Um Conto de Rosângela Vieira Rocha


Fotografia por Marcelo Sena

Pupilas ovais


Domingo é o único dia da semana em que não abre livros. Há dois anos vem estudando num ritmo alucinado, para concluir sua tese de doutorado em Biologia. A bolsa de estudos lhe garante o sustento, desde que viva de maneira frugal. Mora num apartamento de dois quartos, com quatro colegas, quase em frente à faculdade. Espera defender sua tese em alguns meses. Prepara-se para ser professor de uma grande universidade, pois está farto da vida de bolsista, que o obriga a contar moedas até para comprar os livros indispensáveis.
Está sozinho nesse domingo. Seus companheiros, cujas famílias residem em cidades próximas, viajaram no sábado, o que fazem com frequência, deixando-o às voltas com sua pesquisa sobre lagartos do cerrado. Desde criança, antes de pensar em ser biólogo, é apaixonado por répteis. Aos oito anos o pai lhe deu uma enciclopédia sobre animais. Data daí sua paixão por cobras e lagartos: passou a ler tudo que encontrava sobre o assunto, a reparar nos detalhes de seus couros, observando tons e texturas.
Prepara um almoço leve, composto de sanduíche de ovo frito com tomate, suco de laranja e marmelada. É dia vinte e o dinheiro da bolsa evaporou-se, com o pagamento do aluguel e da comida. Dinheiro, de novo, só no início do próximo mês. Tem uma vaga vontade de assistir a um filme, mas não pode pagar a entrada e tampouco a condução. Não sabe direito como utilizar o tempo livre. Sempre lhe acontece o mesmo, passa a semana sonhando com o domingo e, quando este chega, fica meio perdido diante de tantas possibilidades de lazer. Olha pela janela, esperando por uma iluminação, mínima que seja, capaz de salvar-lhe o dia. E então, vê o imponente prédio do Instituto Butantã, com sua bela área verde.
Caminha até a colina, decidido a dar um passeio pelas redondezas. Anda desolado com a brancura de sua pele, antes bronzeada pelo sol do litoral. Quem sabe não se queima um pouco, no passeio? Há flores pelo caminho, nos bem cuidados canteiros. Tem interesse científico por elas, pensou em elegê-las como objeto de estudo, no tempo que os lagartos ainda não ocupavam toda a sua mente. As flores, desde o nascimento, ou melhor, desde o registro, quando lhe deram o nome de Lírio. Acha bonito, embora, por causa dele, tenha sido alvo de brincadeiras de colegas de escola. Violeta, a mãe, quis lhe dar um nome de flor. Mas Lírio não seria por demais virginal, para um homem? Seja como for, sabe que não escapará desse convívio até o fim: será sempre Lírio, e ponto.
Habituado a um cotidiano de contenção, forra o chão com o casaco de couro, para não sujar a calça branca, lavada por ele. Senta-se estufando o peito, para sorver o ar puro. É primavera, mas ainda venta um pouco frio. Há cobras em vários pontos das árvores, em suas jaulas de vidro. Só depois repara no grande fosso, de uns quatro metros de altura, onde se reproduz, de certa maneira, o habitat das mais venenosas. Trata-se, sem dúvida, de uma legítima representante dos viperídeos, uma bothrops jararaca, conhecida como jararacuçu. Possui uns dois metros de comprimento, talvez um pouco mais. Rodeada por pedras de tamanho médio, toda enrolada, parece relaxada, ao sol.
Olha-a durante alguns minutos, ambos imóveis, ela no fundo do fosso. Percebe a chegada de alguns casais com crianças. As pessoas das redondezas, como ele, não possuem muito dinheiro e, aos domingos, passear em meio às cobras é considerado um programa. A menina que acaba de chegar está entusiasmada com a jararacuçu, mas diz ao pai que tem medo de cair no buraco, que, coberto por uma rede forte, não oferece perigo nenhum. Mas convencer uma menina de quatro anos é algo quase impossível e, cansado de argumentar, o pai se afasta, à procura de um pipoqueiro.
