UniVerso de Mulheres 11 - A Poesia intrínseca e cativante de Rosi Waikhon , por Valeska Brinkmann


UniVerso de Mulheres 11

A poesia intrínseca e cativante de Rosi Waikhon

 
 
Arapaço

Seguindo conhecimentos milenares do meu povo,

meu pertencimento étnico é pratrilinear Pirá-tapuia /Waikhana.

Portanto, assim me apresento indiscutivelmente.

 

Ao longo da vida obtive conhecimentos de avôs e avós,  de partri e matri.

Conhecimentos que me fizeram ser poeta e artista, apresentando versos e poesia.

Conhecimentos que me fizeram ser cientista e pesquisadora, frequentando universidades 

almejadas por todos que queiram trilhar o ramo científico.

Responsabilidade a qual prezo muito.

 

Mas, quando sobrevoo a literatura e escuto a fala de meu finado avô José, Arapaço,

Sinto-me como esse pássaro pica-pau (referência do povo de meu avô)

Incrivelmente pousada no poste em meio aos fios de tensão, tentando alçar voo

 

Há tanta dor por tantas perdas nessa dura realidade de covid 19.

Horas escrevo, choro, escrevo, choro… e assim vou seguindo

Aprendi a não desitir. Vou alçar voo sim.                                                   

 


Amor Infinito – Parte I

 

Hoje é Dia de Ion

mamãe na lingua Arapaço, o povo de minha mãe.

Um dos primeiros povos do Alto Rio Negro a terem sua língua declarada como morta.

Povo que, assim como outros, sofreu com a invasão dos brancos

Minha mãe fala Tukano, língua de sua mãe - minha avó

Hoje é dia de Ion

E eu queria estar com ela

Mas distante agradeço a nossos ancestrais pela proteção à ela e à nossa familia

 

Amor Infinito – Parte II

 

Todos os dias é dia de Ion

Ela é minha mamãe

Ontem foi seu aniversário

Ela é minha vida, sem ela sou nada

Gostaria de nunca ter saído do lado dela

Mas uma missão me foi entregue

Levar a sabedoria de nossos avós através da fala e da escrita

Na defesa de nossa história e do território ancestral

Com Ion aprendi sobre tantas coisas

sementes, flores de urucum

compreendi que a beleza está nos riscos singelos da tinta sobre o papel

Sua sabedoria me ajuda a suportar a distância, as dores da solidão

inquietações desse mundo conturbado...                                                              

 


 

Esse pequeno poema escrevo em homenagem a uma pessoa que tenho carinho especial e está passando por tempestade...

 

Cada um de nós, sobretudo nós que somos da representatividade da política indígena sofremos pressão tanto no meio politico, como nas caminhadas em busca de diálogo com autoridades governamentais… muitas vezes passamos noites sem dormir, com fome.

Em viagens longas, deitamos nos bancos dos aeroportos. O frio toma conta… Às vezes sem um centavo no bolso…Mundo branco não dá nem água.

Ao retornar para casa, joga-se os papéis, deita-se um pouco… E já se vai para outro compromisso.

Ninguém te pergunta: Como você esta? Sua familia está bem? Tem comida em casa?

Só ouvimos: Esses aí tem dinheiro, vivem viajando em nome dos índios, esses aí de ONGs vivem endinheirados…

Não sabem que atuar como representante indígena é tarefa dolorida, não há dia, nem noite…Ficamos depressivos…

Em final de mandato sofremos perseguições dos politicos partidários, porque batemos de frente em nome do coletivo indígena.

O curso do rio é longo e nós seguimos ouvindo o canto dos pássaros.

O conhecimento de nossos avós jamais serão sufocados pelo egoísmo.

Nossa canoa

nosso remo

Avó do Universo continuando a luta.

 

   


Rosi Waikhon, indígena do povo Waíkhana – Piratapuia, é bióloga, ativista, poeta e cientista. É formada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Amazonas – UFAM e mestra em Antropologia Social – UFAM. Atualmente é doutoranda na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, e pesquisadora no Núcleo de Estudos de Populações Indígenas – NEPI. 

Atua em defesa do Território Indígena do Alto Rio Negro (Amazonas – Brasil) com atividades voluntárias comunitárias indígenas na região e na luta por políticas públicas pelos direitos  indígenas. Também coordena o coletivo  “ Amazônia Movimento Água, Terra e Floresta”, onde se desenvolvem atividades de revitalização do bem-viver focando na alimentação tradicional indígena, conservação e práticas milenares do manejo da floresta, conservação ambiental e promoção de ações de geração de renda colaborativa.

Foi diretora da Federação das Organizações indígenas do Rio Negro – FOIRN e bolsista do International Fellowships Program – IFP da Fundação Ford no ano de 2010.

 Em 2008 foi vencedora do 5º Concurso FNLJ/INBRAPI Tamoios de textos de escritores indígenas.

 




Comentários

PUBLICAÇÕES MAIS VISITADAS DA SEMANA

Um conto de Maria Amélia Elói | "Fécula"

Cinco poemas de Claudia Miranda Franco | "Moenda"

Sete poemas de Rozana Gastaldi Cominal | "Aos protagonistas da cultura viva"

Coluna 01 - In-Confidências - Apresentação, por Adriana Mayrinck

Coluna 02 | Fala aí... Isabel Bastos Nunes (Portugal)

Coluna 01 | Fala aí... - Apresentação, por Adriana Mayrinck

PONTE-AR: literatura preta em dia(logo) | Na moda - Catita

Coluna 01 | Mulherio das Letras na Lua - Apresentação

A poesia tocante de Wanda Monteiro

Coluna 04 | Fala aí... Terezinha Malaquias (Alemanha)