Das Águas - crônica de Nic Cardeal


DAS ÁGUAS

(Nic Cardeal)

Quando comecei a escrever não era bem a palavra o que eu procurava. Eu queria mesmo era devorar  minhas próprias entranhas, buscando algum sentido. Precisava encontrar sentido.
Lembro que naquele tempo o tempo era mais longo, mais esticado sobre os dias. A gente conseguia alcançar mergulhos mais fundos. Havia mais água por dentro. Lá naquele azul profundo, quase noite eterna de tão profundo, eu cavoucava, quase sem ar, à procura de sentido. Às vezes acordava bem no meio da madrugada, abria os olhos e 'inda era muito escuro, muito fundo, nos meus mergulhos, lá nas minhas águas de dentro, no avesso dos meus mundos. Às vezes a água era tanta, que me transbordava olhos afora, e eu - a alma - não resistia a trancafiar minhas janelas. Eu precisava de sentido.
O tempo sempre foi um cara muito esquisito. Empurrava-me adiante, muitas vezes a contragosto, repetindo anos a fio, que era melhor eu deixar pra lá a ideia de sentido para o caminho. Mas eu insistia. Eu queria sentido, muito mais sentido para a vida.
Hoje, cansada, já desisti. E as palavras - coitadas - são tão asas! A gente diz o que pensa explicar os sentidos das coisas, e elas - as palavras - como num átimo de segundo, recém-nascidas, já voláteis como asas, lá se vão pelos ares, deixando-nos vazios, perdidos, efêmeros e mudos, no grande espanto da incompreensão do mundo!
Às vezes as minhas águas 'inda são tantas. Estranhas criaturas espectadoras das minhas andanças, jazem  fundas, águas paradas em lama densa. Quase não saem mais, cerceadas em seu direito de transbordar. Não encontro mais palavras que me digam na exatidão das minhas águas...
Bem que a gente deveria nascer mais água, feito um rio de palavras que nos dissessem com maior clareza sobre essa coisa de vir ao mundo pra existir! Com direito a beber um mar inteiro de sentidos pra esse mistério que é viver, até o dia (tão certeiro) de se ir desaguando e morrer...



Nic Cardeal, graduada em Direito, escritora, integrante do Mulherio das Letras desde a sua criação em 2016. Escreve suas insuficiências em qualquer superfície ou profundidade compatível com os sentidos. Autora do livro de poemas 'Sede  de céu', Penalux, 2019.



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