De Prosa & Arte | Chegadas e Despedidas


Coluna 41


 Chegadas e Despedidas

"Mande notícias/ Do mundo de lá/ Diz quem fica/ Me dê um abraço/ Venha me apertar/ Tô chegando/ Coisa que gosto é poder partir/ Sem ter planos/ Melhor ainda é poder voltar/ Quando quero" M. Nascimento



Venho aprendendo a me levar e trazer nos lugares que gosto, a dirigir pra mim mesma, a trocar torneiras, descobrir barulhos no carro, carregar móveis pesados, acender a churrasqueira. 


Eu massageio meus pés quando estão muito cansados dos caminhos para onde os levei. Estou aprendendo a me levantar e partir, quando não há mais afeto ou respeito, que possa ser compartilhado.


A vida é isso: eterno (des)aprender, (des)construir, tomar pé e consciência de si. Não é à toa que venho me obrigando a fechar ciclos. Trancar portas. Erguer paredes. Ironicamente, quando a ação é externa causa um estranhamento, quando vemos o outro fazê-lo, nos causa um amargor na língua. 


Renascer é um processo muito violento. Desprender-se dos nossos maneirismos, manias tolas, hábitos nocivos, é necessário, porém uma árdua tarefa rotineira.


Eu costumava dizer que minha melhor qualidade era amar gente. E eu fazia isso muito bem. Hoje não me obrigo mais a estar 100% disponível para amar qualquer gente. Estou me concentrando em me curar da minha própria intolerância, dos meus desafetos, dos ranços que desenvolvi nas entregas sem retribuição. Eu só quero sair dessa condição mental que me atrela ao passado. Eu tenho descoberto às duras penas minha desimportância, e ser desimportante também é bom, pois nos desobriga de estar à postos para tudo e todos.


Eu acumulei tristezas focando em pequenos detalhes: as frases ditas "sem" intenção de machucar, "apenas por sinceridade", os conselhos julgadores de quem nunca ao menos lhe reservou atenção. 


Vejo os dados rolarem na mesa e os pinos seguirem no tabuleiro dos jogos da vida. Tenho azar no jogo, azar no amor e sorte no azar. 


Me disseram: "seu ano vai ser uma bosta". Usando a astrologia que é uma questão muito cara na minha constituição pessoal. Eu ouvi, assenti com a cabeça mesmo sem entrar em concordância. A discussão valia pouco. Quem teve comigo, desenvolve diferentes códigos de crenças, valores e pouquíssima experiência com a minha vida... e com a própria inclusive.


Talvez, eu não tenha realmente um ano muito promissor. Entretanto, foi nas condições mais adversas da minha vida que aprendi a me enxergar, me amar e me devolver o lugar que mereço no mundo, contrariando as estatísticas e os faladores de plantão.


Quero estar longe das violências psicológicas, físicas e simbólicas. Pode até parecer fatalista, mas venho observando o quão sou traída pela ilusão que criei sobre minha relevância na vida de algumas pessoas e sobre a relevância delas por aqui.


Dias desses,  eu ouvi:

- Pare de se importar com a imagem que lhe impingem, mantenha o foco na imagem que tem construído diariamente.


Ao entrar e ao sair de qualquer lugar ou situação peço licença e Agô.

Estou aprendendo também a sair de situações e lugares mais silenciosamente. Li em alguma rede social: - O silêncio, é patuá de gente grande.

Estou de acordo. Evita contendas, animosidades e outras mazelas.

Hoje em dia, prefiro ser vencida numa discussão em troca da minha serenidade.


Dia desses fui visitar o mar. É na beira da praia que resolvo grande parte dos problemas que invento. É do mar minha oração e para onde envio meu pranto.

Sempre que volto do litoral, trago na bagagem conselhos das marés. Trago um pouco mais de areia sob os pés. Trago maresia e reflexão.


É no embalo das ondas branco-espumosas, que me quedo diante de todas as fragilidades. Cada vez que encontro o mar, devolvo a ele a mulher rota e gasta que respira a fumaça da metrópole e encontro com a mulher ungida na seiva salina das águas de Janaína, ela que adoça o azedume da selva de pedra.


Cada fez que faço e desfaço as malas para esta viagem, procedo o descarte de bagagens que hoje são sobrepesos e os dispenso pelo caminho.

Sou mochileira, forjada nas chegadas e despedidas de mim.











Comentários

  1. Vamos então com mais leveza pelos caminhos, basta de bagagens em excesso!

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    1. É isso Rozana... seguiremos confiantes de que somos dia após dia nossa melhor versão ainda que os olhares julgadores sejam constantes. Evoé!

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