A Poesia Contundente de Jovina Souza




           

MEU BATISMO


Quando eu nasci Iansã me abraçou
e disse: - vem negra mulher
pegar os verbos da tua vida.

Escolhi lutar pra vencer
amar só pra gozar,
desobedecer pra existir.

Aceitei repartir e continuar,
ela disse ok com o polegar,
eu segui.




O AMOR NO MUNDO

O amor é lâmina na letra,
palavra do verbo dilacerar
é limite e silêncio.
Nada há além da sua rasura
que se abre perene, úmida
anômala
desenhando sua semântica.
E sua lira é forjada nos versos
de uma esperança que não é suave
nem lúcida.





BIOGRAFIA DO MEU CABELO


Meu cabelo é duro, levantado.
Meu cabelo é duro, empinado.
não molha com pouca água,
não fica domesticado.
Quando parece macio
insurge-se,
espetando pra todo lado,
e, aos relatos brasileiros,
acrescenta outros dados.

Veio na cabeça de reis, rainhas
e de toda gente preta sabida,
honrada.
Trouxe cantos, ciência e filosofias
tirou riquezas dos rios, da terra
e dos mares.

Aquilombou-se ara ensinar ao Brasil
o valor da liberdade
É cabelo de negro,
vem de tempos imemoráveis,
morou na cabeça de Zumbi
Viveu na bravura de Dandara
Cada fio era uma espada

no quilombo de Palmares.
Aprenda, sinhá chapinha,
Meu cabelo é duro, é duro...
é duro, é duro, é valente
Não é de ficar calado.
Não é de ficar preso.
Tampouco amaciado.


AS MORTES BRASILEIRAS

A morte que mata a justiça é a primeira.
A morte aqui tem tarefas específicas.

Tem morte que mata a alma,os sonhos,
a identidade, as oportunidades e os saberes.
Tem morte só pra matar a voz, a esperança,
a família, a memória, a escrita e o cabelo.
Tem aquela outra que vem com a polícia,
acobertada pela polícia brasileira.

As mortes no Brasil vestem-se de branco
e caçam sem trégua nossa pele preta.

Desenhos que ilustram os poemas por WP 
@patrickdesenhoetatoo




Jovina Souza é mulher baiana, nascida em Feira de Santana, residente em Salvador. Graduada em Letras Vernáculas pela Ufba, especializou-se em Estudos Literários e fez Mestrado em Teoria e Crítica da Literatura e da Cultura. Intelectual de voz delicada e falas contundentes, possui longa trajetória como criadora e professora de projetos identitários, destinados a elevar a auto estima de negras e negros de todas as idades,formação de intelectuais negros e à preparação de professores. Participou de várias Antologias, inclusive, Outras Carolinas, Mulherio da Bahia, publica nos Cadernos Negros e em 2012, lançou o seu primeiro livro, Agdá ; em 2018, O Caminho das Estações, ambos ´pela editora Mondrongo. Em 2019, lançou o seu terceiro livro, O amor não está, pela Editora Òminira. A poeta tem sido convidada para todas as importantes Feiras Literárias do o país, como Flipelô, Flica, Fligê e seu trabalho poético tem sido estudado em universidades brasileiras e americanas.

Comentários

  1. Uma bela mistura de lirismo e contundência. Poeta das grandes!
    Obrigada, Lia, por trazê-la.

    ResponderExcluir
  2. Valeu, Lou! É uma poesia de luta e que deve ser vista. Obrigada!

    ResponderExcluir
  3. Jovina sousa é uma poeta proesa. Sem à presença desta grande.. à literatura pssaria incólume! Parabéns! avante! Abração Grandão!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

PUBLICAÇÕES MAIS VISITADAS DA SEMANA

A terapia da palavra em quatro poemas da jovem escritora Maria Luiza Brasil

PodPapo 07 | Entrevista com a cantora e multiartista Lica Cecato

A beleza no humanismo e na denúncia da poesia de Edir Pina de Barros

PodPapo 09 - entrevista com a escritora, editora e coordenadora do Focus Brasil NY Nereide Santa Rosa

Um conto de Marithê Azevedo | "Céu Escuro"

Para não dizer que não falei dos cravos | Poemas e videopoemas de Rogério Bernardes

Três poemas de Dayane Soares | Uma poética do tempo e da ancestralidade

Um miniconto de Silviane Ramos | "De que cor ficou?"

Divina Leitura | As multiplicidades de "Santuário" de Maya Falks

Quatro poemas de Helenice Faria | Uma poética da resistência