De Prosa e Arte | Escrevo para nos Perdoar


Coluna 8


Escrevo para nos Perdoar

Sempre falo de ti com nostalgia o que remete a ilusão de que você nem mais existe. Nunca tinha percebido isso, até que contando uma de nossas poucas histórias, alguém me perguntou: 


_ Seu pai ainda é vivo?

Eu, surpresa com a pergunta respondi: 

_ Sim é!


Mas convivemos tão pouco ultimamente que meu jeito de falar não é despedida pra quem já partiu, é só saudade.

Cara, queria te contar que hoje escrevo e leio com tanta paixão por sua causa, que sempre me ensinou a buscar. Nunca me deu uma resposta pronta. E isso me fez curiosa, observadora e humana. 


Porque quando tu chegava “bebaço” ainda assim pegava o livro de contos clássicos, lia pra nós Branca de Neve (era o que tinha pra aquele momento) com um sotaque alcoolizado, tropeçando nas palavras. O que podia parecer uma afronta pra mamãe, pra nós era diversão e nos levava às gargalhadas de soltar xixi nas calças. 


E quando faltava energia e estávamos sob a luz de velas nos ensinou a ler as sombras produzidas nas paredes ou contar até 2789 (número simbólico pra quem tinha 6 ou 8 anos na década de 80) para esperar a “luz” chegar e quando tardava a chegar você nos botava na cama para nos manter a ilusão de que havia contado até um milhão e tanto até que a energia chegasse.


Dia desses no trabalho com meus alunos me peguei outra vez lembrando de ti contando com apego sobre meu amor pela literatura. Não sei se você sabe, mas sempre te observei com os livros de S.Sheldon ou um calhamaço de jornal sob o braço, rabiscando suas revistas de palavras cruzadas de nível dificílimo e que ficava bravo (moderadamente) quando via erros que eu cometia transformando algumas páginas em rascunho.


Até que entendeu que eu queria ter com as palavras e passou a me presentear com cruzadinhas. É um vício até hoje, o cheiro das bancas de jornal aromáticas me lembram você. Confesso que volta e meia adentro uma ou outra pra te recordar. Tenho várias cruzadinhas incompletas, medo de completá-las e te perder.


Sabe cara, sempre quis me assemelhar mais com a dona braba, pois ela pareceu-me sempre mais equilibrada e correta. E você era um torto que eu não devia seguir de jeito nenhum. Boêmio, botequeiro, mulherengo com alma livre e de pensamento solto, um perigo!


A dona braba não, tava sempre quando a gente precisava, nutria-nos com tudo que era necessário e nos habituamos a isso. Para suprir sua falta e  cuidar da gente com tanta presteza, organização, também era uma forma de ter você com ela, pois ela sempre me culpava dizendo que eu era “ruim” como você. 

Eu era nada,  ainda sou ruim como você ou um tantão mais, embora numa versão feminina mais progressista. E quando ela me olha ainda te vê, tô certa disso.

Acho que ainda sente sua falta, embora negue. Mas essa é outra história.


Tenho poucas lembranças, pois as mais significativas estão na infância e algumas me faltam a esta altura da meia idade. Em 1990, você me deu um livro chamado LIBERTAIRE de H. Schwartzman, creio que a tradução seja liberdade ou libertar-se. Meu primeiro livro de poesias.


Não sei se tu lembra tem uma dedicatória do autor: “Ao W. (escreveu seu nome com W) que acabei de conhecer neste bar, entrego esse exemplar onde faço fluir toda a música e poesia que existem em mim” (achei a dedicatória super clichê). Hoje faço dedicatórias bem parecidas. Faz parte!


E sabe do mais??? 

Meu primeiro livro autografado se chama “Prosas de Boteco” - de Cláudio S. e Paulinho B., eu o ganhei num bar. Sim, eu frequento bares. Também sou boêmia, botequeira, de alma livre, pensamento solto e não achei um sinônimo feminino para mulherengo. 


É, bem que dona braba dizia: 


_ Você é igualzinha ao cara!


Você sempre acreditou na minha escrita. Era bom quando escrevia pra você e me olhava com orgulho por ter usado palavras tão difíceis pra uma adolescente. Vinha me perguntar o significado de uma ou outra palavra, as respostas eu sempre tinha na ponta da língua porque escrevia com um dicionário nas mãos “o pai dos burros” como você chamava. Porque me ensinou a procurar os sinônimos, as significâncias e essa lição nunca esqueci. 


Eu tinha sempre um pai qualquer na sua ausência: um dicionário, um livro pequenino, cruzadinhas ou uma poesia num caderno cheio de estrelas, corações  e mais  tarde passei a apreciar alguns exemplares masculinos. 


Imagino o susto que levou quando eu despontei de primeira deve ter pensado : 


- Poxa é menina, não vai usar chuteira!


Engano seu. No ensino médio eu era atacante no futsal. Mas não sou Corinthiana. Sou seu Modelo Feminino e Rival. Desfilo fantasias coloridas e você odeia Carnaval, nada é perfeito!


Tantas linguagens você me ensinou: a música e dança. Heranças.

Piso vermelhão encerado com restos de blusas de lã. Na vitrola blues, jazz, Beatles, o ritmo das enceradas. Meus primeiros sapatos de salto você quem me deu, a valsa dos 15 anos que preferia ter trocado por um samba rock, mas que na ocasião você não achou de bom tom. E mais: a valsa alegrou a mamãe. 

Ela queria me ver menina. Eu sempre fui moleque demais pro gosto dela. 


Escrevo estas linhas pra te recordar. Para aplacar a dor da distância emocional e exercitar o perdão que nos devemos. Também pra lhe contar que minha história com as palavras também é sua e que sem querer tenho impresso na minha pele a palavra LIBERDADE, que só agora refletindo tudo isso, recebeu a importância de ser também o início da minha paixão literária. Há também a palavra RESILIÊNCIA, essa que cultivo das tretas que enfrento diariamente nesse caminhar acelerado do tempo, da saudade de você que teimo em não desfazer. Tudo isso despertado pela pergunta capciosa de um aluno observador:


_ Teu pai ainda é vivo???


Que medo de um dia responder acenando em negativo a esta pergunta. Pavor mesmo. Quero continuar sentindo essa saudade teimosa que nos separa apenas pela incompatibilidade de gênios, sua esposa da minha idade e 3 km.


Bem, hoje vejo o quanto também sente saudade de mim e do mano JC, pois os rebentos do seu segundo episódio familiar levam na menção de seus vulgos as sínteses  do JC  meu primeiro irmão. 


Olho pros meus irmãos adolescentes e enxergo tua chance de recomeço em ser um marido mais zeloso?  Sei não. Mas de ser um bom pai, como já foi em algumas ocasiões conosco e só percebo agora depois de adulta. Embora nesses ralos cabelos brancos e sob um punhado de rugas, se pareça mais com um avô. Também é avô. Três netos.


Enfim, acho que essa reflexão vem pra me fazer entender que mesmo velha ainda preciso de Pai, de Paz! Assim nas nossas discordâncias, dissonâncias, divergências vou seguindo, escrevendo, lendo e musicalizando os versos, os verbos, a vida. 

Escrevo pra nos perdoar.






 

Comentários

  1. Que lindeza! Sua escrita foi com o coração, cabeça e muito espírito! Brilhe!

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