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Pés Descalços 03 | Quanto vale seu bicho

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          Quanto vale seu bicho Por volta dos sete anos de idade tive uma galinha de estimação. Fiz promessa a ela de que jamais nos separaríamos. Cuidei desde que era pinto. Gostava de fazer casinhas e caminhas para ela com tranqueiras velhas que pegava pelo quintal. Eu a achava a galinha mais linda do mundo. Penas brancas como as nuvens e plumas rosadas, roliça e grandalhona. Li muito para o meu filho a história “A Vida Intima de Laura”, de Clarice Lispector, cuja personagem principal é uma galinha, Laura. Eu passava os momentos de folga em baixo de um pé de manga, ao lado dela, geralmente pela manhã, quando os pássaros mais cantam em meu quintal. Quando a minha avó paterna vinha nos visitar, corria até ela e perguntava “vovó, quando a minha galinha tiver os pintinhos, eu serei a avó deles?”. A minha avó abria um sorriso enorme. Depois dela, não me lembro se apeguei a outro animal. Gosto de vê-los soltos pelos matos, ainda mais sendo pássaros com suas cantigas pela manhã. Houve

A POESIA E A PROSA DE DANIELLA GUIMARÃES DE ARAÚJO - por Nic Cardeal

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  (fotografia do arquivo pessoal da autora) 8M Mulheres não apenas em março.  Mulheres em janeiro, fevereiro, maio. Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios. Mulheres quem somos, quem queremos. Mulheres que adoramos. Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato. Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas. Mulheres de verdade, identidade, realidade. Dias mulheres virão,  mulheres verão, pra crer, pra valer! Hoje é dia de navegar na POESIA e na  PROSA  impressionantes de DANIELLA GUIMARÃES DE ARAÚJO !  1) FRUGAL esticar um lençol e devolver ao lugar os travesseiros  coar no filtro de flanela um café mais forte que antes  abrir em cada cômodo as janelas que não dão para mar nenhum  as miudezas das manhãs são enormes  há fiapos, objetos fora do lugar, roupas secando da véspera, copos sujos, chinelos largados no meio de tudo, uma pétala por um fio  são tão largas as horas da imaginação  mas nada se apressa  sabe-se de antemão como será o almoço, o jantar somos sobreviventes,  basta. -*-*-

Um conto de Cristiane Macedo | "Quando você volta?"

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  Imagem de Steward Masweneng por Pixabay. Um conto de Cristiane Macedo Quando você volta? Dos vinte e dois filhos nascidos de dona Maria Diolinda, quatorze vingaram. O mais novo era o Doca. Não sei dizer seu nome de batismo, cresceu e viveu Doca e aqui será. Doca era um rapaz lindo, mesmo já depois dos quarenta ainda era lindo, embora esse relato seja de um tempo bem antes. Para dona Maria Diolinda, Doca era o bebê, por toda sua vida foi assim. Tinha regalias que os outros não tinham. O preferido. De família abastada, Doca gostava dos luxos que podia ter e tinha. Em plenos anos 1950 vivia em ternos e chapéus muito bem alinhados. Difícil achar rapaz mais charmoso. O pai era dono de botica e foi assim que, desde bem jovem, começou a namorar Maria Quitéria. Sendo rapaz de beleza superlativa, não poderia ter decidido por melhor parceria. Pois que Maria Quitéria era a moça mais bonita daquela cidade do interior paulista. Namoraram muitos anos, até que o pai da moça exigiu um compromisso ma

A POESIA DE DALILA TELES VERAS - por Nic Cardeal

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(fotografia do arquivo pessoal da autora) 8M Mulheres não apenas em março.  Mulheres em janeiro, fevereiro, maio. Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios. Mulheres quem somos, quem queremos. Mulheres que adoramos. Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato. Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas. Mulheres de verdade, identidade, realidade. Dias mulheres virão,  mulheres verão, para crer, para valer! Hoje é dia de mergulhar na intensa POESIA de DALILA TELES VERAS : 1)  LIÇÕES DE TEMPO  Em tempos imateriais o tempo mistura os tempos  (real e virtualidade) tempos sem tempo : materialidade irreconhecível  Recolher do tempo o além tempo armazenar e seguir um tempo novo a germinar deste tempo : cumprir-se (* poema do livro 'À janela dos dias', p. 11) -*-*-*- 2)  FELICIDADE Valerá, ainda rasgar-se adiar-se à espera? (* poema do livro 'À janela dos dias', p. 19) -*-*-*- 3)  SINA   Escrever para não perder o mote Cantar para ter direito à vida Trabalhar para não perder

Quatro poemas de Ana Dos Santos | "Retorno ao Atlântico Negro"

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  Imagem de Harubaba por Pixabay. Quatro poemas de Ana Dos Santos RETORNO AO ATLÂNTICO NEGRO   Quero escrever uma carta para colocar numa garrafa e lançar ao mar. O mar do Atlântico negro... o mar que na sua ressaca traz à beira da praia os corpos dos imigrantes, refugiados, expatriados, que junto de suas crianças correram em busca de uma vida melhor e encontraram a morte... Ah, esqueci! Esqueci que essa era uma carta de amor para a humanidade. Mas quem pode exigir amor, quando tem criança morrendo de fome, ou em meio a uma guerra? Como posso falar em amor, quando famílias inteiras morrem afogadas nesse mar de sangue, numa diáspora forçada, que refaz a rota do descobrimento numa rota de desespero e de cobrança de tudo que nos arrancaram, terra, língua, saberes, cultura, espiritualidade. Como é necessária a reeducação do homem branco! Esse homem que vive de privilégios, desde sempre, montado nas costas dos negros e brincando de cavalinho com as

MulherArte Resenhas 16 | "Chão Batido", de Juçara Naccioli: vozes monumentais de ontem e de hoje - Por Marli Walker

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  Chão Batido , de Juçara Naccioli: vozes monumentais de ontem e de hoje - Por Marli Walker Chão Batido , de Juçara Naccioli, chega pela editora Cálida - SP, neste 2021, trazendo a linguagem de uma voz lírica ancestral (seria a avó?), atualizada por outra voz (seria a neta?), conduzindo o leitor por entre cantigas, alecrins, lavandas, rosários, orvalhos, rezas e patuás. Ao leitor desavisado, o estranhamento poderá ocorrer logo ao iniciar a leitura dos poemas, que vêm revestidos de “pretuguês”, grafados em linguagem que revela a diversidade cultural desde o chão até o teto, passando pelo quintal onde se colhem as ervas para proceder às rezas e benzeções. A poeta advertiu-me, quando lançou o livro, para que lesse os poemas seguindo a sequência, caso quisesse vivenciar uma experiência de leitura mais intensa. Foi o que fiz, que não sou boba nem nada. Quero sempre a experiência o mais potente possível quando o assunto é poesia, linguagem, literatura. A atmosfera densa vai se tornando, ao