Um conto de Jualine Xabb | "O pássaro e o peixe"

 

Helena Meier. Fonte: pixabay.com


Um conto de Jualine Xabb

O pássaro e o peixe


O rio estava do mesmo jeito. O mato, às margens, era o mesmo. Os peixes também.

Naquele dia tão comum, Marad pôs a cabeça para fora d`água. Ela, um jovem peixe acinzentado, gostava de olhar para além da superfície. O céu azul, como chamava sua atenção... O Sol, as nuvens de mil formas. As estrelas, então, nem se fala. E a Lua, senhora absoluta da noite... Se bem que não podia demorar muito com a cabeça do lado de fora; meio minuto e já afundava para respirar o oxigênio do seu ambiente, e outra vez subia à superfície para curtir as belezas lá de cima. Era tudo tão bonito que valia a pena prender a respiração. Os outros peixes, é claro, achavam aquilo um absurdo; estava na cara que Marad não tinha mais o que fazer, além de correr o risco de acabar numa rede com a maior facilidade. Aí, sim, quando estivesse fritinha numa panela, ela ia se dar conta de sua imprudência.

Ela não ouvia o que diziam. Seria melhor não ouvir, porque quando ouvia, seu coração se entristecia. E mais uma vez, pôs a cabeça para fora d`água.

Foi então que ela viu. Ele vinha voando, e pousou próximo à margem.

Um ser daquela espécie ela já tinha visto por ali inúmeras vezes. Mas aquele, em especial, tomou completamente sua atenção.

Era o pássaro mais lindo que já vira. Sua plumagem dourada parecia reluzir ao Sol. Seus olhos, muito verdes, assemelhavam-se a duas esmeraldas. E quando seu bico se abriu, soou a mais bela canção do Universo. A mais pura melodia, em perfeita harmonia, que até a Mãe Natureza parou para escutar.

Marad quedou-se, extasiada. Tanto, que esquecera até de descer para respirar. O pássaro continuava cantando.

Em seu coração, Marad desejou que aquela hora não passasse, que aquele dia jamais terminasse. Já sentia falta de oxigênio, mas não podia perder nenhum pedaço daquele espetáculo. Não, era preciso aguentar firme.

De repente, chegaram outros pássaros; talvez fossem amigos dele. Meio minuto depois, todos voaram para longe.

Marad afundou.

“Meu Deus, o que era aquilo?!”, a imagem do belo pássaro não lhe saía da cabeça. Ele não a vira, mas ela jamais o esqueceria. Será que o veria outra vez?

No dia seguinte, pôs a cabeça para fora novamente. Sabia que seria difícil, mas, quem sabe, ele poderia aparecer por ali de novo. Era melhor ter esperança do que deixar passar uma oportunidade.

Avistou alguns pássaros voando pelo céu. Seu coração palpitou. Talvez, ele estivesse entre eles.

Eles estavam no alto; ela, embaixo, na água. Estava muito longe. E, além disso, veio a falta de oxigênio. “Essa não...” Teve de mergulhar. Respirou rapidamente e voltou. E quase desmaiou.

Os pássaros agora vinham para a margem do rio. Pareciam bem animados. E Marad reconheceu entre eles o pássaro de olhos verdes. Subitamente, veio-lhe uma vontade de fugir, mas ela ficou onde estava, com as nadadeiras bambas.

De repente, seus olhos se encontraram. O coração dela quase pulou pela boca e o oxigênio rareou em seus pulmões. Precisava mergulhar mais uma vez. Mas não foi. Ele, porém, desviou-lhe o olhar. Sabia que havia muitos peixes naquele rio; portanto, não ficara surpreso ao ver um deles com a cabeça do lado de fora.

Marad estava quase tonta. Os pássaros foram embora e ela mergulhou. Era bom poder respirar, mas era triste ver aquela bela criatura afastar-se. Será que voltaria mais uma vez?

E ele voltou. No dia seguinte. E no outro. E no outro.

Ele nada dizia a ela. Mas não precisava. Sua presença bastava.

Foi-se passando o tempo. Marad já não se importava com a falta de oxigênio. Olhar naqueles olhos verdes era tudo. Ouvir aquela doce melodia era tudo. O fundo do rio ficara até mais bonito depois que conhecera aquele pássaro. E à noite, parecia que as estrelas brilhavam só para ela e para o pássaro, onde quer que ele estivesse naquele momento.

Só que tinha um detalhe: era final de outono e, em breve, os pássaros migrariam para outras terras. Mas Marad não sabia disso. Como ela poderia saber? Um peixe pode até se apaixonar por um pássaro, mas onde os dois construirão seu ninho?

Até que um dia, o pássaro de olhos verdes não veio. Mas ela esperou, pacientemente.

