De vez em quando um conto - Lia Sena



Três

As tímidas mãos branquinhas, preparavam vigorosamente as cocadas que à tarde, seriam vendidas no passeio da sua casa. Decerto causava espanto em algumas pessoas, era a esposa de um rico fazendeiro; mal sabiam que aquela era a única maneira de ter um pouquinho de autonomia, já que todo o dinheiro da família, era controlado e gerido pela outra.

O filho caçula contou-me certo dia, essa história em detalhes; fiquei surpresa, não pela história que já intuía, depois de ouvir alguns pedaços, segredados pelos cantos, surpreendeu-me, a confidência dele; um homem de noventa anos, falando livremente, de forma tocante e dolorida, sobre a sua mãe; sobre a história de seus pais. Afirmou com toda segurança e forte carga de tristeza, que a mãe era uma pessoa muito doce, amorosa com todos, delicada e certamente, morrera de tristeza.

Foi a primeira a morrer, embora fosse a mais nova, das pessoas que compunham tal enredo.

O pai, Alfredo, casou-se com Isadora e nela fez os filhos, que foram dezoito, mas todo o pessoal de casa e da cidade, sabia que ele não a amava. A outra, Manu, veio morar com eles, desde o princípio do casamento, a pretexto de ajudá-la com os filhos e a casa, apesar das serviçais que faziam a maior parte dos trabalhos. Manu controlava tudo; determinava o que comprar, o que vender, o que fazer para o almoço e jantar, os castigos impostos aos filhos. Todas as pessoas sabiam que Alfredo amava Manu e por imposição da família, por motivos que nunca foram explicados, casou-se com Isadora.

Isadora nutria-se do amor maternal; dava carinho aos filhos e apesar da época, não se acomodou ao papel de bibelô que fazia naquela casa; decidiu fazer as cocadas e vender; tinha o respeito e admiração das pessoas das redondezas e com o dinheirinho das vendas, podia fazer um mimo aos filhos ou mesmo, se presentear com um vestido, um sapato, sem precisar que a outra a autorizasse, mas em seus olhos, filhas e filhos percebiam, a tristeza e humilhação que a vida lhe impunha.

É provável que nunca tenha amado aquele homem também; é muito provável que também a ela, o casamento tenha sido imposto. É quase certo que nunca sentiu prazer ao deitar-se com aquele homem que a tratava com indiferença e deixava transparecer o amor e devoção à outra. É bem provável, mas aquela vida de coadjuvante, dentro da própria casa, na educação dos filhos e na atenção do marido, fizeram-na definhar e morrer cedo. Nunca soube a idade que ela partiu; não me contaram.

Manu cresceu em autoridade e arrogância; finalmente eram só ela e Alfredo agora. Não se sabe se foram felizes, após a morte de Isadora. Ninguém ousava tocar no assunto. Os filhos o amavam, mas tinham verdadeiro temor por aquele pai; jamais o questionariam.

Alfredo morreu muito tempo depois e Manu foi uma verdadeira advogada fazendo o inventário. Geriu os bens e determinou pra qual filho ou filha, ficaria tal bem. Claro que tinha os prediletos; aqueles que a acolhiam melhor e a paparicavam, amealharam boa parte do gado e propriedades. O caçula, sensível e sofrido pela via crucis da mãe, declarou que ficaria apenas com um relógio cuco que ficava na parede da sala na fazenda e algumas fotos da família.

O que mais doía em Isadora e a fez morrer mais cedo? Perder o amor de Manu, sua irmã mais velha.

Lia Sena



Lia Sena é baiana, poeta, de vez em quando arrisca-se em pequenos contos, crônicas e pretende escrever um romance. Publicou quatro livros de poesia, sendo o mais recente, De foro íntimo (Penalux/2018) e aguarda o quinto livro, vencedor do III Prêmio Sosígenes Costa de Poesia, quase pronto, que sairá pela Editus . Publicou em diversas Antologias e revistas eletrônicas.

Comentários


  1. Que bem contado, esse conto.

    Tão boa esta baiana no fazer seus de regra tocantemente bonitos versos onde com gosto leio tanta alma, inspiração e mais como no compor um conto como este como ela mesma diz, vez em quando.
    Meu degustar de leitor experimenta ante cada um de seus contos recém lidos a mesma satisfação que seus poemas e só iguarias finas podem e sabem proporcionar, ao mesmo tempo que aquela invariável e em nada contraditória sensação de quero mais.

    É assim que leio-a, Lia, de há nem sei mais quanto tempo.

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    1. João, sempre gentil e delicado em relação à minha escrita! Fico feliz e espero continuar correspondendo ao seu refinado gosto literário. Muito obrigada. Abraços!

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  2. Uau!! Surpreendente. Delicado. Adorei! Escreve mais...

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    1. Obrigada, Sílvia; muito bom ter o seu aval! Beijos.

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