
devolver teu faroeste,
o teu papel de seda,
a tua meia bege,
tome também teu book,
leve teu ultraleve
carteira de saúde,
tua receita de quibe,
de quiabo, de quibebe,
do diabo que te carregue,
te carregue, te carregue
teu truque sujo, teu hálito,
teu flerte, tua prancha de surf,
tua idéia sem verve,
que nada disso me serve
Já que você não merece,
devolva minhas preces,
meu canto, meu amor,
meu tempo, por favor,
e minha alegria que,
naquele dia,
só te emprestei por uns dias
e é tudo que lhe pertence

PS: Já que você foi embora por que não desaparece?"

..

Já que você não merece
devolva minhas preces,
meu canto, meu amor,
meu tempo, por favor,
e minha alegria que,
naquele dia,
só te emprestei
por uns dias.

..

minha voz
não chega aos teus ouvidos
meu silêncio
não toca teus sentidos
sinto muito
mas isso é tudo que sinto

..

tua mão
no meu seio
sim não
não sim
não é assim
que se mede
um coração.




Biografia da poeta Alice Ruiz
por Dilva Frazão

Alice Ruiz (1946) é uma poeta e compositora brasileira. Com mais de 20 livros publicados, tem seus poemas traduzidos para diversos países.

Alice Ruiz Scherone nasceu em Curitiba, Paraná, no dia 22 de janeiro de 1946. Seu interesse pela literatura começou muito cedo. Com apenas 9 anos passou a escrever contos.

Com 16 anos, Alice já se dedicava ao verso. Dez anos depois, publicou em revistas culturais e em jornais os seus primeiros poemas.

Em 1968, Alice Ruiz se casou com o poeta Paulo Leminski (1944-1989), com quem teve três filhos. Foi ele quem descobriu que Alice escrevia “haicais” (forma poética de origem japonesa), o que levou a autora pesquisar e estudar essa forma de fazer poesia.

No início dos anos 70, Paulo Leminski participava das composições do grupo de rock curitibano, “A Chave”. Foi nessa época, que Alice escreveu sua primeira letra de música, em parceria com o marido. Durante esse período, escreveu textos feministas que foram editados em algumas revistas.

Em 1980, Alice publicou seu primeiro livro, “Navalhanaliga”. Em seguida publicou: “Paixão Xama Paixão” (1983), “Pelos, Pelos” (1984), “Hai-Tropikai” (1985), “Rimagens” (1985), “Nuvem Feliz” (1986) e “Vice-Versos” (1988).

Alice Ruiz já participou do projeto Arte Postal, pela Arte Pau Brasil, da Poesia em Out-Door, Arte na Rua II, em São Paulo, em 1984, da Exposição Transcriar – Poemas em Vídeo Texto, no III Encontro de Semiótoca.

Em 1985, participou em São Paulo, da Poesia em Out-Door, 100 anos da Av. Paulista, em 1991, participou da XVII Bienal, Arte em Vídeo Texto e integrou o júri de oito Encontros Nacionais de Haikai, em São Paulo.

Em 2005, lançou seu primeiro CD, “Paralelas”, em parceria com Alzira Espíndola, com participação especial dos cantores Zélia Duncan e Arnaldo Antunes.

A autora tem mais de 50 músicas gravadas por diversos interpretes, entre eles: Adriana Calcanhoto, Cássia Eller, Gal Costa e Ney Matogrosso.

Com mais de vinte livros publicados, Alice tem poemas traduzidos e publicados em antologias nos Estados Unidos, México, Argentina, Bélgica, Espanha e Irlanda.

Alice já ganhou vários prêmios, entre eles: o Jabuti de Poesia, de 1989, pelo livro “Vice-Versos” e o Jabuti da Poesia, de 2009, pelo livro “Dois em Um”.


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