E no dia seguinte, como no dia anterior, ele não veio. Nem no outro. Nem no outro

O coração de Marad estava apertado. Olhou a paisagem diante de si. Fria, desértica. O Sol não brilhava, apenas nuvens frias cobriam o céu. Não havia pássaros. As folhas das árvores caíram. As flores murcharam. Mas ela continuava subindo à superfície.

E foi numa dessas que, sem se dar conta, foi pega por um grande pássaro preto. Um corvo, talvez. Ele veio planando e, de repente, Marad viu-se fora d`água, nos ares. Fora tudo muito rápido. Não demorou muito e, ainda nas alturas, surgiu outro pássaro preto que, vendo um peixinho tão apetitoso, engalfinhou-se com o que o transportava, pela sua posse. Na confusão da briga, o pássaro que a pegara a deixou cair.

Ela caiu sobre um rochedo, no meio do mato. A qualquer instante, poderia ser devorada por algum animal que passasse por ali.

Os minutos iam se passando. Ela não tinha dúvidas sobre como aquilo iria terminar. Já começava a sentir os efeitos da falta de oxigênio. Diante de situação tão desoladora, tudo o que pôde fazer, recorrendo aos últimos resquícios de oxigênio em seu cérebro, foi pensar no pássaro dourado de olhos verdes como esmeraldas. Aquela, sim, seria a lembrança que iria querer levar consigo, para onde tivesse que ir.

As lágrimas rolavam de seus olhos escuros, indo molhar o rochedo, mas ela não tinha mais medo. Tudo o que desejou foi que o pássaro de olhos verdes fosse muito feliz.

Ouviu umas vozes ao longe, enquanto a consciência a deixava.

- Pai, olha só o peixinho que eu achei!

- Humm... esse não serve mais para comer. Mas já sei o que podemos fazer com ele.

 

****

 

A primavera voltou. E junto com ela, todos os pássaros.

No centro da cidade, as ruas fervilhavam com o movimento dos carros e das pessoas, a ir e vir.

As lojas, sempre coloridas, chamavam a atenção dos passarinhos. Ives, o pássaro dourado de olhos verdes, parara em frente a uma vitrine. Era uma loja de animais empalhados.

Então, ele viu. Um peixinho. Cinzento. Olhos escuros, com um certo brilho, como se quisessem dizer-lhe algo.

Sem entender por quê, o coração de Ives bateu forte. Aquela criaturinha, agora sem vida, parecia-lhe familiar. Mesmo empalhada, inanimada, seu semblante era impressionante.

“O peixe do rio!”, foi um estalo em sua memória. Ali estava o peixe, que todos os dias, enfrentava a falta de oxigênio para vê-lo e ouvi-lo cantar. “Empalharam você...”, isso explicava sua ausência da superfície do rio, desde que os pássaros retornaram.

A porta da loja estava encostada. Ives entrou. Um funcionário estava sentado em frente ao computador e parecia completamente envolvido em sua atividade.

Chegou mais perto do peixinho cinzento. Ficou um tempo a contemplar-lhe o olhar sem vida, mas, ao mesmo tempo, cheio de graça e dignidade. Por um momento, teve vontade de levá-la embora dali e de construir para ela um ninho cheio de água e muito amor. Quem sabe isso a trouxesse de volta à vida...

Abriu o bico, e tudo o que pôde fazer naquele instante foi cantar para ela. Tinha esperança de que ela, de algum modo, pudesse ouvi-lo.

O homem sentado em frente ao computador nem percebeu. Estava com uns fones de ouvido, curtindo outro tipo de música.

 

****

 

Vinte anos se passaram. Muita coisa estava diferente, menos o trivial movimento de uma grande cidade.

Isabel acabara de sair da livraria. Vinha meio sem jeito, com um monte de livros nos braços, quando esbarrou em alguém. Os livros caíram.

 - Oh, desculpe! Que falta de atenção a minha... – ela começou.

- Não, imagine... Eu é que não vi você.

Ela abaixou-se para recolher os livros; ele também.

Os olhos escuros dela encontraram os olhos verdes dele.

Levantaram-se.

- Obrigada por me ajudar...

- Disponha – ele sorriu, e estendeu-lhe a mão – Meu nome é Nathan. E o seu?

- Isabel.

- Isabel... Lindo nome. Então, Isabel... gosta de livrarias?

- Sim. Na verdade... trabalho nessa.

- Humm... que bom. Pode me indicar alguns livros? Adoro ler...

- Hã... claro. Só que, agora, eu estava indo almoçar...

- É mesmo? Que coincidência... eu também. Podemos almoçar juntos, se você quiser... Sabe... acho que já te vi por aí...

 

 

Helena Meier. Fonte: pixabay.com



Jualine Xabb é Licenciada em Pedagogia, com Especialização Lato Sensu em Filosofia Contemporânea, pela UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – Jequié). É professora de língua portuguesa e inglesa e escreve poemas e contos.

 

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