SETE POEMAS DE MELISSA VASCONCELOS | DO LIVRO "FLORES MORTAS DO SERTÃO"

fotografia do arquivo pessoal da autora 


Sete poemas de 
Melissa Vasconcelos 

do livro 
"Flores Mortas do Sertão"



O mundo morria
e a doçura das flores imperava longe
em cima das grandes e desconhecidas vegetações.
Santo Deus permitisse que assim continuasse.
Tudo de bonito e uterino terminava acabado nas mãos 
de quem fazia obra de cimento.
O quarto está escuro, as cabanas estão fechadas.
É hora de cortar o que estava remendado.



O terço longo e desgastado sobre a mesa.
O chão sujo, velho, não pavimentado.
O menino que rala o joelho na estrada.
A avó que prepara um chá e o entrega dizendo "tome, meu filho! Que nenhum mal há de te assolar."
Deus há de querer-te vivo,
Deus não desampara nenhuma criança sem sorte.



Vejo cactos, e não me atormentam.
Ando descalça, e não me machuco.
Ando de ferro.
Ferro que a vida ornamentou na estrada.



Tiro amor da seca.
Me batem no inferno por assim ser.
Tilinta a cabeça, é o delírio da dor.
Suando como quem é espremida.
Sangrando como quem soca o estômago. 



Numa ponta faz frio.
Noutra, queima a pele do pé.
Essas serras são esquisitas.
Parecem cabeça-coração:
Não sabem se ficam ou vão embora.



Este ano, Chiquinha, 
a fogueira se esfriou e o espantamento foi fecundo.
Naquela estreada fria, evaporaram as gotas.
E nenhuma brasa boa se avistava do horizonte.
O milho cozido cheirava, mas não como antes.
Já não se faziam espigas em brasa como outrora. 
A distância entre as casas era um abismo-estrada.
Estava na hora de se ir à janela e ver o sol se por.



Se levantas para me socorrer, grande amor pisa em teu peito.
E Aquele nos vela com seu grande manto protetor.
Passou o trem e se foram dormir. Que o Ar não  nos
mate, que o Amor nos afogue. Que o Ar não nos mate,
que o Amor nos afogue. Que não nos falte Ar! Amém!


-*-

capa do livro Flores Mortas do Sertão 


Sinopse do livro Flores Mortas do Sertão

"Quantos sertões se espalham pelo Brasil numa geografia de riqueza infinita? O espaço desse reduto apaixonante não se limita ao Nordeste que Melissa Vasconcelos traz em "Flores Mortas do Sertão", mas parte dele aqui, nesta obra cuja intenção é abraçar todos os áridos e promissores chãos de um país marcado pela diversidade de configurações. 

O selo Auroras recebe essa jovem autora cearense em uma estreia com evidente voto de confiança consigo mesma — o da mulher grata pela identidade cultural de sua localidade, com a escritora crítica que se desenvolveu no cenário atual de terras e serras permanentes. 

Os traços da contemporaneidade vêm na poesia de Melissa, mas honram a antiga comunidade precursora, a ancestralidade formadora do caráter de um povo corajoso e orgulhoso. O sertão é fértil, múltiplo, e podemos, com este livro, conhecer esse tipo de paraíso. Mesmo na rudeza da realidade, vemos uma sociedade pronta para amar o seu lugar e dele não sair nunca mais, de um jeito ou de outro — a origem não se desfaz, ultrapassa fronteiras e acompanha os indivíduos nas jornadas. "Flores Mortas do Sertão" nos ensina a observar. E compreender a sabedoria que, para os viventes de tão ricos solos, é nata." (por Dani Costa Russo)

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fotografia do arquivo pessoal da autora 


MELISSA VASCONCELOS GOMES é natural de Sobral, mas residente em Ubajara, cidades no interior do Ceará. É acadêmica do curso de Direito, fundadora do Crauá Coletivo, escritora e poeta. Possui textos publicados em revistas independentes nacionais e internacionais, como a Revista Sucuru, Revista Cassandra, Revista Granuja (México), e Revista Kametza (Peru).

Livros publicados: Flores Mortas do Sertão (Selo Auroras, Editora Penalux); Para Clarice (publicação artesanal); A Intermitência do Amanhã (publicação artesanal).

Participação em coletâneas e/ou antologias: Poetize 2021 - Novos Poetas, entre outras.










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