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Para não dizer que não falei dos cravos | Cinco poemas de Wanderley Montanholi

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  Coluna 11 Cinco poemas de Wanderley Montanholi Depois de toda a verdade que restava De todos os enganos nas estradas sem retorno De toda chuva que escorreu pelos vidros das janelas empoeiradas das tuas coxas De todas as pontes elevadas impedindo a passagem Depois de tudo Depois do mundo Depois do fundo Depois do teu cheiro na varanda do meu peito Do teu jeito na bola de cristal Que brilha na mesa da sala Das lições que ninguém ensinou Depois de toda a música do piano Que continuava a tocar De todas as fotos queimadas no barro Depois de tudo Depois do mundo Depois do fundo Havia o ar Armar * Uma mosca passou rente ao teto Com os olhos vidrados numa mancha escura Pequena e frágil Como o bater das minhas asas Era vigente entender O que havia de tão intenso Na mancha escura do teto Na mancha escura do osso Na mancha escura do coração O que atraía as moscas pra dentro? Era um complexo de café e avelã, Um cheiro de carne exposta ao ar Ou era a escuridão Que tentava dominar o coração? Alexa

ERA UMA VEZ 13 I A memória na literatura infantil da escritora Paula Perin

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  " Enquanto isso, Ditinho Mal conseguiu trabalhar, Pensando no seu sapato, No seu baú a brilhar... Passou o dia doidinho Querendo o bichinho calçar! Esses são alguns dos versos que compõem a história de Ditinho do livro O sapato de Ditinho da escritora Paula Perin. Paula Perin é doutora em Linguística, professora de Escrita Criativa e Acadêmica, autora de “O sapato de Ditinho” e “O drone de Tonico”, idealizadora do Projeto “Escrita que Transforma” e do “Literatura sem Fronteiras”. "Depois de um longo período tentando me encontrar na vida, de me privar dela para dar conta dos desafios de conciliar carreira, estudos e família, encontrei na escrita uma forma de me conectar com minha criança interior e resgatar as coisas importantes que me fazem feliz.  Uma dessas coisas é a escrita literária", revela a escritora. Desse processo de reinvenção, surgiu seu primeiro livro, O sapato de Ditinho , livro inspirado em uma memória da sua infância. Ditinho era o nome ca

O Natal da chuva que passa | Marilia Kubota

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MOSAICO Coluna 26    –   Crônica O NATAL DA CHUVA QUE PASSA por Marília Kubota Este é o meu primeiro Natal virtual. Como em outros, estou com família. A chegada do verão está marcada oficialmente para esta terça-feira. Já faz calor infernal. Em quase todas as tardes, há tempestades de verão. Lembro de tempestades passadas na praia. Eu tomava banho de chuva e me sentia feliz. Neste fim de semana, por conta da pandemia, fui tomar banho de mar pela primeira vez na era covid. Não foi uma cerimônia inaugural. Fui de máscara e apressada. Banho de chuva e banho de mar evocam batismos. A água que purifica, água benta. As tempestades de verão na casa de praia lembram, além de purificação, a luta com as águas. As chuvas que destelhavam a casa. Baldes e bacias por todos os cantos. Rodos e panos de chão. Assim, também me vi, certas tardes, enxugando os estragos do acúmulo nas nuvens. Foto: Rogério Dezem Além desta cena prosaica, lembro de um filme de John Houston, "Os vivos e os mortos&q

Preta em Traje Branco | Pequenas Prosas Poéticas de Susana Malu Cordoba

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Coluna 4 Pequenas prosas poéticas de Susana Malu Cordoba https://pixabay.com Se pudesse desaprenderia tudo sobre essa máquina de moer gente, sobre essa necessidade de produtividade, que não me faz sentir viva. Se eu ousasse permaneceria inerte beijada pelo vento, acalentada pelo gorjear dos pássaros. Se em mim corresse o fio da coragem, acompanharia a transmutação das nuvens por horas a fio. Abriria o relicário da infância, estática deixaria o entardecer cair sobre meus olhos, e na penumbra me amaria sobre a luz da lua. Ficaria ali corpo imóvel, imaginando mundos ou nada Seria feliz na miudeza de existir. *** O silêncio me pariu Lembro da vertigem que me acometeu,   logo após meu nascimento. A boca amargava decepção. Em meus olhos refletia a lembrança das senhoras de face endurecida que colecionam derrotas com a elegância de quem carrega  troféus. Pensei em quantas vezes o silêncio haveria de me parir para que eu me tornasse essa couraça rígida de mulher

Cinco poemas de Cintia Gushiken | Oceano vermelho

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  Gerd Altmann por Pixabay   Cinco poemas de Cintia Gushiken Oceano vermelho É fases da Lua Seja no corpo seja no mar Daí falaria de pedacinhos Mulher dói e ao mesmo tempo inflama ao mesmo tempo É mil em uma! * Amanhecer em Hilda Profundidade nesse poço Se tornou uma amiga literária Todas as vezes em que eu a leio!   Jody Davis por Pixabay   Afloro-te, oceano vermelho no sul do meu vestido no norte de suas folhas Suavemente, o vento vermelho nos baila no sul do meu vestido no norte de suas folhas * Os gatinhos existentes no lugar misteriosos e Infinitos Me perco neles Sempre sozinhos e pensantes Como se o afeto durasse uma eternidade A vida mais amena Muito mais sorridente Cada um com sua cor Haja ronronar! * Chocolates! Uma mulher sozinha traduzida com seus chocolates é o empoderamento num dia de glória. Oculta os espinhos da vida em cada tapete que esconde o que varreram para debaixo deles Mas, espinhos sob tapetes não espetam os pés femininos? Não, elas se ocupam saltitantes com os