Algo naquela menina o faz lembrar-se de uma outra, imaginária, que não chegou a nascer. A criança que Morgana queria ter, ou dizia que queria, quando ainda estavam juntos, talvez se parecesse com aquela, se herdasse os enrolados e escuros cabelos da moça. Prometera a si mesmo não pensar mais em Morgana, que o deixara há dois anos, para casar-se com Vinícius. Nunca mais tivera notícias deles, a não ser através de um comentário de Violeta, que o encontrou uma vez numa agência do Banco do Brasil, quase careca.
A jararacuçu continua imóvel e sequer olha para os ratos que lhe foram oferecidos. Entre as pedras que simulam grutas há um fio d’água, imitando uma pequena cascata. Dois sapos de tamanho médio pulam entre as pedras, quase tão escuros como os ratos, contrastando com o tom verde-oliva do réptil. Agora o sol da tarde bate diretamente no corpo da cobra, realçando as linhas oblíquas do seu desenho original.
Detesta lembrar-se de Morgana, até porque o apurado senso estético fica buzinando o tempo todo nos seus ouvidos que a lacrimejante história é ridícula, de folhetim barato. Vinícius tinha sido o seu melhor amigo, desde os quatro anos de idade e, mesmo quando fora estudar Jornalismo, não deixaram de sair juntos. Nada parecia poder separá-los, antes do aparecimento de Morgana. No início do namoro, o amigo lhe dera as piores informações possíveis sobre o caráter da namorada, notícias de segunda mão, o que não as legitimava, a seu ver. Uma tia de Vinícius trabalhava no ramo da moda e conhecia quase todas as modelos da cidade. Comentava-se, segundo a tia, que ela era interesseira, inescrupulosa e ambiciosa. Atribuiu essas opiniões negativas ao preconceito contra as modelos. Só podia ser inveja, por ela ser uma das melhores e mais requisitadas da região, além de possuir uma beleza excepcional. Seus imensos olhos verdes valeram-lhe várias campanhas publicitárias de óticas e clínicas oftalmológicas, que protagonizara, com grande êxito.
Vira-a, pela primeira vez, num desfile de modas, ao qual comparecera para satisfazer Violeta, que andava muito triste depois da morte do marido. Recorda-se claramente daquela noite: relutara em acompanhar a mãe, pois na manhã seguinte iria defender sua tese de Mestrado e queria dormir cedo. Só concordou ao ver a animação de Vi, como a chamava, com o lançamento da coleção do famoso costureiro. Quando a viu na passarela, pensou estar diante de uma sílfide – que, aliás, não o via, absorvida em si mesma, bebendo a atenção do público. De repente, não havia lugar para nada mais, a preocupação com a sua performance na defesa desaparecera, era como se não existissem mais lagartos. Nem sabe como arranjou coragem para procurá-la depois do desfile, cumprimentando-a pelo desempenho. Então ela deu-se ao trabalho de lançar sobre ele um pouco do verdume daqueles olhos formidáveis.
Um dos sapos coaxa. O outro deve ter-se escondido atrás de alguma das pedras, dispostas de modo a formar um caminho irregular até o ponto onde se encontra a jararacuçu, que, tendo se mexido, mantém agora a cabeça levantada. Lírio percebe que ela olha para o anfíbio, fixamente. Aflito, o sapo pula para trás duas ou três vezes, coaxando. Minutos depois salta para frente, emitindo um som estridente e fino. Aparentando grande segurança, a cobra continua imóvel, só olhando.
Sente vontade de rir de si mesmo. Como é possível que um biólogo, especialmente um quase Doutor, possa pensar uma bobagem dessas? Trata-se de pura lenda, é claro: cobras não seduzem sapos, isso faz parte do imaginário popular, coisa de gente ignorante, perita em invenções. É verdade que possuem pupilas ovais, mas daí a achar que existe algo de hipnótico nelas é um grande exagero. Não estaria solitário em excesso, nos últimos meses? Ou quem sabe andava estudando em demasia? Onde teria se escondido o Lírio inteligente, racional, disciplinado a ponto de ter-se transformado num vegetariano, ele que no passado adorara churrascarias? E depois, não era nenhum menino, tinha vinte e oito anos, namorara várias mulheres, viajara muito com a família, até morara em outros países, antes do falecimento do pai, diplomata.
