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De Prosa & Arte | Chegadas e Despedidas

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Coluna 41   Chegadas e Despedidas "Mande notícias/ Do mundo de lá/ Diz quem fica/ Me dê um abraço/ Venha me apertar/ Tô chegando/ Coisa que gosto é poder partir/ Sem ter planos/ Melhor ainda é poder voltar/ Quando quero" M. Nascimento Venho aprendendo a me levar e trazer nos lugares que gosto, a dirigir pra mim mesma, a trocar torneiras, descobrir barulhos no carro, carregar móveis pesados, acender a churrasqueira.  Eu massageio meus pés quando estão muito cansados dos caminhos para onde os levei. Estou aprendendo a me levantar e partir, quando não há mais afeto ou respeito, que possa ser compartilhado. A vida é isso: eterno (des)aprender, (des)construir, tomar pé e consciência de si. Não é à toa que venho me obrigando a fechar ciclos. Trancar portas . Erguer paredes. Ironicamente, quando a ação é externa causa um estranhamento, quando vemos o outro fazê-lo, nos causa um amargor na língua.  Renascer é um processo muito violento. Desprender-se dos nossos maneirismos, manias t

Preta em Traje Branco | 4P - Pretas, poetas, parceiras e poderosas

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Coluna 35 4P - Pretas, poetas, parceiras e poderosas  "Não misturo, não me dobro/  A rainha do mar anda de mãos dadas comigo/  Me ensina o baile das ondas e canta, canta, canta pra mim/  É do ouro de Oxum que é feita a armadura que guarda meu corpo/  Garante meu sangue, minha garganta/ O veneno do mal não acha passagem." Carta de Amor - M. Bethânia E da seiva de cada verso brotado, das salinas gotas que cortam nossa pele, trazemos nossa magnitude de ser. Mulher preta é encontro, o primeiro olhar de sua igual, na passagem pela escada do metrô de cabelos coroados, endredados, aqueles sorrisos de completude. O abraço a distância de um conselho pra firmar a Orì. Mulher preta é deságue, é mar revolto, maresia... é brisa. Cada uma de nós irmanadas carregamos no peito e na fronte o mesmo desejo de ocupação e visibilidade. Mulher preta é aguerrida, é batalha,  é sorriso, luta sem perder o brilho. E foi assim, que na humildade de querer me completar, de querer me refazer, que produzim

Pés Descalços 05 | FARTURA

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                                                                          FARTURA Minha tia, às vésperas de natal, convidou-me para irmos ao centro pegar cestas básicas que seriam distribuídas para as pessoas carentes, para quem tinha os tíquetes, iguais aos dela. Não sei com quantos anos eu estava, mas ainda passava por baixo da roleta do ônibus. Foi um dos motivos de ter recebido o convite, não pagaria a passagem; outro seria cuidar do primo enquanto ela pegasse as cestas.        Haveria também lanches, brinquedos e parque de diversão. O local de distribuição era no parque de exposição. O nome era atrativo “parque” e eu sempre imaginativa. Chegamos ao local às oito da manhã e o sol já batia forte em nossos couros. Naquele dia, o parque de diversão que eu havia sonhado, como nos filmes de Hollywood, abriu espaço para corpos famintos, parecidos como aqueles pintados por Portinari, só que em um cenário agro de Matogrosso. Nós: eu e tia fazíamos parte da pintura. Passava das dez da manhã

De Prosa & Arte | Passados Vencidos

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Coluna 40 Passados Vencidos Desejo um início de ano com consciência física, emocional e mental pra todos. Exatamente às 03h40 do dia 30.12.1978 eu nascia, sob a forja de Ogum, a vibração de Yorimá, a justiça de Xangô e a plenitude de Yemanjá. Aqui e agora, 43 degraus acima: m e aceito, me acolho, me respeito. Devolvo meu lugar de mulher, mãe, filha de orixá.  "Sou uma, mas não sou só". "E canto, canto, canto…" Quando sangra, quando dói, e u danço se transbordo. Sou bonita, sou cheirosa e meu corpo tem o tamanho ideal para abrigar meus sonhos e projetos. Estou saneando passados vencidos.  Construindo novas experiências.  Sempre fui mais Ariano Suassuna (realista esperançosa) que Mário Cortella (otimista). 2020 e 2021 por vezes me deixaram cética em relação as boas intenções das pessoas. Fiquei defensiva e reativa. Descobri que família é quem nos traz serenidade, aprendizagem e sorriso.  Não necessariamente quem divide os códigos genéticos.  Todos os planos que fiz, f

Poema | A(mar), por Jeane Tertuliano

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|Coluna 12| Não posso diferir daquilo que sou: poesia desabrocha tal qual uma flor quando o assunto em questão é o Amor. Nada sei, mas imagino; sendo assim, concebo o infinito. Embalada pelo tracejo (in)verso que alimenta a ânsia tamanha pelo desvelo conjugo o verbo a(mar) junto à melodia soprada pelo vaivém das ondas, o inebriante cantarolar. Torno a dizer: nada sei, mas posso imaginar.

