A POESIA DE LÍRIA PORTO | Projeto 8M




(Líria Porto, por Carlos Magno Sena)

8M

Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
Dias mulheres virão, 
mulheres verão,
pra crer, pra valer!
(Nic Cardeal)

Hoje é dia da poesia - sempre profunda, contundente, espetacular - de LÍRIA PORTO:

1)

ARTE 

Existe um ipê-amarelo,
floresce na minha serra.
Antes da chuva ele explode,
nada vi assim tão belo.
Eu acho - o menino-deus
esteve a brincar com ovo,
sujou os dedos de gema
e limpou a mão nas flores."

(* poema publicado no livro Asa de passarinho)

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(capa do livro Asa de passarinho)

2)

ENQUANTO DURMO

a poesia me pega no jeito
enfia-me a agulha na veia
retira uma tinta vermelha 
e injeta uma azul
escrevo um trevo
                     em quatro folhas

(* poema publicado no livro Garimpo)

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(ilustração do acervo pessoal da autora)

3)

INFÂMIA 

o rio nasce espontâneo
brota do ventre da terra
rasga seu leito estreito
escorre por entre as pedras
ganha corpo correnteza
leva cardumes inteiros
atravessa as florestas
as campinas as veredas
o rio recolhe às margens
o canto das lavadeiras
a alegria dos pássaros
 o corpo d'algum menino
anzóis canoas as redes
o riso das cachoeiras
sua vida peregrina
até se jogar no mar
há homens pensam-se 
deuses
violam as águas do rio
roubam-lhe as riquezas
desviam-no da sua trilha
transformam-no em brejo 
seco

(* poema publicado no livro Garimpo)

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(capa do livro Garimpo)

4)

(IN)CONSCIENTE 

sou dois
um que não sei
outro que sei só um pouco

(* poema publicado na antologia Poesia para mudar o mundo)

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(ilustração da RevistaSer MulherArte)

5)

FÔLEGO

quando nasci
não tinha anjo disponível 
então um diabinho com um tridente 
espetou a minha bunda e disse - vai
cai na vida
não tens outra saída

(* poema publicado no livro Cadela prateada

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(capa do livro Cadela prateada)

6)

DELÍRIO

a minha alma gêmea ela mora em marte
e vagueia solta por entre as estrelas 
se há tempestade ou um pé de vento
vem ela pousar em meu travesseiro 
a minha alma gêmea dança tão bonito
quando é lua cheia sou eu quem vai lá
rodopiamos doidos pela via láctea 
às vezes perdemo-nos pelo infinito
nas noites escuras deixo a porta aberta
a minha alma gêmea vem aqui me ver
leva-me consigo voo em sua nave
só a minha casca fica presa à terra
a minha alma gêmea fez-me prometer
quando ela puder quando eu precisar
vai me transportar carregar meu corpo
vou morar em marte de uma vez por todas
acaso ouças risos ou vozes alegres
barulho de guizo ou de cachoeira
é minha alma gêmea a brincar comigo
a contar-me histórias sobre a lua cheia
então eu te peço  - não chores
abre a janela

(* poema publicado no livro Cadela prateada)

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(ilustração do acervo pessoal da autora)

7)

DAS ETERNIDADES

desistir posso - - desisto
mas esquecer não me peças
sou dessas peças antigas
onde se guardam relíquias 
o amor é uma delas

( * poema publicado no livro Olho nu)

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(capa do livro Olho nu)

8)

NINHO DE GUAXE
 
muita vez eu fico grávida 
gravidez imaginária
e gesto versos
as minhas letras meninas
desajeitadas traquinas
são descabelos
se para muito não servem
só por isso me completam
é bonito ser poeta
nas horas de algum juízo
eu juro para mim mesma
agora chega de rimas
escrever no entanto é vício
eu vivo prenhe do ofício

(* poema publicado na antologia ME 18: mulheres emergentes)

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(Líria Porto, por Nic Cardeal)

9)

TOCAIA

de morte morrida
seria duro aceitar
porém de morte matada
bem na metade da vida
a alma fica à deriva
até que prendam
os culpados

(* poema publicado na antologia Um girassol nos teus cabelos: poemas para Marielle Franco)

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(capa do livro Um girassol nos teus cabelos)

10)

TEIMOSIA

a poesia some
não me desespero
ela volta um dia
e traz tanto verso
que a mando embora
para ter sossego
:
ela só faz 
o que quer 

(* poema publicado no e-book A sede do rio não cede)

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(capa do livro A sede do rio não cede)

11)

LIPOINSPIRAÇÃO

com todo o zelo que um verso merece
faz-se necessário cortá-lo na carne
lancetar abscessos
sangrar das palavras excessos estridências 
deixá-lo direto

o resto
dizê-lo em silêncios 

(* poema publicado no e-book A sede do rio não cede)

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8M: 8 de Março = Dia Internacional da Mulher: Projeto 'Homenagem a mulheres escritoras/artistas' iniciado em março/2021, por Nic Cardeal.


(Líria Porto, por Adriane Garcia)


LÍRIA PORTO é natural de Araguari, no Triângulo Mineiro, e mora em Araxá/MG. É professora aposentada e poeta, autora do blogue 'Tanto mar', e também escreve no 'Putas Resolutas'. Tem poemas publicados em vários jornais, revistas e sites, como 'Germina Literatura', 'Cronópios', 'Balaio Porreta', 'Mallarmargens', 'Poesia Perfeita', 'Zunái', 'Blocos Online', 'Considerações do Poema', 'Escritoras Suicidas', 'Poesia.net', entre muitos outros. 

Livros publicados: Asa de passarinho (poesia infantojuvenil, Belo Horizonte/MG: Lê, 2014); Garimpo (poesia infantojuvenil, Belo Horizonte/MG: Lê, 2014, finalista do prêmio Jabuti 2015); Cadela prateada (poesia, Guaratinguetá/SP: Penalux, 2016); Olho nu (poesia, São Paulo/SP: Patuá, 2017); A sede do rio não cede (poesia, e-book, org. João Gomes, Vida Secreta Publicações, 2019); Nem cai nem haicai (poesia, João Pessoa/PB: Imagística - Editora e Encadernação Artesanal e Moenda - Arte e Cultura, 2021); Quem tem pena de passarinho é passarinho (poesia, org. Ana Elisa Ribeiro, Biblioteca Madrinha Lua, São Paulo/SP: Editora Peirópolis, 2021). Também tem dois livros publicados em Portugal: Borboleta desfolhada (poesia, Portugal: Canto Escuro Editora, 2009) e De lua (poesia, Porto/Portugal: Corpos Editora, 2009). 

Participação em antologias e coletâneas: antologia ME 18: mulheres emergentes (Belo Horizonte/MG: 2007); Dedo de moça - uma antologia das escritoras suicidas (org. Florbela de Itamambuca e Silvana Guimarães, São Paulo/SP: Terracota Editora, 2009); Nós da poesia (org. Brenda Marques Pena, São Paulo/SP: All Print, 2009); Poesia para mudar o mundo (org. Leila Míccolis, Editora Blocos Online, 2015); Entre o samba e o tango (org. Regina Mello e Olga Valeska, Belo Horizonte/MG: Munap e Arquimedes, 2018); Um girassol nos teus cabelos: poemas para Marielle Franco (org. Mulherio das Letras, Belo Horizonte/MG: Quintal Edições, 2018); Cartas embaralhadas (org. Leonel Prata);  Saciedade dos Poetas Vivos  (livro digital, vol. 8, org. Leila Míccolis, Editora Blocos Online, 2016); entre outras.





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