De um dia para o outro se dera conta de sua paixão por Morgana, o que não causou estranheza aos amigos. Nenhum deles ousara negar sua beleza, nem sua simpatia. Havia nela uma alegria, uma espontaneidade, que a ninguém deixava indiferente. Era educada, sua conversa agradava e possuía um notável senso de humor. Gostava de contar piadas, as pessoas se reuniam em torno dela só para ouvi-la, do início ao fim das festas. Recorda-se como se sentira orgulhoso naquelas ocasiões, por ter descoberto uma mulher tão especial. Vinícius, que não recebera bem o namoro, aos poucos parecia convencido de que sua tia estava enganada. Até a cética Violeta reconhecia as qualidades daquele ser encantador. A felicidade de Lírio só não era completa porque precisava de um emprego, para marcar a data do casamento.
Chegara a pensar em desistir do Doutorado, para lecionar em faculdades particulares, mas fora dissuadido por Vinícius. Lembra-se perfeitamente de suas palavras: “que é isso, amigão, você não pode desistir agora, nasceu para ser pesquisador, já investiu muito na carreira, calma, a moça não vai desaparecer. Depois de concluir o Doutorado, aí sim, você poderá pensar em casamento”. Aos vinte e nove anos, Vinícius já se tornara um jornalista muito respeitado pelo público e pelas fontes, trabalhando num importante jornal especializado em Economia.
A jararacuçu continua com a cabeça meio alta, enquanto o sapo prossegue dando pulinhos para frente e para trás. Lírio olha o relógio, surpreso: está sentado ali há uma hora e meia e, se muito, o animal avançou um metro em direção à cobra. O outro sapo continua escondido, pelo menos do ângulo em que olha o fosso.
Pertencente à família dos viperídeos, ao lado das urutus e cascavéis, as jararacas têm, em média, um metro de comprimento. Suas maiores representantes são as jararacuçus, que podem medir até dois metros e vinte, nas cores verde-oliva, parda ou amarelada. Embora não tão forte quanto o das cascavéis, seu veneno é em enorme quantidade: consta que Vital Brasil chegou a extrair, em um só réptil, 1,3 centímetros cúbicos de veneno, ao passo que as outras espécies fornecem apenas 0,5 centímetro. Sua picada causa dores locais e, meia hora depois, náuseas, perturbação visual, sonolência e hemorragia pelo nariz e ouvidos. Se não tomar o soro antiofídico, a pessoa morre num espaço de tempo mais ou menos breve.
Ainda não tem uma opinião precisa sobre o seu comportamento. Fora só um tolo? Um homem apaixonado demais para entender o que se passava? Sua inteligência emocional, como se diz hoje em dia, seria muito baixa? Não há respostas para tudo, o acaso tem um papel por demais importante na vida, ele sabe disso, mas continua empenhado em compreender a si mesmo.
Após a conversa com Vinícius, perguntara a Morgana se ela estava disposta a esperar que fizesse o Doutorado. Com o seu sorriso maravilhoso, prontamente concordara, assegurando que continuaria a trabalhar como modelo, a fim de comprar um bom apartamento para os dois. Poucas vezes se sentira tão feliz: amava, era amado, ela não se importara com adiar o casamento. Durante alguns segundos pareceu-lhe até mais alegre do que antes, mas concluíra que devia ser impressão sua, certamente Morgana agia assim para não o magoar.
Os gritinhos do sapo estão cada vez mais finos e frequentes. O ritual continua se desenvolvendo, lento. Os sons parecem soluços estridentes. Ainda dá pulos para trás, mas pouco a pouco o sapo se aproxima da cobra. Lírio sabe que a idéia é absurda, embora tenha uma sensação nítida de que ele tem consciência da morte. Somente isso poderia justificar o desespero dos soluços, o tremor das frágeis patas. A serpente, imóvel, parece dispor de todo o tempo do mundo, com a confiança dos que se sabem vencedores.
O adiamento do casamento não modificara, aparentemente, o relacionamento do casal. O bom-humor de Morgana não se alterara, tudo corria como sempre. Lírio ficara feliz com o crescente afeto que Vinícius demonstrava sentir por ela, tratando-a de cunhada. Formavam um trio quase que inseparável. O jornalista fora convidado para apresentar um telejornal numa grande emissora de televisão, recebendo um salário excelente. Para comemorar, convidou-os para um fim-de-semana numa ilha próxima, onde possuía uma casa.
