Minha Lavra do teu Livro 15 | "CARTA PARA EL NIÑO", de GLORIA KIRINUS, por Nic Cardeal



Minha Lavra do teu Livro 15

- resenhas afetivas -


LA NIÑA

 QUE ESCREVEU 

PARA EL NIÑO


CARTA PARA EL NIÑO (São Paulo: Paulus, 2012) é um livro infantojuvenil escrito por GLORIA KIRINUS e maravilhosamente ilustrado, numa incrível mescla de desenhos, pinturas e texturas, por Andréia Resende.

A autora, na voz de sua 'menina-criança', escreve uma carta para 'El Niño'. A narrativa começa de forma muito meiga: 

"Olá, El Niño! 

A cada virada do vento, ouço falar de você. Dizem por aí que é por sua causa que o tempo muda e dança, e que a chuva vai e volta de mudança. Dizem também - e isto eu li no jornal, vi na TV e também recebi notícias pela internet - que você vira corrente de água quente e não sei o que mais... Que o chamam de El Niño porque nasceu em tempo de Natal e que mora longe, longe, no mundo fundo do mar (...)".

Essa menina - a autora -, muito curiosa, quer saber tudo sobre o misterioso 'ser', que ela acredita morar no fundo do mar. Para saber de tudo isso, 'La Niña' diz 'engarrafar' toda a sua curiosidade, junto com a curiosidade de todo mundo, e assim escreve uma carta para o tal sujeitinho misterioso. Pergunta, por exemplo: "(...) Como você ajeita o sol e a chuva, e desajeita o casamento da viúva? E quanto paga para ver chuva e sol lá na festa do espanhol? (...)".

A carta é grande, tão grande quanto o tamanho sem fim da curiosidade da remetente, escarafunchando tudinho o que pode sua imensa 'interrogação', a respeito desse 'menino' morador do fundo das águas, que de repente vira vento, vira tempo, vira frio, vira água quente, vira temporal... E olha que essa curiosidade é que nem vendaval, vem de fininho, toma conta da gente e, de repente, não mais que de repente, domina tudo por dentro, e tudo o que se quer é saber tudinho o que não se sabe, nem que para isso seja preciso até mesmo escrever uma carta para o tal do 'dono' do vento, do clima pelo avesso, da água fria, da água quente, da "neve-neveira em plena primavera", e até da chuvarada toda agitada!

E a remetente dessa carta assim comprida, tão curiosa como uma grande ventania descontrolada, trata logo de arrumar muitas e muitas, muito mais do que apenas uma pergunta: "(...) Como pode um menino vivo morar dentro da maresia? Como posso eu entender que alguém more sem companhia...?(...)" 

Essa garotinha até sabe que o tal do 'menino' vive lá no fundo do Oceano Pacífico, por isso mesmo é um 'niño da paz', só não consegue entender como é possível um menino da paz dar conta de tanta agitação! E vai perguntando, perguntando, e quando se dá conta, já escreveu uma 'missiva' tão comprida quanto a sua imensa imaginação!

'La Niña' conta que no começo dessa história até achava que esse tal de 'El Niño' fosse mesmo um ninho de passarinho! Mas, quando resolveu estocar sua curiosidade dentro da garrafa, descobriu que o 'sujeitinho' era mesmo um menino, desses meninos que gostam de diversão, agitado, espertinho, até dando jeito de fazer uma tarde tranquila virar uma grande revolução, virando o tempo do avesso com a maior trovoada...

Depois de perguntas e mais perguntas, a carta finalmente chega ao fim! A remetente, já exausta, até confessa que está mesmo com vontade, literalmente, de se molhar - de tanto perguntar por água: água doce, água salgada, nuvem fina, nuvem grossa, temporal e chuvarada: "(...) Você pode responder numa concha do mar, na areia molhada, num vinco do ar... No nome bonito de nuvem - cirrus, cumulus, stratus, nimbus, tanto faz... Ou mesmo numa alga marinha com gosto de sal (...)".