Poema | Ruína, por Jeane Tertuliano

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  |Coluna 11| Há cadáveres por onde caminho. Mortes contínuas de mim mesma inibem a cicatrização da ferida que,  erroneamente, julguei estar contida. Meu corpo lívido, em penúria, verte; a poesia nas rimas do meu caminhar já não acalenta o meu desaguar. Me ponho a escrever porque há muito vislumbro o meu próprio ser, padecer. Cruel inconformidade que me fez ver verdade nas quimeras do viver!

Pés Descalços 04 | A visita do papai Noel

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                                                     A visita do papai Noel O barulho da chuva acorda a menina dentro de mim. Combino com o meu filho como seria legal pendurarmos luzes nos pergolados e montarmos a árvore de natal. A infância me toma por minutos, o suficiente para o resgate de mim mesma. Houve uma vez em que senti o papai Noel. Na rua em que morava havia uma feira com todo tipo de alimentos e brinquedos. Quando chegava perto do natal era mais linda ainda de se ver. O homem da cobra parecia mais vivo, ciganos vendiam suas cores, variações de brinquedos, alimentos e doces. Às vezes me imaginava com uma maçã nas mãos, ou um brinquedo. Ao longo da infância, passávamos por muitas necessidades e esperar por um brinquedo era luxo, a vontade de permanecer em pé vinha em primeiro lugar. Nossos pedidos para papai Noel não chegavam. Era comum faltar o gás e a barriga vazia esperando o almoço calava a fome de brinquedos. Quem sabe por descuido, são tantos pedidos para atender. Mas

MulherArte Resenhas 18 | Sobre "Ao pó" de Morgana Kretzman - Por Irka Barrios

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  Sobre Ao pó de Morgana Kretzman  - Por Irka Barrios A aposta de Ao pó , livro de estreia da autora Morgana Kretzman, mira num assunto presente e doloroso para grande fatia do público feminino: o abuso sexual. Preciso reconhecer, não é um tema novo na literatura. É, ao contrário, um tema bem recorrente. Mesmo assim, o assunto sempre desperta interesse e instiga o debate. Talvez porque seguimos, em pleno século 21, assistindo, perplexas, a impunidade para essa violência vil e covarde. Na obra, Sofia, uma atriz que vive no Rio de Janeiro, coleciona alguns relacionamentos fracassados que (logo fica evidente) têm a ver com traumas que a personagem tentou enterrar.  Por conta dessas experiências traumáticas vividas na infância, Sofia tem dificuldade de se abrir, de se envolver, de confiar num companheiro. Como se não fosse carga suficiente, o sofrimento de Sofia vem carregado de uma boa dose de culpa. Quando optou por enterrar o passado, ela praticamente entregou Aline, a irmã mais nova

Um trecho de romance de Babi Borghese | "Em nome do papa"

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  Imagem de Kitty Vanrooij Um trecho de romance de Babi Borghese Em nome do papa “(...) Solana deu um giro de 180 graus na paisagem que a cercava... a senhorinha à sua direita terminara o café, mas não dava nenhum indício de ir embora ou fazer novo pedido, concentrada que estava em seu exercício mental. Uma mãe muito elegante aguardava com duas pequenas o sinal verde para atravessar o lungotevere Augusta em frente a ponte. No ponto de ônibus à sua esquerda, uma octogenária de cabelos azuis curtos em cachos muito bem penteados dava informações a uma turista de shorts e mochilão nas costas. Uma van escolar presa no trânsito parou à frente de Solana, cheia de meninas uniformizadas que conversavam alegremente. A cena toda era de um equilíbrio perfeito, nenhum som e nenhuma imagem fora de contexto. Eis o sagrado feminino, Solana pensou, fazendo conexão com a parte mais essencial e sublime do ser humano, especialmente da mulher: a alma. A alma saudável (sagrada). Poderosa. Um dom aguardando