Habituado a levantar-se cedo, Lírio tomou café e foi dar umas voltas pela pequena ilha de pescadores, pensando na noite maravilhosa que passara com Morgana. Retornou à casa por volta das dez horas, incomodado com o forte calor. Percebendo que nenhum dos dois se levantara, resolveu levar para ela a bandeja de café na cama. No meio da escada ouviu ruídos, embora a porta do quarto estivesse encostada. O barulho foi se tornando mais nítido, transformando-se em risos, vozes. Parou no último degrau, com a bandeja na mão, quando escutou a voz de Morgana: “gosto de homens como você, que sabem o que querem, detesto os cavalheiros sensíveis demais, como o seu amigo, sempre perguntando o que a gente quer, arre, dá um cansaço! Aperta mais, aperta, sou louca por você, precisamos resolver essa situação”. E depois a gargalhada de Vinícius, quase gritando “você é minha, é minha e de ninguém mais, me abraça, minha fada, eu quero mais, vem”.
Deixou a bandeja no chão e saiu correndo, sem querer ouvir mais nada. A náusea foi tão forte que começou a vomitar, ainda no quarteirão. Com tonturas, sentiu que ia cair, as pernas tremendo. Não conseguiu controlar o involuntário bater dos dentes. Um suor gelado empapou sua camiseta. Queria pegar a primeira embarcação e voltar para a casa, mas sabia que não conseguiria, com a intensa dor no peito. Por sorte, lembrou-se do posto de saúde que vira, ao chegar, a uns quinhentos metros dali.
Ficou internado algumas horas, até que a pressão arterial baixou. Fizeram-lhe exames de rotina e o de sangue mostrou um colesterol total de 640, o que assustou o clínico. Depois de tomar soro e sedativos, dormiu algumas horas. No final da tarde foi liberado e retornou à cidade.
Não viu mais os dois, até que soube do casamento. Estava seguro de que, no mercado sentimental, um apresentador de telejornais valia mais que um aspirante a professor. Sua recuperação se dera aos poucos. A decisão de fazer o Doutorado em outra cidade fora sábia. Ajudado pela sorte, obtivera a bolsa sem problemas.
O sol começa a desaparecer e raios fracos caem sobre o gramado, cujo verde se torna mais claro. O verde-oliva da serpente brilha. Gemendo cada vez mais fortemente, o sapo continua pulando para a boca da jararacuçu. O outro prossegue escondido, provavelmente intuindo que será o próximo banquete. Agora falta pouco: pelos seus cálculos, daqui a uns dez minutos ele estará diante dela, dando-lhe apenas o trabalho de abrir a boca. Um pequeno grupo permanece no local, mas muitas pessoas se foram, com expressões enojadas. Uma das moças amassa sem parar um guardanapo de papel. Com um grito, o mais agudo de todos, o sapo se oferece àquela boca. Após engoli-lo, ela abaixa a cabeça e cochila.
Começa a escurecer e Lírio alonga o corpo, enquanto veste o casaco. Sente-se muito cansado, depois de presenciar o ritual de aproximadamente três horas de duração. Está aliviado, também, com a certeza de que nunca mais assistirá a um espetáculo igual. Uma vez é o bastante. Caminha até à casa, lentamente. Sem pensar em nada, sobe as escadas do prédio, que não tem elevador. A vizinha do quinhentos e quatro ouve música com o volume altíssimo. À medida que se aproxima do seu andar, percebe que ela escuta um velho disco de Caetano Veloso, dos tempos da tropicália. Nunca prestara atenção à letra da música, intitulada “It’s a long way”:
“os óio da cobra verde,
hoje foi que arreparei,
se arreparasse há mais tempo,
não amava quem amei.
It’s a long way.
It’s a long,
It’s a long, long, long, long way”.

Rosângela Vieira Rocha nasceu em Inhapim, MG e vive em Brasília desde 1968. Tem treze livros publicados, sendo seis para adultos (cinco romances e um de contos) e sete, infanto juvenis. Além de escritora, é jornalista, Mestre em Comunicação Social, bacharel em Direito e professora aposentada da Universidade de Brasília. Recebeu vários prêmios e o de maior destaque foi o Prêmio Nacional de Literatura Editora UFMG/1988, com o Romance, Véspera de Lua.

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