Duas coisas já são certas: 

1) você ficou sabendo que o destinatário dessa carta é o misterioso 'El Niño'; e 

2) a remetente é uma menina que quer muito entender dos ventos, das chuvas, águas quentes e frias, que vivem fazendo surpresas todos os anos nas costas do 'senhor Pacífico das águas salgadas'!

E a terceira coisa? 

3) se eu fosse você, eu também trataria logo de mandar uma carta - desta vez para 'La Niña' - pedindo que ela se apresse em te mandar uma via bem sequinha desse livro tão bonito, antes que o danadinho desse 'El Niño' molhe todas as páginas, e não sobre nada, só marola, ventania, temporal de madrugada, porque nuvem fina de mansinho, de mansinho, uma hora ou outra já está pesada - vira água, muita água! Não é verdade, seu 'El Niño' danadinho?

(Nic Cardeal)


capa do livro Carta para el niño


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fotografia do arquivo pessoal da autora 


GLORIA KIRINUS é natural de Lima/Peru, naturalizada brasileira e residente em Curitiba/PR. Graduou-se em Turismo pela Escuela Nacional de Turismo em Lima (ENT) em 1971; em Letras-Português pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1986; em Letras-Espanhol pela UFPR em 1991. Especializou-se em Literatura Brasileira pela UFPR em 1987. Concluiu o mestrado em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRJ) em 1991; o doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) em 1998; e o pós-doutorado pela Université Paris Descartes em 2014. Gloria é tradutora literária, além de criadora e ministrante da oficina de criação literária e pedagogia poética, 'Lavra-Palavra'. 

Escreveu os  seguintes livros bilíngues de literatura infantojuvenil: O galo cantou por engano (El gallo canto equivocado; São Paulo/SP: Paulinas, 1994); Te conto que me contaram (Te cuento que me contaron; São Paulo/SP: Cortez, 2004); Quando chove a cântaros (Cuando llueve a cántaros; São Paulo/SP: Paulinas, 2005); Sete quedas, sete anões e um dragão (Siete cascatas, siete enanos y um dragón; Curitiba/PR: InVerso, 2005); Quando as montanhas conversam (Quando los cerros conversan; São Paulo/SP: Paulinas, 2007); Se tivesse tempo (Se tuviera tiempo; São Paulo/SP: Larousse/Escala, 2010); Lâmpada de lua (Lámpara de luna; São Paulo/SP: Larousse/Escala, 2011); e Tartalira (Tortulira; São Paulo/SP: Melhoramentos, 2014). Publicou, ainda, em português, os seguintes títulos de literatura infantojuvenil: Menino do mar (São Paulo/SP: Melhoramentos, 1990); O camelo e o camelô (São Paulo/SP: Paulinas, 1998); Aranha castanha e outras tramas - crônicas e contos (São Paulo/SP: Cortez, 2006); O sapato falador (São Paulo/SP: Cortez, 2008); Um barco em meu nome (São Paulo/SP: Paulus, 2012); Carta para el niño (São Paulo/SP: Paulus, 2012); Formigarra, Cigamiga (São Paulo/SP: Paulinas, 2013); Um sol em meu nome (São Paulo/SP: Paulus, 2014); Entre dezembro e janeiro (Curitiba/PR: InVerso, 2015); Os números primos e seus sobrinhos (Porto Alegre/RS: EDELBRA, 2016); Um antônimo em meu nome (São Paulo/SP: Paulus, 2018); Auroras e madrugadas (Curitiba/PR: InVerso, 2021); A lhama e o cisne (Curitiba/PR: InVerso, 2021); O pai do catavento (Belo Horizonte/MG: Aletria, 2021); entre outros. Também publicou o livro de minicontos Simplícios e Confúcios (Curitiba/PR: Kotter Editorial, 2019); além dos livros teóricos na área de Letras e Educação: Criança e poesia na pedagogia Freinet (São Paulo/SP: Paulinas, 1998); e Synthomas de poesia na infância (São Paulo/SP: Paulinas, 2011).







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