Uma narrativa e dois poemas de Janete Manacá | "A menina que nunca deixou de sonhar"

 

Quang Nguyen Vinh. Fonte: pixabay.com.

Uma narrativa e dois poemas de Janete Manacá


A menina que nunca deixou de sonhar

 

A madrugada estava gelada. O sono era intenso, o corpo tenso não descansara. Não havia nada que conseguisse aquecer os pés e as mãos. Mesmo com uma pilha de colchas e cobertas sobre o corpo. Até o galo com insônia cantou. Desafinado e antes da hora. Penso que também estava incomodado.

O cheiro forte de café recendia por toda a casa. Risquei o fósforo e acendi a lamparina. Abri a janela. Um ar gelado invadiu o quarto. Daqueles de trincar as bochechas e avermelhar a ponta do nariz. O sereno congelado repousava sobre a verde pastagem. Tempo de geada. Saí no quintal. O telhado da casa estava coberto com flocos de gelo.

Era tempo de colheita de café. Não tínhamos tempo a perder. Peguei meu chinelinho de dedo debaixo da cama. Coloquei meu surrado paletó de flanela. Seguimos o carreador em meio ao pasto. Passamos a porteira e entramos na estrada de terra entre a mata fechada.

Minha mãe ia sempre na frente. Direcionava o seu frágil rebanho humano. O chão estava escorregadio. Os tombos eram inevitáveis. O sol preguiçoso ainda dormia. O chão parecia pista de patinação. Era uma alegria quando os primeiros raios de sol beijavam os nossos rostos. As bochechas geladas. A ponta dos dedos trincada. Quase em carne viva. Os pés rachados e doloridos.  

Tremendo de frio seguíamos como ovelhas obedientes. Essa rotina se repetia diariamente durante todo o inverno. O coração batia suavemente. Lento como quem estava congelando. O compromisso nos aguardava. A responsabilidade era grande. A vida não oferecia uma segunda chance. Ou vencíamos os desafios ou eles nos destruíam sem nenhuma piedade. Na lei do mais forte, os frágeis vencem pela teimosia.

Chegávamos na roça. O sol ainda nem pensava em nos mostrar a realeza da sua túnica de fogo. Indiferentes a esse detalhe, dávamos início aos afazeres. Derriçar os pés de café. Limpar o tronco. Rastelar formando pequenos montes. Abanar e, por fim, ensacar e deixar no carreador para ser levado pelo motorista até o terreirão do sítio. O dia passava depressa. O sol cedia espaço à lua e se recolhia para repousar.

Cansada e com o corpo trôpego pelas atividades laborativas do dia, além da fome e do sono, seguíamos a trilha de volta ao lar. Em casa a primeira atribuição era rachar lenha. Em seguida acendíamos o fogão e colocávamos água para ferver e então tomar banho. Enquanto isso o cozimento de alimentos para o jantar ocupava um lugar de destaque sobre a chapa de ferro do fogão.  

Mal engolíamos a comida. Lavávamos a louça. E por se tratar de mais uma noite de geada, nos agasalhávamos para dormir. Deitávamos sobre o colchão de palha de milho e o macio travesseiro de paina. Muitas vezes antes de dormir, minha mãe colocava brasas sobre o chão batido da casa para esquentar os pés e as mãos. Então dormíamos, feito anjos.

A rotina da vida na roça em dias de frio era tediosa. Mas não tínhamos como mudar os fenômenos da natureza. Então só nos restava aceitar. Diferente das noites de verão, que eram regadas a histórias de assombração.

Ainda hoje, no silêncio do meu leito volto à longínqua infância. Saudosa, fico a recordar daqueles dias intermináveis. Uma energia amorosa envolve o meu ser. Foram essas práticas que alimentaram o meu imaginário. E foram elas também que ofereceram resistência aos meus dias atuais para vencer obstáculos e continuar a travessia. 

Sou muito grata a essas reminiscências. Tão vivas que até hoje inspiram os meus dias. Não fossem as cicatrizes dos pés, das mãos e da alma, curadas, na lida de cada dia, talvez, hoje, eu não tivesse adquirido forças para lutar e resistir.

Às vezes eu me sinto centenária. Forjada em aço. Que diante de nada se curva. Por sorte, na realidade, isso não procede. Nunca perdi a doçura que sutilmente faz meu corpo se curvar frente ao nascimento de uma flor. Meus olhos vertem lágrimas ao me deparar com ações solidárias, gentileza e gratidão. Tudo isso, cada dia mais raro de se ver, nessa fria e caótica civilização.

Mas verdade seja dita: por toda a dureza da vida eu nunca desisti de sonhar e ser feliz. Por isso sobrevivi. Confesso: se tivesse a oportunidade de voltar no tempo faria tudo novamente, com uma única exceção: daria eternidade à juventude, à saúde e à beleza dos meus pais. Não por medo de perdê-los, mas pelo colo aconchegante, olhar cuidadoso e os braços sempre estendidos, com amor, mostrando a direção. Por ora vou tentar compreender os mistérios da finitude da vida.

Fica a saudade sonora do violino vibrando nas noites. Das histórias contadas sob a luz do luar. Das brincadeiras de roda no quintal. Da macarronada aos domingos. Da fogueira nas festas juninas. Dos bolinhos de chuva. Das frutas colhidas no pé. Das verduras fresquinhas na horta do quintal. Da água da mina no pote de barro da cozinha. Do pão de forno de barro das madrinhas. Dos santinhos nas missas matinais. E do extasiante tempero materno.


(Do livro: Tecelã de memórias)


Quang Nguyen Vinh. Fonte: pixabay.com.


Senhora dos meus desertos

 

Resistente corpo sagrado

Sustentáculo do universo

Que dá vida a todas as vidas

 

Atenta ao amor e ao cuidado

Triste diante da dor e o descaso

Aflita ante o fogo das vaidades

                                        

Ressignifica a passagem do tempo

A beleza de cada estação

Nos ciclos da vida em ação

 

Seus dias são de vigília universal

Têm destaque nos meus versos

Transbordam nas páginas do meu ser

 

Sua força é proteção

Dos meus dias inquietos

Senhora dos meus desertos

 

(Do livro: Gaia: A poética silenciosa do amor)


 

Mulheres sagradas

 

mulheres sagradas

guardiãs da terra cansada

corações valentes e alados

 

mulheres que dançam

a música da floresta

e deixam a mata em festa

 

com seus tambores ancestrais

despertam memórias vitais

e transcendem os maus pensamentos

 

fortalezas além da idade

doces mistérios e bondades

mensageiras da felicidade

 

mulheres regidas pela lua

que tecem a trama do tempo

no suave balanço do vento

 

mães que acolhem e confortam

fortalezas em dias de dores

úteros divinos, ninhos de amores

 

(Do livro: A SABEDORIA DOS CAMINHOS: poesia em tempos de pandemia)


Quang Nguyen Vinh. Fonte: pixabay.com.




Janete Manacá
é filha de camponeses. Com seus pais aprendeu muito cedo, a lidar com a lavoura, respeitar e amar a Mãe Natureza. Aprendeu ainda como se utilizar com sabedorias os benefícios dos quatro elementos, das quatro fases da lua e das quatro estações do ano. A vida no campo era regida sob a égide desses conhecimentos. 
Formada em Serviço Social, Rádio e TV e Filosofia com pós-graduação em semiótica da cultura pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Atualmente é integrante do coletivo Literário Maria Taquara – Mulherio das Letras-MT e Parágrafo Cerrado. Possui vários livros publicados. 


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