De Prosa & Arte | December Bday

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  Coluna 10 December Bday Há 42 anos atrás, às 03h40 sob as bênçãos de Ogum, eu nascia. Um pouco de negra velha, um tanto do brilho de Oxum, tempestades de Iansã, estou certa de que chorei em si sustenido.  Música minha força motriz, acordes e canções minha salvação para um ano que tinha tudo pra dar errado e que deu.  Mas como diria S. Vaz “agora que já deu tudo errado, tem tudo pra dar certo” Música foi meu alimento diário, nos palcos virtuais, na gira do Terreiro.  Eu fui teimosia, medo, tristeza, dor extrema, criança espoleta, menina inquieta, adolescente rebelde, jovem sonhadora, mãe e desequilíbrio.  Há quem ache que sou uma bomba-relógio… tô picas para isso. Eu (re)inventei minha fórmula, meu modelo de ser. Não sou afeita a padrões pré-estabelecidos, quase não pude fazer escolhas físicas, acabei sendo escolhida muitas vezes. 42 anos é um bom bocado de tempo e quase nada pra quem intenciona viver pelo menos mais uma cota disso.  Família: estou focando na nuclear, meus bebês, que

Cinco poemas de Pamela Ferreira | "Das colinas à fuga"

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  RÜŞTÜ BOZKUŞ por Pixabay   Cinco poemas de Pamela Ferreira Das colinas à fuga   As colinas estão longe O sol nasce por detrás Depois de ascender deixa as colinas Faz seu trabalho E se põe do outro lado   Quando seu brilho se esvai Renasce nas colinas Como se nunca as tivesse deixado Nem ido rumo ao lado oposto   O que é, é. O que pertence, volta. Mesmo que sempre corra para o outro lado E se esqueça das colinas que fizeram da sua presença O nascer do sol     Lua   Seriam o céu e as estrelas Tão gratos a lua? Um ser que por si só Traz a beleza que todos querem enxergar E, no entanto, ao se fazer presente Faz com que outros corpos Sejam vistos e adorados; O que seria da noite Ou das estrelas Se não houvesse a luz da lua? Que mesmo na solidão Cobre de brilho a escuridão     Florian Kurz por Pixabay     Rosto   Depois de tantos golpes Um abismo se abriu E surgiu um novo rosto Não era o meu Ou o seu É

Preta em Traje Branco | Dualidades | Dois textos de Joyce Dias

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Coluna 3 Dualidades -  Dois textos de Joyce Dias   Texto 1 A vida possui reveses que, muitas vezes, não entendemos. Quantas vezes, temos a impressão de que chegamos no fundo do poço, que estamos sendo engolidos por areia movediça. Não há mais solução, até que encontramos novas possibilidades. O ar volta aos pulmões e conseguimos identificar possibilidades, as quais eram impensadas. A vida sempre se refaz, no seu curso sinuoso, começamos novamente. E o que pensávamos ser o contrário, torna - se o certo. Viver é um desafio diário, todos os dias ganhamos a possibilidade de fazer diferente, todos os dias estamos mais próximos do fim. A nós cabe interpretar essa dádiva.  Como escolho olhar para o Tempo?  Estou me aproximando da morte, ou ganhando mais um dia? Prefiro pensar que há uma nova jornada a se iniciar, Machado de Assis diria: "o tempo é um rato roedor das coisas, que as diminui ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto" , prefiro pensar que o Tempo é um grande

Uma narrativa e dois poemas de Janete Manacá | "A menina que nunca deixou de sonhar"

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  Quang Nguyen Vinh. Fonte: pixabay.com. Uma narrativa e dois poemas de Janete Manacá A menina que nunca deixou de sonhar   A madrugada estava gelada. O sono era intenso, o corpo tenso não descansara. Não havia nada que conseguisse aquecer os pés e as mãos. Mesmo com uma pilha de colchas e cobertas sobre o corpo. Até o galo com insônia cantou. Desafinado e antes da hora. Penso que também estava incomodado. O cheiro forte de café recendia por toda a casa. Risquei o fósforo e acendi a lamparina. Abri a janela. Um ar gelado invadiu o quarto. Daqueles de trincar as bochechas e avermelhar a ponta do nariz. O sereno congelado repousava sobre a verde pastagem. Tempo de geada. Saí no quintal. O telhado da casa estava coberto com flocos de gelo. Era tempo de colheita de café. Não tínhamos tempo a perder. Peguei meu chinelinho de dedo debaixo da cama. Coloquei meu surrado paletó de flanela. Seguimos o carreador em meio ao pasto. Passamos a porteira e entramos na estrada de terra entre a mata fec