UM CONTO DE DEBORAH R. CORDEIRO
INTIMIDADE
Já senti o ódio da quina inferior esquerda do aparador pelo meu dedo mindinho do pé. Como inimigo à espreita, todas as vezes que ela se sente minimamente ameaçada se atravessa voluptuosamente contra o menor de todos. Era de se esperar um contra-golpe do dedinho, mas ele alimenta o ciclo, mesmo levando a pior. Tive que mover o móvel de lugar, já que meu pé não conseguia mudar a rota de colisão.
Me intriga. Os objetos precisam das minhas mãos para quase tudo, me sinto no dever de não deixar nenhum morrer por inanimação. Nos dias de chuva, as dores de família estalam nas minhas falanges. Eu mal conseguia colocar as duas mãos num vinil para fazê-lo tocar. Antes de cozinhar, eu geralmente coloco o B.B. King, ouço The thrill is gone com alguns engulhos deixados no ralo da minha garganta.
Outro dia, cozinhando e cerrando meu cérebro com a voz rouca do King, minha Panela me provocou até o limite da sanidade, derrubando sucessivamente a tampa da boca, sem se encaixar corretamente. Espatifava-se contente ao chão, rebolando as beiras de alumínio como quem roda uma saia de cacuriá. Não me orgulho - mas também não me arrependo - de ter aumentado o fogo lentamente, percebendo a chama ficar mais amarela que azul. A nádega dela, que de tanto alumiada, escurecia. Ouvi o King sorrindo, para o meu deleite.
Eu já comi um arroz queimado dentro dela, arranhando o fundo com as unhas da mão. E nem por isso ela deixava de ser petulante. Permaneceu arriando a própria tampa, beliscando os meus pés. O dedo mindinho se destacava sempre para levar a tampada. Um apreço pelo auto-ultraje encontrado em poucos.
Talvez a Panela também fosse essa espécie gozadora de martírios, porque a tampa derrubada no solo da guitarra ao fundo me pareceu um convite para um duelo: coloquei a colher dentro dela, a de alumínio com a ponta quebrada, uma colher preguiçosa que não levanta os pés para navegar entre os molhos das panelas.
Enquanto eu deslizava a colher de ranhura adentro, a esquisita borbulhava de prazer. Fui costurando um círculo bem no ventre dela, indo, voltando, até ritmar mais grosso e cada vez mais rápido ao ponto de esmagar meus lábios encaixados entre os caninos. O remelexo foi tanto que a Panela grunhiu alto, riscando um xis da colher até meus dentes, encerrando a batida num grito azucrinado.
Meio desesperada, lancei de longe uma xícara de água fria no molho quase seco, querendo calar sua indecência por seu afogamento: bolhas e bolhas se espocavam em variadas formas e alturas. De todos os pensamentos que se materializaram em menos de dois segundos, um vingou: eu a matei de prazer.
Um teatro que eu paguei pra ver. Chapiscou o óleo cruel, num bafo de alho e tomate ferventes sobre minhas mãos. Gemi como quem está se ofendendo, mas eu não sentia dor, verdadeiramente, sentia o lábio inferior amargando a bílis que subia.
Tremi de corpo inteiro num lampejo dormente que descia a espinha, mas me mantive ali, cheia de carne viva. Apesar de exibir meus excessos, confiava na ossatura de um cadáver para sustentar a guerra. Peguei um pequeno triturador para estraçalhar os pedaços de tomate restante. Mas, a pior coisa que poderia acontecer, aconteceu. A Panela abriu o mais cortante sorriso de cócegas, chiando em agoniante maravilha. Escancarou-se toda, arreganhando uma pequena fenda, ali pelos lados da alça de madeira. Brilhavam os dentes separados na boca de uma mulher moleca. Desliguei o fogo, o meu ódio moído nas vísceras e a minha impaciência juntos.
Foi cessando o sorriso com pequenos ‘ais’ de alívio. Descansei o triturador na pia de mármore. A nossa mudez repentina cedeu espaço para o batuque bruto que vinha de dentro do peito, levado pelo groove saliente da nossa trilha sonora.
A tampa ainda estava jogada ao chão e minha cozinha repleta de óleo laranja nos minúsculos azulejos azuis que geralmente decoram os banheiros que vêm com bidê. Baixei o quadril devagar, analisando o estado do chão até segurar a tampa pelos dedos, igual uma pinça. A coloquei na pia. Peguei a esponja e a lavei. Depois lavei os azulejos oleosos atrás do fogão. Ergui a Panela pelas alças, fitando-a com menos rugas, emborcando-a até derramar o molho em cima do macarrão cozido. Comi o macarrão encarando a Panela com diastema, que dormia, exausta. Eu tive vontade de mastigá-la, ou mesmo lamber seus fundos.
Ainda com o estômago entupido, passei a enfiar a língua na panela, em suas beiras e sobras, até o ponto de não deixar nenhuma sobra de molho pregado nela. Tudo tragado pela ponta do músculo. Não a lavei. O vinil já não tocava mais música, e o silêncio ficou ali ensaiando uma vergonha.
Deixei a janela da cozinha destramelada, por culpa ou por desleixo. Secou-se da minha saliva como se secam os cachorros de rua após uma chuva de verão: sem pano, pegando vento. No escorredor de madeira, a noite toda.
fotografia do arquivo pessoal da autora
DEBORAH R. CORDEIRO nasceu na cidade de São Luís, Maranhão, em 1984.
É mãe de Dimitri, Theo e Amelie, professora formada em Pedagogia pela UFMA, Mestra pela Unifesspa, Produtora Cultural no ramo de Saraus e Eventos Lítero-Musicais.
Iniciou a carreira de escritora em 2023, com o livro de poemas intitulado Histérica: poesia de quem sobreviveu mulher. Em 2024, publicou o livro de poesia Puérpera: de mim, da letra e do que não foi dito, que foi lançado na FLIP deste mesmo ano e também na FELIS (Feira do Livro de São Luís).



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