O eclipse – Marilia Kubota


MOSAICO Coluna 20    Conto
O eclipse
por Marília Kubota

Não gostei quando ela marcou no Parque Alvorada. Quem marca um encontro num parque de diversões fechado ? As famílias curitibanas se divertiam no Passeio, aproveitando o domingo de sol. Ela sugeriu: por que não vamos lá curtir o eclipse? Este parque não está fechado pra reformas ?, perguntei. Está, está. Mas todo mundo entra, pra zoar. Fui, com dois pés atrás.
Ao entrar pelo portal, lembrei de uma notícia sobre o acidente de uma criança no chapéu voador. Eis porque havia sido fechado. Esbarrei, na entrada, com o vendedor de cachorro-quente. Era dia de faturar. Entraram um anão com gêmeas xipófagas, um magricela engolindo espadas, um bigodudo chicoteando um leão, uma mulher gorila. Não sei de onde vinha tanta gente.
Quando a vi, entrei em choque. Diante dela, o sol se esconderia detrás da lua além dos sete minutos previstos para o eclipse. Perguntei, por que não mostra toda esta formosura nas fotos ? Ela ficou constrangida: vai me ver com outros olhos ou com os olhos dos outros ? Não saquei. Em vez de me responder com leveza, disse que gostaria de tirar uma foto em frente ao trem-fantasma. Tinha lembranças de passeios que fez, em criança.
O eclipse vai começar, já já. Vamos logo, eu disse. Ela fez algumas poses e pediu para eu tirar as fotos. A lua começou a esconder o sol. Ouvíamos os gritinhos da multidão, excitada. Eu disse, vamos voltar, estamos perdendo o eclipse. Ela disse: acho que temos uns minutos. Vamos entrar no trem ? Será que os fantasmas e os esqueletos ainda estão lá dentro ? Eu disse: o trem está desligado. Ela me puxou pela mão, até o túnel, e entramos. Sentamos no trem, no escuro. Ouvíamos mais gritinhos .Imaginava que a lua devorava o sol.
No escuro cálido do túnel, ela estava quieta, eu, inquieto. Ouvíamos os cliques e a confraternização coletiva dos que se sentem irmanados pelos mistérios da natureza. Escurecia cada vez mais e eu disse: vamos embora. Tentei pegar a sua mão. Ao tocá-la, senti um pêlo áspero. Escorreguei os dedos em algo que parecia um focinho. Meu coração acelerou, saí correndo sem pensar em nada. O sol já estava todo encoberto, a multidão urrava. Fui me recuperando, intrometido no meio do povo para disfarçar o tremor. Enquanto a turba se acalmava, o sol reaparecia lentamente. Na penumbra, a capivara saía do trem. Olhei, mais adiante, para o cercado em que uma família de capivaras, tranquila, apascentava. Alguém ao meu lado disse: aqui, é o raro a gente conseguir ver um eclipse. Sentindo um leve tremor nas pernas, consegui me controlar. Animado, comecei a conversar com o desconhecido, evitando pensar sobre o que havia acontecido com a garota dentro do túnel. Com o rabo do olho, consegui ver a capivara entrando no cercado por um buraco através da tela aramada.

(Conto criado na Oficina Ficção Especulativa, orientada por Kali de los Santos, no I Encontro Nacional Virtual do Mulherio das Letras)

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