A POESIA E A PROSA DE DANIELLA GUIMARÃES DE ARAÚJO - por Nic Cardeal

 

(fotografia do arquivo pessoal da autora)

8M
Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
Dias mulheres virão, 
mulheres verão,
pra crer, pra valer!

Hoje é dia de navegar na POESIA e na PROSA impressionantes de DANIELLA GUIMARÃES DE ARAÚJO

1)

FRUGAL

esticar um lençol e devolver ao lugar os travesseiros 

coar no filtro de flanela um café mais forte que antes 

abrir em cada cômodo as janelas que não dão para mar nenhum 

as miudezas das manhãs são enormes 

há fiapos, objetos fora do lugar, roupas secando da véspera, copos sujos, chinelos largados no meio de tudo, uma pétala por um fio 

são tão largas as horas da imaginação 

mas nada se apressa 
sabe-se de antemão como será o almoço, o jantar

somos sobreviventes, 

basta.

-*-*-*-

2) 

ATRAVESSAMENTO 

entre uma mulher e um sonho há um passo e sua matemática:
seja um ou mil e um 
seja por toda a vida

pode ser que haja rios ou cinco oceanos frios 
pode ser que haja o deserto 
de uma metrópole ao domingo 
pode ser que seja cerrado ou restinga

entre uma mulher e um sonho
não é apenas uma porta 
de súbito aberta 

há sempre muitas e muitas partidas.

-*-*-*-

3)

SALVAI-NOS DA TIRANIA

perder não como se perdem presilhas de cabelo e milhares de fios pelo chão da casa, não como um brinco de brilhante no tapete alto

perder do jeito áspero,  rude, primário, agudo 

mil vezes o mesmo corredor te vê olhando chão e alturas, um gerânio, uma rachadura na parede

mil vezes os espelhos escancaram o pálido desalinho 

as marcas do armário 
quantos pratos na estante quantas taças de vinho não quebraram 
exatamente a hora que a saracura canta 

quase tudo se sabe do que não se sabia 
 
e o gato esfrega as bochechas na tela do computador 
enquanto 
os minutos são água de cachoeira 

é a miudeza adversária da incerteza que sentencia:
 
o frescor é fresta 

a casa, a flor, o gato, o shitszu, o bem-te-vi, o queijo meia-cura, cheiro de sopa quente, a memória 
nossa senhora do perpétuo socorro 

salvai-nos da tirania.

-*-*-*-

4)

OS SERES CERRADOS

Tenho  simpatia por 

mulheres e  homens falhos 

esses 

que fazem torcer o nariz dos perfeitos 

esses que ganham corpo no decorrer da vida: 

corpo de faltas 

nada grandioso para um portfólio, um currículo 
uma conversa de ganhos entre amigos no bar

tenho simpatia por falhas 

tal qual tenho simpatia por folha do cerrado 
as secas 

os sonhos em queda 
em queda
em queda

as hastes retorcidas entre silêncios e pios - vida de pouco adorno 

uma ou outra flor despontada pra se contar alegriazinhas 

quando entardece 
o tempo das horas mortas vigoram
vazias do ofício 

as saudades não são miúdas 
amiúde 

são longas e longe

o diabo na espreita 
e o deus 

sem nenhum cio.

-*-*-*-


(capa do livro 'Conto de um amor intermitente')
5)

O COLO QUENTE DA PALAVRA

O colo quente seja a palavra, o ornamento, o perfume, o deleite, alfajores, chocolates, mil folhas. De mil açúcares seja a palavra e de uma fé faça-se, como gênesis, como óvulo e esperma, como verbo-carne seja a palavra.
E benza quebrantos e assista desvalidos, esquente os ossos e reúna as vidas, instaure justiça e sinalize a graça, traga brisas e desfaça brigas, acenda ritos e entrelace risos, que resplandeça a tez e os tecidos, não pergunte muito e aceite tanto, faça despir o desejo mais casto e torne mais felizes as mães no mundo.
Uma palavra que enuncie a volta das luzes extintas e traga o que puder ser lento, o que puder ser belo, o que puder ser salvo e insinue lentidões em nós,  espante poeiras entediantes e traga pães, queijos, presuntos e vinhos, as notas de Schubert numa noite de outono. 
E leve o pensamento pelas mãos, a palavra, percorra quintais e jardins, vastidões noturnas entre estrelas óbvias e cante cantigas de roda entre os meninos do Jequitinhonha, faça os mestres do morro poetizar seus atabaques e evoque a lembrança de um avô querido.
Entre nos templos, sindicatos, a palavra e, em todos os tempos, compassos e ruídos, se inscreva em círculos concêntricos, onde houver a busca de sentido.
Uma palavra que converta descrentes e verta sementes depois das chuvas. Uma palavra que anuncie a alegria e seja planície de girassóis. 
Alguma como a certeza boa de um profeta, alguma que se pareça com a palavra anilina dita por crianças que se colorem no quintal, uma palavra cálida como quando as mãos se tocam pela primeira vez, uma palavra vera dita onde nos sertões se fala "deveras", uma palavra que ilumine a outra e contemple a outra e enrede a outra. Uma palavra de Sherazade dita por uma noite sem fim e que permita silêncios e que permita serenos e que permita o devir.

(* texto publicado no livro 'Conto de um amor intermitente', pp. 145/146)

-*-*-*-

6) 

INTERMITENTE 

E era como se ele ainda dissesse: ainda não estou pronto para ir, me deixa ver os campos de tulipa, os moinhos descritos por Quixote, a quinta estrela surgida. Me deixa beber e andar por noites extensas, em bares, em olhos, em mãos de desejos. Me deixa por os pés em águas distintas, a boca na fruta madura, os olhos cansados nos olhos de um menino. Que tenho um ardor perfeito, um amor des-vestido no leito, o desvario de um barco que tarda. Me deixa ficar mais horas. Que sequem outras sementes, que sosseguem outros sinos, que caiam outras corolas, que durmam outros meninos. Mas não me chame ainda.

(* texto publicado no livro 'Conto de um amor intermitente', p. 186)

-*-*-*-

 (fotografia do arquivo pessoal da autora)

DANIELLA GUIMARÃES DE ARAÚJO é natural de Leopoldina/MG e vive em Sete Lagoas/MG. Trabalha há vários anos com saúde pública, é farmacêutica da Superintendência Regional de Saúde de Sete Lagoas-SES/MG. É contista, cronista e poeta.

Em 2017 publicou seu primeiro livro, Conto de um amor intermitente (contos, Belo Horizonte/MG: Rona Editora, 2017). Participa da Antologia As mulheres poetas na literatura brasileira (org. Rubens Jardim, Arribaçã Editora, 2021)



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