A POESIA DE SOLANGE PADILHA - por Nic Cardeal


(fotografia do arquivo pessoal da autora)

8M

Mulheres não apenas em março. 
Mulheres em janeiro, fevereiro, maio.
Mulheres a rodo, sem rodeios nem receios.
Mulheres quem somos, quem queremos.
Mulheres que adoramos.
Mulheres de luta, de luto, de foto, de fato.
Mulheres reais, fantasias, eróticas, utópicas.
Mulheres de verdade, identidade, realidade.
Dias mulheres virão, 
mulheres verão,
pra crer, pra valer!
(Nic Cardeal)

Viaje na poesia maravilhosa (e instigante!) da grande escritora SOLANGE PADILHA:


(capa do livro 'Safographia')

1)

sombro sem você
ando duplamente

(* poema publicado no livro 'Safographia')

-*-*-*-

2) 

Sinto a dor que morde.
Bato asas.
Asas batem ao vento.
Mordem a dor.
Sinto o vento bater asas.
Rumo ao norte.
Não há mais dor.

(* poema publicado no livro 'Escrita labial')

-*-*-*-

(capa do livro 'Escrita labial)

3)

O desenho de um coração é banal mas quando escrevo eu te amo, 
o sentimento torna-se possível.
Às vezes penso que você mora em Pato Branco,
próximo à Finlândia. Outras, que está entre os Inuits,
perto da Groenlândia; e, hoje, nesta quarta-feira,
enviei um fax para você a Copenhague (na Dinamarca)
onde o Instituto Niels Bohr informou a radiação
da estrela IRAS 16293-2422.
Pensava que nós somos de lá, enquanto aqui,
onde tudo é Terra,
polvilham sonhos de padaria
moléculas de 400 anos-luz.

(* poema publicado no livro 'Escrita labial')

-*-*-*-

4)

O importante é usar botas
calçadas e depois descalças
no chão que meus pés pisam
lembranças de apetrechos
que servem a uma certa visão. 
Como daquelas botas pesadas de meu pai 
tiradas com uma mulher 
(palmilha) nua,
de cócoras 
num só golpe de mão. 

(* poema publicado na 'Antologia de poesias Mulherio das Letras')

-*-*-*-

(capa do livro 'Dadá ainda anda')


5)

MARIELLE PRESENTE

O eco da fala propaga a onda
desdobra clamor
o corpo em mil pedaços rodopia
expande
Marielle presente.
Ela não é mais a que desde ladeiras sorrindo
mas a força da Maré que vem
e vira becos ruas avenidas
ondas de mulheres,
mães e filhas,
avós
muralhas que se erguem
aos cartuchos apontando
casas e corpos adolescentes. 
Seu corpo estilhaçado no pano de boca da história 
É a voz que clama
É a favela
e
o que dela
revivem
poética e resistência 
rodas de conversas

Marielle
Eu Comum
matéria e fogo
nome que não morre
entre nós multiplica
Claudias, Suelis, Elisas,
Renascentes girassóis 
Resistentes à barbárie 
Presente

(* poema publicado na 'Antologia comemorativa dia internacional da mulher Mulherio das Letras Portugal - Poesia')

-*-*-*-

6)

SERÃO TIRAS REUNIDAS 

Serão tiras reunidas no mostruário do tempo
presas uma à outra por um grampo,
um grampo se descasca,
como a pintura de cabelo aos domingos.
Como colorir os dias da semana?
Misturar as cores do arco-íris?
Profetizar com as vogais de Rimbaud?

(* poema publicado no blog www.antoniomiranda.com.br, setembro/2020)

-*-*-*-

(capa do livro 'Sobre aquilo que não cessa')

7)

Com os quatro braços cortados
pela metade
ainda acordo
árvore
não uma mesa
Árvore 
danço com montanhas
e mesmo
sem respirador
minhas raízes entranham
o chão 
Navego
o aquífero
do devir.

(* poema publicado no livro 'Sobre aquilo que não cessa')

-*-*-*-

8)

Era uma vez
a infância, minha mãe 
e a praia.
Ela cantava Caymmi,
com medo do mar
O sol refletia o timbre
em seus dentes
clarins da banda
vibravam
ao ver
Dora passar
A noite lançava 
Cordas soltas no espaço 
Ondas a respirar o vácuo 
Explosões de estrelas
a eletrizar o peito
Partículas
em busca
                   do amar infinito"

(* poema publicado no livro 'Sobre aquilo que não cessa')

-*-*-*-

9)

Todo poema
           é
  um planeta
    oriundo
         do
                      éter"

(* poema publicado no livro 'Sobre aquilo que não cessa')

-*-*-*-
8M: 8 de Março = Dia Internacional da Mulher: Projeto 'Homenagem a mulheres escritoras/artistas' iniciado em março/2021, por Nic Cardeal. 


(fotografia do arquivo pessoal da autora)

SOLANGE PADILHA é natural de Belém/PA e vive no Rio de Janeiro/RJ. Morou em Paris durante a ditadura militar, formando-se em Ciências Sociais pela Sorbonne. Fez mestrado em Ciências Sociais  pela PUC/SP. É doutora em Antropologia da Arte pela PUC/SP. Fez pesquisas de pós-doutorado pelo CNPq no acervo do Museu Nacional de Belas Artes. Editou o primeiro jornal feminista brasileiro, 'Nós Mulheres' (1976/1979, SP). É poeta, poeta visual, atriz, pesquisadora e fotógrafa amadora. 

Livros publicados: Safographia (poesia, Rio de Janeiro/RJ: Ed. Casa 6/1986); Dadá ainda anda (poesia, Rio de Janeiro/RJ: Ed. do autor/1992); Escrita labial (poesia, Rio de Janeiro/RJ: Ibis Libris/2014); Sobre aquilo que não cessa (poesia, São Paulo/SP: Patuá/2020).

Participação em antologias e coletâneas: Nova poesia brasileira (poesia, org. Olga Savary, Rio de  Janeiro/RJ: Hipocampo/1992); Poesia do Grão-Pará (poesia, org. Olga Savary, Rio de Janeiro/RJ: Graphia/2001); Antologia de poemas cariocas (poesia, Rio de Janeiro/RJ: Ibis Libris/2012); Antologia de poesias Mulherio das Letras (poesia, org. Vanessa Ratton, São Paulo/SP: Costelas Felinas/2017); Antologia comemorativa dia internacional da mulher Mulherio das Letras Portugal - poesia (org. Adriana Mayrinck, Lisboa-PT: In-finita, 2019); Antologia de prosa e conto Mulherio das Letras (org. Adriana Mayrinck, Lisboa-PT: In-finita, 2020); As mulheres poetas na literatura brasileira (poesia, org. Rubens Jardim, Cajazeiras/PB: Arribaçã, 2021); entre outras.





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